Acabei adormecendo ao lado do
celular, esperando que ele ligasse novamente dizendo que não dormiria sem o
escutar meu “eu te amo.” Não sei muito bem como nomear isso, essa persistência em
continuar acreditando que ele vai ligar, mesmo que nunca faça isso, mesmo sendo
eu quem sempre retorna a ligação. “Não vai dormir agora, eu to triste, conversa
comigo.” Ninguém deveria pedir essas coisas, não é? Mas não se deveria porque
tá errado ou simplesmente porque ninguém nunca deveria desligar o telefone
sabendo que a pessoa do outro lado da linha não se encontra em um de seus
melhores dias.
Embora eu tenha ligado depois, não
consegui ficar alegre, mesmo que ele cantarolasse minhas músicas preferidas e
me contasse as piadas que costumava compartilhar com os amigos quando eram
crianças. Durante as 3 horas de conversa, gargalhei, sorri imaginando suas
caras quando contava algum acontecimento, e respondi com toda a sinceridade
cada pequena declaração em meio à troca de assuntos. Desliguei o telefone lá
pelas 5 horas da manhã, e mesmo que seu “eu te amo” tenha sido a última coisa
que escutei, não foi a primeira que passou pela minha cabeça ao colocar o
celular na cabeceira ao lado da cama.
Me pergunto se estou exagerando em
ficar triste por ser sempre quem liga depois de uma briga, por conseguir deixar
47 ligações perdidas e 28 mensagens na sua caixa postal, “Por favor, eu sei que
você tá ouvindo, amor, me liga, não quero brigar, eu amo você” e receber em
troca duas ligações perdidas e aquele sms “me liga quando der.” Talvez eu seja
muito dramática, e dramatize tudo. Mas não é disso que amor também é feito? De
exageros? Bater na porta da casa dele às 4 da manhã dizendo que não conseguiria
dormir brigada com ele. “Vamos conversar, ou não, vamos só dormir juntinhos,
sei que amanhã acordaremos bem”. Ele te recebe com todo carinho, por vezes até lisonjeado
com seus atos exagerados e desesperados. E no dia seguinte acordar com ele te enchendo
de beijinhos sem se importar com seu halito matinal, cochichando no seu ouvido
que acordou louco de vontade de fazer amor com você. E você mesmo com sono não nega,
como negaria aquele homem lindo com rostinho de menino sapeca que acabou de
acordar e tudo que quer é você? Não negaria. Não nega nunca. Tudo que você quer
é ele também, seja às 2 da tarde de uma terça-feira monótona coberta de
saudades, ou no domingo de manhã, sem escovar os dentes ou pentear os cabelos,
e pra quê todas essas regalias pra fazer amor? Vocês irão terminar suados e descabelados
de qualquer jeito. Ah, fazer amor de manhã, não consigo pensar em forma melhor
de começar o dia. E de repente, porque é que brigaram ontem a noite mesmo? Nem
me lembro mais, tudo isso foi apagado da memória pra dar espaços pras gravações
do seu rosto estampado de prazer. E tudo é bom de novo, aquele fim de noite
destrutivo foi liquidado, porque afinal, você foi acordada com um cheirinho no
pescoço, e alguns minutos depois estava perdida no corpo dele que você conhece
milimetricamente, e isso é tudo que importa. Eu sei. Ele sabe. Você também
sabe. Mas afinal, isso tudo teria acontecido se você não tivesse batido na
porta dele às 4 da manhã? Quem sabe.
