Parte 3:
O relógio marcava três horas da
madrugada em ponto, o que confirmava que eu estava rolando na cama há exatas
duas horas sem conseguir fechar os olhos. Os últimos dois dias foram
impossíveis de dormir, na noite do domingo eu tive minha primeira briga com Harry,
na qual ele simplesmente foi embora no meio da noite, e sumiu pelos dois dias
seguintes. Nenhuma mensagem. Nenhum telefonema. Nenhuma porra de noticia. Eu me
sentia péssima, e para completar essa maré de sorte, Tom e Karina haviam
passado essas mesmas duas noites discutindo, aos gritos, na sala, e eu escutava
tudo do meu quarto, preparada pra sair a qualquer momento e evitar um possível
assassinato. Chegava a ser irônico, inclusive, pois quando conheci Tom, ele era
um dos caras mais calmos que eu já havia visto, e apesar de toda a dificuldade
da relação dele com minha amiga-nada-calma, não imaginava que um dia escutaria
ele aos berros na sala do meu apartamento. Pensando nisso, não pude evitar
fazer uma comparação, acho que preferia ter Harry gritando comigo do que aquele
silêncio que eu tinha medo que durasse pra sempre. Eu sei que ele se importava
comigo, eu sabia disso, dizer que ele havia sumido por não estar nem aí seria
de uma falsa declaração que eu não era capaz de dar nem no mais elevado do meu pessimismo,
mas esmagava meu coração pensar que na primeira dificuldade ele havia
simplesmente sumido quando eu mal conseguia aguentar um dia longe dele. E além
de todas essas coisas, sempre haveria uma terceira pessoa, ou melhor, sempre
haveria uma primeira pessoa, pois a terceira era eu. Eu, que estava nesse
momento remoendo uma suposta relação fodida enquanto pressionava o travesseiro
contra o ouvido para evitar escutar os gritos da relação fodida dos meus
amigos.
Céus, e o pior era pensar que isso tudo
estava apenas começando.
Depois de algum tempo, parei de escutar
as vozes de Tom e Karina, e se eu não conhecesse tão bem meus amigos, diria que
eles haviam se matado, mas como eu os conhecia bem demais, sabia como aquela
briga terminaria: o sofá pagando as consequências do fight and fuck semanal
desse casal maluco.
Como eu não estava no humor pra segurar
vela presa no meu quarto com medo de sair e ver cenas que me fariam desejar ser
cega, eu vesti um sobretudo comprido que cobria todo o meu pijama, calcei
minhas botas e saí do quarto de fininho, indo em direção à porta dos fundos da
cozinha. Não deixei nenhum recado, pois sabia que eles não sentiriam minha
falta pelas próximas duas horas, e eu só pretendia dar uma volta, refletir um
pouco enquanto torturava meu corpo com o frio sempre agressivo da Inglaterra.
Era em momentos como esse que eu tinha certeza de que nunca iria me acostumar
com o clima. E subitamente senti falta do Brasil.
Abri o portão do prédio e antes que
pudesse dar mais de dois passos, vi Harry sentado na calçada, fumando um
cigarro. Embora ele estivesse de costas, ele sabia que era eu quem havia saído,
pois sua postura antes relaxada ficou tensa. Apesar de estar surpresa, não
fiquei mais de 5 segundos ali, fechei o portão e segui com minha caminhada,
sabendo que ele estava me acompanhando. Caminhamos dessa forma por uns 10
minutos, eu mais a frente, e ele logo atrás de mim, ambos em total silencio.
Avistei uma pracinha que estava quase vazia, exceto por três ou quatro
adolescentes e um guarda, sentei no primeiro banco vazio que vi, e Harry sentou
do meu lado assim que me alcançou.
Agradeci mentalmente pela Inglaterra
ser um país tão seguro e Chichester uma cidadezinha pouco movimentada, assim eu
poderia estar num parque as 3:30 da madrugada sem me preocupar com a violência,
embora eu estivesse me sentindo a pessoa mais frágil do mundo naquele instante.
E quando Harry abriu a boca, eu achei que fosse quebrar por dentro.
- Há coisas que eu quero te dizer, e
elas precisam ser ditas agora, porque eu venho guardando elas por cerca de
quase um ano, e domingo passado eu cheguei muito perto de decidir nunca mais te
ver, Amanda. – Meu coração afundou no peito quando escutei ele falar isso, a
ideia de que ele pudesse simplesmente desistir de mim era perturbadora demais
pra eu sequer cogita-la. Eu não sabia se estava preparada pra escutar aquilo,
mas se ele estava preparado pra falar, eu ouviria até o fim. Depois de uma
pequena pausa, ele continuou:
- No domingo, quando eu fui embora no
meio da noite, eu soube que minha vida estaria arruinada se eu voltasse a te
ver. E que eu também estaria arruinado se não te visse nunca mais. – Eu não me
dei conta de que estava prendendo a respiração até solta-la num suspiro aliviado
depois de ter escutado as últimas palavras de Harry. Ele não me olhou em
momento algum, e eu não ousei mover um musculo sequer, nós dois encarávamos
algum ponto fixo no chão e ele falava com cuidado e calma enquanto eu ouvia
atentamente: - No dia que eu te conheci, no momento em que tu entrou no meu
campo de visão, eu senti algo que eu nunca havia sentido antes, na verdade, eu
já sentia algo diferente só de ouvir Tom falando da psicóloga incrível dele, eu
não sei explicar o motivo disso mas eu queria muito, muito mesmo, conhecer
você. E o dia que finalmente nos conhecemos, no churrasco na casa do Danny, a
ideia de convidar você foi minha.
Flashback on.
Eles dizem que quando você deseja
intensamente uma coisa, o universo conspira a favor. Eu nunca acreditei muito
nisso, pra ser sincera, houve centenas de coisas que desejei profundamente, mas
o universo não me presenteou com nenhuma delas. Mas o que parecia era que em
relação a esta coisa especifica, ou melhor, a ele, tudo conspirava a favor,
desde o dia do nosso primeiro encontro, ou até bem antes dele.
Eu estava parada na porta da casa do
Danny, sem coragem de apertar a campainha, virei pra Karina que parecia tão
nervosa quanto eu, ou até mais. Ela ergueu a mão, que tremia, e com a coragem
que lhe restava, apertou a campainha. Foram cerca de 10 segundos até Tom
aparecer e abrir a porta pra gente. Ele com certeza estava esperando perto da
porta, se bem conheço meu ex-paciente e mais novo amigo.
- Oi, meninas, que bom que vocês
vieram. – Ele nos cumprimentou sorrindo, e eu pude perceber o nervosismo
dele. Éramos todos uma bomba relógio de nervosismo, cada um por seus motivos
pessoais. Adentamos a casa enquanto Tom nos guiava para o que eu julgava ser o
quintal, onde estava sendo feito o churrasco. Karina apertou minha mão e eu
virei para ela, que me apontava com os olhos para a parede em nosso lado
esquerdo, onde havia varias fotos, mas uma especifica me chamou atenção, e eu
soube que era essa a qual ela se referia, era um retrato grande do casamento de
Danny e Georgia, e ao lado deles todos os outros três casais. Virei o rosto pra
Karina e revirei os olhos. Ela riu, Tom virou pra trás e nos olhou meio sem
entender.
- A casa é muito bonita, e grande. Dá
cinco do nosso apartamento. –Respondi rapidamente, tentando disfarçar.
- é a casa dele é a maior de todas, ele
diz que quer ter muitos filhos. – Tom comentou rindo nervosamente. Eu estava
começando a achar engraçado todo esse nervosismo dele, embora entendesse. Hoje
era um dia muito importante para todos nós. Tom havia nos convidado para esse
churrasco que Danny estava fazendo somente para alguns amigos. Tom ligou
dizendo que estava com Danny perto de Chichester e estava convidando eu e
Karina para sairmos com eles, e o que seria um jantar para conhecer um novo restaurante
acabou se tornando uma madrugada bebendo e conversando num pub. E então no meio
da conversa, eles nos convidaram para um churrasco que aconteceria no domingo,
na casa do Danny, apenas os outros caras da banda, e mais uns poucos amigos.
Nós aceitamos o convite prontamente, pois queríamos muito conhecer todos os
outros meninos, até o momento, só havíamos conhecido de verdade Tom e Danny,
que eram nossos parceiros sempre que fazíamos algum programa em Londres, Danny
por sempre topar tudo e ser muito divertido, e Tom que embora não fosse muito
de sair, nos acompanhava somente pra não perder a oportunidade de estar com
Karina.
Quando finalmente chegamos na parte
detrás da casa, onde estava sendo feito o churrasco, o som alto da música tomou
conta dos meus ouvidos, e a fumaça da carne assando veio direto em meu rosto,
fechei os olhos por um momento e quando os abri novamente, fui recebida com um
abraço apertado de Danny, que me soltou e logo em seguida abraçou Karina.
- Ah, que bom que vocês vieram. Venham,
vou apresentar vocês a todo mundo. – Ele nos puxou por meio entre as cadeiras e
mesas e foi levando para mais perto de onde estavam as outras pessoas.
- Gente, essas aqui são minhas amigas
brasileiras que falei pra vocês, Karina e a Amanda. – Nos demos oi para todos e
em seguida uma voz se sobressaiu entre as outras eu virei o rosto para ver quem
era.
- Ei, Amanda, você não esta quebrando
nenhuma regra virando amiga do seu paciente¿ - Perguntou Dougie, se referindo a
Tom, que estava em silencio ao nosso lado.
- Ela não é mais minha psicóloga. – Foi
a única coisa que Tom respondeu, e pude notar que ele ainda estava nervoso.
Coitado, acho que hoje o verdadeiro desafio seria pra ele.
- Nós estamos testando uma coisa nova
agora, uma mistura de amiga e psicóloga sem compromisso. – Respondi Dougie, que
riu e comentou em seguida:
- Boa sorte então, mas tenho que te
falar, a loucura do Tom não tem mais jeito. – Todo mundo riu da piada de
Dougie, exceto Tom, que revirou os olhos e virou para mim e para Karina,
perguntando se queríamos algo.
- Eu quero uma cerveja. – Respondeu
Karina de imediato. E eu comentei com ironia:
- Uau, uma cerveja, que surpresa! Bom,
eu quero agua, tô morrendo de sede. – Respondi para Tom enquanto meus olhos
passeavam pelo ambiente, em busca da pessoa que eu queria ver.
- Agua só tem na cozinha, 3º porta a
direita, vai lá enquanto eu pego uma cerveja pra Karina. – Disse Tom, apontando
para a porta que me levaria de volta pra dentro da casa.
- Vai lá, amiga. Vou pegar a cerveja
com o Tom. – Karina virou e deu uma piscadinha que só eu vi, saindo em seguida
com o Tom. Traíras! Não fazia nem 5 minutos que eu havia chegado e já tinha
sido abandonada.
Olhei meus falsos amigos indo na
direção oposta a mim, e resolvi ir até a cozinha sozinha, o máximo que poderia
acontecer seria eu me perder dentro daquela casa imensa, e passar uma semi
vergonha na frente dos meus mais novos amigos. Não pude deixar de observar o
quanto a casa era bonita, e nos vários retratos espalhados pelas paredes, segui
as instruções de Tom, e quando passei pela porta que me levaria à cozinha, vi
uma pessoa parada, em frente a pia, lavando alguma coisa, ele estava de costas
pra mim, mas eu o reconheci. Reconheceria em qualquer lugar.
Eu sabia que tinha que dizer alguma
coisa, mas não consegui nem abrir a boca, fiquei parada por um breve segundo,
até ele se dar conta de que tinha mais alguém no cômodo. Então ele virou pra
mim e abriu a boca para dizer alguma coisa, mas acho que mudou de ideia, pois
ficamos ali parados, um olhando para o outro sem saber o que dizer, com somente
o barulho da agua descendo da torneira que ele deixou aberta. Esse momento
provavelmente não durou mais de 10 segundos, mas me pareceu uma eternidade,
então resolvi quebrar o silencio com a única coisa que me veio à mente:
- Eu... Eu sou a... – Gaguejei um
pouco, mas antes que eu pudesse terminar de me apresentar, ele me interrompeu:
- Amanda. – Falou com uma convicção que
me surpreendeu.
- Sim, sim, eu mesma, e você é Harry,
certo? - Perguntei, me aproximando dele para cumprimenta-lo.
- Sim, sou eu... Harry... isso...
– Ele respondeu meio sem jeito, e apertou a mão que eu havia estendido para
ele. Nos cumprimentamos com um aperto de mão, que quase pareceu uma caricia de
tão delicado, eu tentei ignorar a sensação maravilhosa que foi tocá-lo, mesmo
que um toque simples como esse. Deus sabe como eu esperei por isso.
- Ah, desculpa... – Ele disse, olhando
para minha mão que agora estava molhada. Eu nem havia percebido que a mão dele
estava molhada, mas no segundo em que me dei conta disso, lembrei
instantaneamente de um sonho, o primeiro que tive com ele, onde havia muita
agua e eu reconhecia o cheiro dele como “cheirinho de agua”, por ele estar
molhado. A coincidência me fez rir, pois eu sabia que de coincidência, não
havia nada.
- Não tem problema, é só agua – Tratei
de responder sorrindo, enquanto afastava meus pensamentos da minha cabeça,
precisava agir normalmente, senão ele estranharia meu comportamento. Comecei a
me comportar da forma mais casual possível, e não precisei me esforçar muito,
pois se tem uma coisa que eu sabia fazer, era fingir que estava tudo normal
quando não estava.
- Toma, enxuga sua mão aqui – Ele
disse, me entregando um pano. Peguei sem encostar em sua mão, também não vamos
abusar da minha tentativa de mostrar casualidade, nem eu sobreviveria a outro
toque dele naquele dia. Não naquele primeiro dia.
- Obrigada. – Agradeci enquanto
enxugava as mãos num pano de prato, e Harry desligava a torneira da pia. – Onde
tem agua? Tô morrendo de sede. – Perguntei colocando o pano no balcão.
- No bebedouro, aí do lado da geladeira
– Ele respondeu, apontando o bebedouro que estava do lado da geladeira, logo
atrás de mim - Pera, vou pegar um copo pra você. – Respondeu Harry, indo
em direção ao armário gigante que tinha do lado direito da cozinha, ele abriu
uma porta e pegou um copo, me entregando. Agradeci e fui até o bebedouro, enchi
meu copo de agua e tomei tudo rapidamente, esperando que a agua gelada
acalmasse meus nervos, o que funcionou por um milésimo de segundo, até ouvir a
voz de Harry mais uma vez.
- Você chegou há muito tempo? –
Perguntou Harry, sentando em uma cadeira em frente ao balcão que nos separava.
- Não, cheguei nesse segundo, e vim
direto beber agua. – Respondi, enchendo o copo de agua mais uma vez, e indo me
sentar na cadeira, de frente para ele.
- E você está só na agua hoje, é? Ou
não bebe? - Ele perguntou, apontando para o copo em minhas mãos.
- Eu bebo sim, mas é difícil, hoje
estou só na agua. E tu, tá de mãos vazias por quê? – Perguntei informalmente,
tentando quebrar aquele clima meio tenso no ar. Eu, particularmente, não tinha
problemas com primeiras conversas, eu era sempre bem amigável e criava
intimidade com facilidade, mas agora eu estava me sentindo extremamente tensa e
nervosa, e pude notar que ele também estava se sentindo desconfortável, sabe
Deus porquê, de todas as formas que eu imaginei esse momento, nunca nos
imaginei tão sem jeito assim. Lembrei de quando Karina e Tom se conheceram e
como havia acontecido tudo naturalmente, claro que o fator de Karina estar
levemente alterada por umas cervejas influenciava bastante, mas eu estava
presente e pude perceber que apesar do nervosismo da minha amiga, ela e Tom se
deram bem imediatamente. Como eu queria que ela estivesse aqui pra tirar umas
piadas e me fazer relaxar.
- Eu não bebo, parei há algum tempo. –
Como quem lia minha mente, Harry perguntou de Karina: - Sua amiga veio com
você?
- Veio sim, ela e Tom foram pegar umas
cervejas. – Harry lançou um sorrisinho meio de lado assim que mencionei os
dois. E naquele mesmo momento eu soube que ele sabia de algo. Tom e Karina não
haviam tido nada até o momento, nada concreto, pelo menos, porém estavam
naquele pré-romance, aquela fase de tensão onde nada acontecia, mas a qualquer
momento tudo aconteceria.
A situação estava começando a ficar
engraçada, a tensão no ar era quase apalpável, e embora fosse visível que ambos
estávamos desconfortáveis, não desviamos os olhos um do outro, talvez isso
estivesse dificultando ainda mais. Comecei a beber meu copo de agua mais uma
vez, e os olhos de Harry, que estavam fixos em mim, moveram-se rapidamente para
o meu lado, e ele riu, dizendo logo em seguida:
- Falando no diabo... – Neste momento,
Karine e Tom adentraram a cozinha, rindo e segurando umas garrafas de cerveja.
Eu agradeci mentalmente a Deus por ter escutado minhas preces.
- Mana, era pra tu buscar agua e
voltar, sabe. – Disse Karina, colocando duas garrafas de cerveja no balcão e
sentando na cadeira do meu lado. Por debaixo do balcão, ela chutou sutilmente
minha perna. Claro que eu havia entendido o recado.
- Ah que bom que vocês já se
conheceram. – Disse Tom, tomando o lugar vago ao lado de Harry. Ficamos
sentados os quatro lá, eu e Karina de um lado, e Tom e Harry de outro.
- Sim, estávamos conversando aqui –
Disse Harry, virando o rosto para mim. E eu soltei uma risadinha, confirmando
com a cabeça.
- Amanda, o Harry era doido pra te
conhecer – Assim que Tom disse isso, Harry olhou para ele com um semblante
traído, logo em seguida virou para mim, mais sem jeito do que estava antes, e
eu achando que isso não era possível:
-é, estava curioso pra saber como
alguém consegue aguentar o Tom reclamando toda semana – Ele respondeu, e todos
rimos, inclusive Tom.
- Bom, eu fui muito bem paga, além do
mais, não era eu quem escolhia os pacientes... – Respondi Harry, e novamente,
todos rimos. E pela primeira vez senti o ambiente ficar mais leve. Acho que a
equação “quebrando o gelo” estava resolvida: fazer piadinhas com Tom.
- Tá, tá bom, já chega dessas
brincadeiras. – Disse Tom, parando de rir e dando um gole na cerveja. – Harry,
essa é a Karina. – Ele continuou, apresentando oficialmente os outros dois.
Ambos estenderam as mãos e se cumprimentaram.
- Oi, Karina, muito prazer. Ouvi muito
sobre você – Disse Harry, sorrindo de lado. E agora mais do que nunca, eu tive
certeza que ele sabia sobre os dois, então Karina chutou minha perna por
debaixo do balcão mais uma vez, e eu sabia que ela tinha pensado a mesma coisa
que eu. Tom ficou tenso ao lado de Harry, provavelmente com medo do amigo dizer
mais do que devia, ainda mais depois de Tom ter entregado a curiosidade de
Harry em me conhecer, mas antes que ele pudesse se preocupar com isso, por
sorte, Karina mudou de assunto:
- Haaaaarry, que prazer, também escutei
muito sobre você! Mas e aí, vai beber hoje não? – Perguntou Karina, apontando
para as cervejas que ela e Tom haviam colocado sobre a mesa. – Pode pegar aí
vocês dois.
- Não, obrigada, eu parei de beber –
Disse Harry, sorrindo.
- Tenta de novo ué – Respondeu Karina e
todos rimos. – E tu, mana, vai fazer a careta hoje? – Minha querida amiga
alcoólatra perguntou olhando pra mim.
- Hoje eu vou, amiga. E tu vê se não
vai me fazer passar vergonha – Respondi, fazendo menção as garrafas de cerveja
em cima da mesa.
- Você também, Tom, não esquece que tu
é fraco pra bebida – Disse Harry, pegando carona no meu mini sermão.
- E que tá tomando remédio também,
então moderação hein – Finalizei, olhando sério para Tom.
- Ihhhh, vão começar – Reclamou Tom,
fazendo uma careta engraçada. Eu e Harry nos olhamos e sorrimos. Uhu, mais uma
variável para nossa equação de quebra de gelo: nos entendemos na hora de zoar
Tom, e na hora de passar um sermão. Coitado do meu amigo, para sorte dele,
Karina saiu em defesa do bichinho.
- Vish, não acredito que vocês dois vão
fazer essa pra cima de mim. Pra cima de mim!!! – Respondeu Karina, rindo. Harry
pareceu não entender muito bem, mas eu entendi o que ela quis dizer – Vem, Tom,
vamos beber, deixa esses chatos caretas aí – Karina e Tom se levantaram das
cadeiras, pegaram as cervejas e foram saindo da cozinha, antes de sumir
completamente do nosso campo de visão, Tom gritou – Venham logo pra cá com a
gente. Eu e Harry rimos e começamos a nos levantar para segui-los, terminei meu
copo com agua, e entreguei para Harry, que levantou da cadeira e foi até a pia.
- Ia dizer que ele não é sempre desse
jeito, mas acho que você sabe disso – Disse Harry, de costas para mim, lavando
o copo que eu havia usado.
- Sim, ele tá nervoso, tá tentando se acalmar
– Respondi para ele, que agora enxugava o copo e guardava-o de volta ao
armário. Lembrei da tal obsessão por limpeza dele.
- E tá tentando impressionar ela – Ele
falou, virando para mim. Me senti um pouco desconfortável em tocar no assunto
Tom e Karina, não sabia a posição de Harry quanto eles dois, embora ele já
tivesse deixado claro que sabia o que estava acontecendo.
- Sim, isso com certeza, mas não posso
julga-lo – Respondi, olhando diretamente para ele, ainda com medo de me
posicionar sobre o assunto.
- Sim, isso ninguém pode. Você tem que
fazer o que tem que fazer. – Eu já havia levantado da cadeira, mas continuava
parada no mesmo lugar. Harry então se aproximou novamente de mim, apoiou-se no
balcão, e se inclinando em minha direção, continuou – Mas, se me permite, posso
perguntar sua opinião sobre o assunto? – Ele me olhou sério. Então eu me
aproximei um pouco mais do balcão, me apoiei e me inclinei, repetindo o gesto
dele:
- Você tem que fazer o que tem que
fazer. – Respondi, sorrindo. Ele abriu um sorriso largo com a minha resposta, e
encerrou o assunto dizendo:
- Vamos, psicóloga? – Perguntou ele,
acenando com a cabeça em direção a porta da cozinha.
- Vamos! – Respondi, e caminhei em
direção à porta, com ele logo atrás de mim. Passamos pela porta da cozinha e
pelo corredor que daria até a sala completamente em silencio, eu sabia que os
olhos dele estavam grudados em mim e voltei a me sentir desconfortável. Céus,
esse dia ia ser longo. E guardava muito mais surpresas do que eu esperava.
Flashback off
Enquanto Harry falava eu sentia um
turbilhão de sentimentos que não saberia explicar, algumas horas meu coração
afundava no peito, outras eu me sentia aliviada, mas ainda assim, eu estava
morrendo de medo em saber da decisão que ele havia tomado em relação a nós
dois. A verdade é que dependia tudo dele, decidir ficar ou não, porque a minha
resposta seria sempre a mesma. Eu duvidava profundamente de que existisse algo
que eu não faria por ele.
- Ser teu amigo foi muito difícil, era
desconfortável estar na tua presença, sei que tu percebias isso, sei da
reciprocidade, e ainda assim eu não conseguia me manter longe. Foi difícil, pra
mim, resistir... – Harry fez outra pausa, deu uma última tragada em seu
cigarro, jogou-o no chão e pisou em cima dele – Eu sei que você sabe por
que a tensão entre eu e você era visível, tanto que todo mundo percebia, e
principalmente porque de uma forma extraordinária, e ao mesmo tempo
assustadora, você parece saber exatamente o que eu sinto, e eu sei exatamente
como você se sente. O grande problema é que a gente finge que não sabe nada
disso, a gente fingiu que não era desconfortável quando ficávamos sozinhos, a
gente fingiu que poderíamos ter uma amizade normal, a gente fingiu que
poderíamos ter alguma... coisa e depois fingimos que não precisávamos nunca
falar sobre o assunto, meu deus, a gente finge o tempo inteiro. E eu não quero
mais fingir porque eu sei que você sabe de tudo isso, e você também sabe o que
eu sei. Eu sei que a maior parte da culpa é minha, você se restringe porque eu
sou fechado, e eu te conheço o suficiente pra saber que você não é nem um pouco
fechada, não quero que tu adapte teu jeito pro meu, porque eu me sinto
extremamente bem em ser eu mesmo contigo, e agora quero poder me sentir bem com
o que eu sinto contigo, e pra isso eu precisava falar sobre isso, e preciso que
você fale sobre isso.
Harry deu um suspiro profundo, como se
finalmente aliviasse um peso imenso que carregava nos ombros desde que tudo
começou. Eu carregava o mesmo, mas ainda não estava pronta pra tira-lo das
costas, pelo menos não essa noite. Achei que ele havia terminado, mas antes que
eu pudesse mover um musculo, ele voltou a falar:
- Me desculpa por não ter conseguido
manter só uma amizade, me desculpa por ter te colocado nessa situação, me
desculpa por te deixar as cegas em relação ao que sinto por ti, me desculpa
pela cena do domingo, me desculpa por ter sumido depois disso, e
principalmente, me desculpa por todas as coisas ruins e complicadas que estão
por vir, porque elas virão, você sabe bem. Então a hora pra desistir é agora,
se você quiser parar, eu vou respeitar tua decisão, e vou me afastar... – Harry
virou o rosto em minha direção e eu repeti seu gesto involuntariamente, e
olhando diretamente nos meus olhos, ele terminou seu discurso:
- Mas eu estou apaixonado por você,
desde o primeiro dia em que eu te vi. Eu quero que você fique. Comigo. Comete
esse erro.
