domingo, 10 de maio de 2015

Make this mistake.


Parte 3:


It's temporary insanity
What's going on with you and me?
Is it real or is it fantasy?
Forever or just temporary insanity?

O relógio marcava três horas da madrugada em ponto, o que confirmava que eu estava rolando na cama há exatas duas horas sem conseguir fechar os olhos. Os últimos dois dias foram impossíveis de dormir, na noite do domingo eu tive minha primeira briga com Harry, na qual ele simplesmente foi embora no meio da noite, e sumiu pelos dois dias seguintes. Nenhuma mensagem. Nenhum telefonema. Nenhuma porra de noticia. Eu me sentia péssima, e para completar essa maré de sorte, Tom e Karina haviam passado essas mesmas duas noites discutindo, aos gritos, na sala, e eu escutava tudo do meu quarto, preparada pra sair a qualquer momento e evitar um possível assassinato. Chegava a ser irônico, inclusive, pois quando conheci Tom, ele era um dos caras mais calmos que eu já havia visto, e apesar de toda a dificuldade da relação dele com minha amiga-nada-calma, não imaginava que um dia escutaria ele aos berros na sala do meu apartamento. Pensando nisso, não pude evitar fazer uma comparação, acho que preferia ter Harry gritando comigo do que aquele silêncio que eu tinha medo que durasse pra sempre. Eu sei que ele se importava comigo, eu sabia disso, dizer que ele havia sumido por não estar nem aí seria de uma falsa declaração que eu não era capaz de dar nem no mais elevado do meu pessimismo, mas esmagava meu coração pensar que na primeira dificuldade ele havia simplesmente sumido quando eu mal conseguia aguentar um dia longe dele. E além de todas essas coisas, sempre haveria uma terceira pessoa, ou melhor, sempre haveria uma primeira pessoa, pois a terceira era eu. Eu, que estava nesse momento remoendo uma suposta relação fodida enquanto pressionava o travesseiro contra o ouvido para evitar escutar os gritos da relação fodida dos meus amigos.
Céus, e o pior era pensar que isso tudo estava apenas começando.
Depois de algum tempo, parei de escutar as vozes de Tom e Karina, e se eu não conhecesse tão bem meus amigos, diria que eles haviam se matado, mas como eu os conhecia bem demais, sabia como aquela briga terminaria: o sofá pagando as consequências do fight and fuck semanal desse casal maluco.
Como eu não estava no humor pra segurar vela presa no meu quarto com medo de sair e ver cenas que me fariam desejar ser cega, eu vesti um sobretudo comprido que cobria todo o meu pijama, calcei minhas botas e saí do quarto de fininho, indo em direção à porta dos fundos da cozinha. Não deixei nenhum recado, pois sabia que eles não sentiriam minha falta pelas próximas duas horas, e eu só pretendia dar uma volta, refletir um pouco enquanto torturava meu corpo com o frio sempre agressivo da Inglaterra. Era em momentos como esse que eu tinha certeza de que nunca iria me acostumar com o clima. E subitamente senti falta do Brasil.
Abri o portão do prédio e antes que pudesse dar mais de dois passos, vi Harry sentado na calçada, fumando um cigarro. Embora ele estivesse de costas, ele sabia que era eu quem havia saído, pois sua postura antes relaxada ficou tensa. Apesar de estar surpresa, não fiquei mais de 5 segundos ali, fechei o portão e segui com minha caminhada, sabendo que ele estava me acompanhando. Caminhamos dessa forma por uns 10 minutos, eu mais a frente, e ele logo atrás de mim, ambos em total silencio. Avistei uma pracinha que estava quase vazia, exceto por três ou quatro adolescentes e um guarda, sentei no primeiro banco vazio que vi, e Harry sentou do meu lado assim que me alcançou.
Agradeci mentalmente pela Inglaterra ser um país tão seguro e Chichester uma cidadezinha pouco movimentada, assim eu poderia estar num parque as 3:30 da madrugada sem me preocupar com a violência, embora eu estivesse me sentindo a pessoa mais frágil do mundo naquele instante. E quando Harry abriu a boca, eu achei que fosse quebrar por dentro.
- Há coisas que eu quero te dizer, e elas precisam ser ditas agora, porque eu venho guardando elas por cerca de quase um ano, e domingo passado eu cheguei muito perto de decidir nunca mais te ver, Amanda. – Meu coração afundou no peito quando escutei ele falar isso, a ideia de que ele pudesse simplesmente desistir de mim era perturbadora demais pra eu sequer cogita-la. Eu não sabia se estava preparada pra escutar aquilo, mas se ele estava preparado pra falar, eu ouviria até o fim. Depois de uma pequena pausa, ele continuou:
- No domingo, quando eu fui embora no meio da noite, eu soube que minha vida estaria arruinada se eu voltasse a te ver. E que eu também estaria arruinado se não te visse nunca mais. – Eu não me dei conta de que estava prendendo a respiração até solta-la num suspiro aliviado depois de ter escutado as últimas palavras de Harry. Ele não me olhou em momento algum, e eu não ousei mover um musculo sequer, nós dois encarávamos algum ponto fixo no chão e ele falava com cuidado e calma enquanto eu ouvia atentamente: - No dia que eu te conheci, no momento em que tu entrou no meu campo de visão, eu senti algo que eu nunca havia sentido antes, na verdade, eu já sentia algo diferente só de ouvir Tom falando da psicóloga incrível dele, eu não sei explicar o motivo disso mas eu queria muito, muito mesmo, conhecer você. E o dia que finalmente nos conhecemos, no churrasco na casa do Danny, a ideia de convidar você foi minha.

Flashback on.

Eles dizem que quando você deseja intensamente uma coisa, o universo conspira a favor. Eu nunca acreditei muito nisso, pra ser sincera, houve centenas de coisas que desejei profundamente, mas o universo não me presenteou com nenhuma delas. Mas o que parecia era que em relação a esta coisa especifica, ou melhor, a ele, tudo conspirava a favor, desde o dia do nosso primeiro encontro, ou até bem antes dele.
Eu estava parada na porta da casa do Danny, sem coragem de apertar a campainha, virei pra Karina que parecia tão nervosa quanto eu, ou até mais. Ela ergueu a mão, que tremia, e com a coragem que lhe restava, apertou a campainha. Foram cerca de 10 segundos até Tom aparecer e abrir a porta pra gente. Ele com certeza estava esperando perto da porta, se bem conheço meu ex-paciente e mais novo amigo.
- Oi, meninas, que bom que vocês vieram.  – Ele nos cumprimentou sorrindo, e eu pude perceber o nervosismo dele. Éramos todos uma bomba relógio de nervosismo, cada um por seus motivos pessoais. Adentamos a casa enquanto Tom nos guiava para o que eu julgava ser o quintal, onde estava sendo feito o churrasco. Karina apertou minha mão e eu virei para ela, que me apontava com os olhos para a parede em nosso lado esquerdo, onde havia varias fotos, mas uma especifica me chamou atenção, e eu soube que era essa a qual ela se referia, era um retrato grande do casamento de Danny e Georgia, e ao lado deles todos os outros três casais. Virei o rosto pra Karina e revirei os olhos. Ela riu, Tom virou pra trás e nos olhou meio sem entender.
- A casa é muito bonita, e grande. Dá cinco do nosso apartamento. –Respondi rapidamente, tentando disfarçar.
- é a casa dele é a maior de todas, ele diz que quer ter muitos filhos. – Tom comentou rindo nervosamente. Eu estava começando a achar engraçado todo esse nervosismo dele, embora entendesse. Hoje era um dia muito importante para todos nós. Tom havia nos convidado para esse churrasco que Danny estava fazendo somente para alguns amigos. Tom ligou dizendo que estava com Danny perto de Chichester e estava convidando eu e Karina para sairmos com eles, e o que seria um jantar para conhecer um novo restaurante acabou se tornando uma madrugada bebendo e conversando num pub. E então no meio da conversa, eles nos convidaram para um churrasco que aconteceria no domingo, na casa do Danny, apenas os outros caras da banda, e mais uns poucos amigos. Nós aceitamos o convite prontamente, pois queríamos muito conhecer todos os outros meninos, até o momento, só havíamos conhecido de verdade Tom e Danny, que eram nossos parceiros sempre que fazíamos algum programa em Londres, Danny por sempre topar tudo e ser muito divertido, e Tom que embora não fosse muito de sair, nos acompanhava somente pra não perder a oportunidade de estar com Karina.
Quando finalmente chegamos na parte detrás da casa, onde estava sendo feito o churrasco, o som alto da música tomou conta dos meus ouvidos, e a fumaça da carne assando veio direto em meu rosto, fechei os olhos por um momento e quando os abri novamente, fui recebida com um abraço apertado de Danny, que me soltou e logo em seguida abraçou Karina.
- Ah, que bom que vocês vieram. Venham, vou apresentar vocês a todo mundo. – Ele nos puxou por meio entre as cadeiras e mesas e foi levando para mais perto de onde estavam as outras pessoas.
- Gente, essas aqui são minhas amigas brasileiras que falei pra vocês, Karina e a Amanda. – Nos demos oi para todos e em seguida uma voz se sobressaiu entre as outras eu virei o rosto para ver quem era.
- Ei, Amanda, você não esta quebrando nenhuma regra virando amiga do seu paciente¿ - Perguntou Dougie, se referindo a Tom, que estava em silencio ao nosso lado.
- Ela não é mais minha psicóloga. – Foi a única coisa que Tom respondeu, e pude notar que ele ainda estava nervoso. Coitado, acho que hoje o verdadeiro desafio seria pra ele.
- Nós estamos testando uma coisa nova agora, uma mistura de amiga e psicóloga sem compromisso. – Respondi Dougie, que riu e comentou em seguida:
- Boa sorte então, mas tenho que te falar, a loucura do Tom não tem mais jeito. – Todo mundo riu da piada de Dougie, exceto Tom, que revirou os olhos e virou para mim e para Karina, perguntando se queríamos algo.
- Eu quero uma cerveja. – Respondeu Karina de imediato. E eu comentei com ironia:
- Uau, uma cerveja, que surpresa! Bom, eu quero agua, tô morrendo de sede. – Respondi para Tom enquanto meus olhos passeavam pelo ambiente, em busca da pessoa que eu queria ver.
- Agua só tem na cozinha, 3º porta a direita, vai lá enquanto eu pego uma cerveja pra Karina. – Disse Tom, apontando para a porta que me levaria de volta pra dentro da casa.
- Vai lá, amiga. Vou pegar a cerveja com o Tom. – Karina virou e deu uma piscadinha que só eu vi, saindo em seguida com o Tom. Traíras! Não fazia nem 5 minutos que eu havia chegado e já tinha sido abandonada.
Olhei meus falsos amigos indo na direção oposta a mim, e resolvi ir até a cozinha sozinha, o máximo que poderia acontecer seria eu me perder dentro daquela casa imensa, e passar uma semi vergonha na frente dos meus mais novos amigos. Não pude deixar de observar o quanto a casa era bonita, e nos vários retratos espalhados pelas paredes, segui as instruções de Tom, e quando passei pela porta que me levaria à cozinha, vi uma pessoa parada, em frente a pia, lavando alguma coisa, ele estava de costas pra mim, mas eu o reconheci. Reconheceria em qualquer lugar.
Eu sabia que tinha que dizer alguma coisa, mas não consegui nem abrir a boca, fiquei parada por um breve segundo, até ele se dar conta de que tinha mais alguém no cômodo. Então ele virou pra mim e abriu a boca para dizer alguma coisa, mas acho que mudou de ideia, pois ficamos ali parados, um olhando para o outro sem saber o que dizer, com somente o barulho da agua descendo da torneira que ele deixou aberta. Esse momento provavelmente não durou mais de 10 segundos, mas me pareceu uma eternidade, então resolvi quebrar o silencio com a única coisa que me veio à mente:
- Eu... Eu sou a... – Gaguejei um pouco, mas antes que eu pudesse terminar de me apresentar, ele me interrompeu:
- Amanda. – Falou com uma convicção que me surpreendeu.
- Sim, sim, eu mesma, e você é Harry, certo? - Perguntei, me aproximando dele para cumprimenta-lo.
- Sim, sou eu... Harry...  isso... – Ele respondeu meio sem jeito, e apertou a mão que eu havia estendido para ele. Nos cumprimentamos com um aperto de mão, que quase pareceu uma caricia de tão delicado, eu tentei ignorar a sensação maravilhosa que foi tocá-lo, mesmo que um toque simples como esse. Deus sabe como eu esperei por isso.
- Ah, desculpa... – Ele disse, olhando para minha mão que agora estava molhada. Eu nem havia percebido que a mão dele estava molhada, mas no segundo em que me dei conta disso, lembrei instantaneamente de um sonho, o primeiro que tive com ele, onde havia muita agua e eu reconhecia o cheiro dele como “cheirinho de agua”, por ele estar molhado. A coincidência me fez rir, pois eu sabia que de coincidência, não havia nada.
- Não tem problema, é só agua – Tratei de responder sorrindo, enquanto afastava meus pensamentos da minha cabeça, precisava agir normalmente, senão ele estranharia meu comportamento. Comecei a me comportar da forma mais casual possível, e não precisei me esforçar muito, pois se tem uma coisa que eu sabia fazer, era fingir que estava tudo normal quando não estava.
- Toma, enxuga sua mão aqui – Ele disse, me entregando um pano. Peguei sem encostar em sua mão, também não vamos abusar da minha tentativa de mostrar casualidade, nem eu sobreviveria a outro toque dele naquele dia. Não naquele primeiro dia.
- Obrigada. – Agradeci enquanto enxugava as mãos num pano de prato, e Harry desligava a torneira da pia. – Onde tem agua? Tô morrendo de sede. – Perguntei colocando o pano no balcão.
- No bebedouro, aí do lado da geladeira – Ele respondeu, apontando o bebedouro que estava do lado da geladeira, logo atrás de mim  - Pera, vou pegar um copo pra você. – Respondeu Harry, indo em direção ao armário gigante que tinha do lado direito da cozinha, ele abriu uma porta e pegou um copo, me entregando. Agradeci e fui até o bebedouro, enchi meu copo de agua e tomei tudo rapidamente, esperando que a agua gelada acalmasse meus nervos, o que funcionou por um milésimo de segundo, até ouvir a voz de Harry mais uma vez.
- Você chegou há muito tempo? – Perguntou Harry, sentando em uma cadeira em frente ao balcão que nos separava.
- Não, cheguei nesse segundo, e vim direto beber agua. – Respondi, enchendo o copo de agua mais uma vez, e indo me sentar na cadeira, de frente para ele.
- E você está só na agua hoje, é? Ou não bebe? - Ele perguntou, apontando para o copo em minhas mãos.
- Eu bebo sim, mas é difícil, hoje estou só na agua. E tu, tá de mãos vazias por quê? – Perguntei informalmente, tentando quebrar aquele clima meio tenso no ar. Eu, particularmente, não tinha problemas com primeiras conversas, eu era sempre bem amigável e criava intimidade com facilidade, mas agora eu estava me sentindo extremamente tensa e nervosa, e pude notar que ele também estava se sentindo desconfortável, sabe Deus porquê, de todas as formas que eu imaginei esse momento, nunca nos imaginei tão sem jeito assim. Lembrei de quando Karina e Tom se conheceram e como havia acontecido tudo naturalmente, claro que o fator de Karina estar levemente alterada por umas cervejas influenciava bastante, mas eu estava presente e pude perceber que apesar do nervosismo da minha amiga, ela e Tom se deram bem imediatamente. Como eu queria que ela estivesse aqui pra tirar umas piadas e me fazer relaxar.
- Eu não bebo, parei há algum tempo. – Como quem lia minha mente, Harry perguntou de Karina: - Sua amiga veio com você?
- Veio sim, ela e Tom foram pegar umas cervejas. – Harry lançou um sorrisinho meio de lado assim que mencionei os dois. E naquele mesmo momento eu soube que ele sabia de algo. Tom e Karina não haviam tido nada até o momento, nada concreto, pelo menos, porém estavam naquele pré-romance, aquela fase de tensão onde nada acontecia, mas a qualquer momento tudo aconteceria.
A situação estava começando a ficar engraçada, a tensão no ar era quase apalpável, e embora fosse visível que ambos estávamos desconfortáveis, não desviamos os olhos um do outro, talvez isso estivesse dificultando ainda mais. Comecei a beber meu copo de agua mais uma vez, e os olhos de Harry, que estavam fixos em mim, moveram-se rapidamente para o meu lado, e ele riu, dizendo logo em seguida:
- Falando no diabo... – Neste momento, Karine e Tom adentraram a cozinha, rindo e segurando umas garrafas de cerveja. Eu agradeci mentalmente a Deus por ter escutado minhas preces.
- Mana, era pra tu buscar agua e voltar, sabe. – Disse Karina, colocando duas garrafas de cerveja no balcão e sentando na cadeira do meu lado. Por debaixo do balcão, ela chutou sutilmente minha perna. Claro que eu havia entendido o recado.
- Ah que bom que vocês já se conheceram. – Disse Tom, tomando o lugar vago ao lado de Harry. Ficamos sentados os quatro lá, eu e Karina de um lado, e Tom e Harry de outro.
- Sim, estávamos conversando aqui – Disse Harry, virando o rosto para mim. E eu soltei uma risadinha, confirmando com a cabeça.
- Amanda, o Harry era doido pra te conhecer – Assim que Tom disse isso, Harry olhou para ele com um semblante traído, logo em seguida virou para mim, mais sem jeito do que estava antes, e eu achando que isso não era possível:
-é, estava curioso pra saber como alguém consegue aguentar o Tom reclamando toda semana – Ele respondeu, e todos rimos, inclusive Tom.
- Bom, eu fui muito bem paga, além do mais, não era eu quem escolhia os pacientes... – Respondi Harry, e novamente, todos rimos. E pela primeira vez senti o ambiente ficar mais leve. Acho que a equação “quebrando o gelo” estava resolvida: fazer piadinhas com Tom.
- Tá, tá bom, já chega dessas brincadeiras. – Disse Tom, parando de rir e dando um gole na cerveja. – Harry, essa é a Karina. – Ele continuou, apresentando oficialmente os outros dois. Ambos estenderam as mãos e se cumprimentaram.
- Oi, Karina, muito prazer. Ouvi muito sobre você – Disse Harry, sorrindo de lado. E agora mais do que nunca, eu tive certeza que ele sabia sobre os dois, então Karina chutou minha perna por debaixo do balcão mais uma vez, e eu sabia que ela tinha pensado a mesma coisa que eu. Tom ficou tenso ao lado de Harry, provavelmente com medo do amigo dizer mais do que devia, ainda mais depois de Tom ter entregado a curiosidade de Harry em me conhecer, mas antes que ele pudesse se preocupar com isso, por sorte, Karina mudou de assunto:
- Haaaaarry, que prazer, também escutei muito sobre você! Mas e aí, vai beber hoje não? – Perguntou Karina, apontando para as cervejas que ela e Tom haviam colocado sobre a mesa. – Pode pegar aí vocês dois.
- Não, obrigada, eu parei de beber – Disse Harry, sorrindo.
- Tenta de novo ué – Respondeu Karina e todos rimos. – E tu, mana, vai fazer a careta hoje? – Minha querida amiga alcoólatra perguntou olhando pra mim.
- Hoje eu vou, amiga. E tu vê se não vai me fazer passar vergonha – Respondi, fazendo menção as garrafas de cerveja em cima da mesa.
- Você também, Tom, não esquece que tu é fraco pra bebida – Disse Harry, pegando carona no meu mini sermão.
- E que tá tomando remédio também, então moderação hein – Finalizei, olhando sério para Tom.
- Ihhhh, vão começar – Reclamou Tom, fazendo uma careta engraçada. Eu e Harry nos olhamos e sorrimos. Uhu, mais uma variável para nossa equação de quebra de gelo: nos entendemos na hora de zoar Tom, e na hora de passar um sermão. Coitado do meu amigo, para sorte dele, Karina saiu em defesa do bichinho.
- Vish, não acredito que vocês dois vão fazer essa pra cima de mim. Pra cima de mim!!! – Respondeu Karina, rindo. Harry pareceu não entender muito bem, mas eu entendi o que ela quis dizer – Vem, Tom, vamos beber, deixa esses chatos caretas aí – Karina e Tom se levantaram das cadeiras, pegaram as cervejas e foram saindo da cozinha, antes de sumir completamente do nosso campo de visão, Tom gritou – Venham logo pra cá com a gente. Eu e Harry rimos e começamos a nos levantar para segui-los, terminei meu copo com agua, e entreguei para Harry, que levantou da cadeira e foi até a pia.
- Ia dizer que ele não é sempre desse jeito, mas acho que você sabe disso – Disse Harry, de costas para mim, lavando o copo que eu havia usado.
- Sim, ele tá nervoso, tá tentando se acalmar – Respondi para ele, que agora enxugava o copo e guardava-o de volta ao armário. Lembrei da tal obsessão por limpeza dele.
- E tá tentando impressionar ela – Ele falou, virando para mim. Me senti um pouco desconfortável em tocar no assunto Tom e Karina, não sabia a posição de Harry quanto eles dois, embora ele já tivesse deixado claro que sabia o que estava acontecendo.
- Sim, isso com certeza, mas não posso julga-lo – Respondi, olhando diretamente para ele, ainda com medo de me posicionar sobre o assunto.
- Sim, isso ninguém pode. Você tem que fazer o que tem que fazer. – Eu já havia levantado da cadeira, mas continuava parada no mesmo lugar. Harry então se aproximou novamente de mim, apoiou-se no balcão, e se inclinando em minha direção, continuou – Mas, se me permite, posso perguntar sua opinião sobre o assunto? – Ele me olhou sério. Então eu me aproximei um pouco mais do balcão, me apoiei e me inclinei, repetindo o gesto dele:
- Você tem que fazer o que tem que fazer. – Respondi, sorrindo. Ele abriu um sorriso largo com a minha resposta, e encerrou o assunto dizendo:
- Vamos, psicóloga? – Perguntou ele, acenando com a cabeça em direção a porta da cozinha.
- Vamos! – Respondi, e caminhei em direção à porta, com ele logo atrás de mim. Passamos pela porta da cozinha e pelo corredor que daria até a sala completamente em silencio, eu sabia que os olhos dele estavam grudados em mim e voltei a me sentir desconfortável. Céus, esse dia ia ser longo. E guardava muito mais surpresas do que eu esperava.

Flashback off

Enquanto Harry falava eu sentia um turbilhão de sentimentos que não saberia explicar, algumas horas meu coração afundava no peito, outras eu me sentia aliviada, mas ainda assim, eu estava morrendo de medo em saber da decisão que ele havia tomado em relação a nós dois. A verdade é que dependia tudo dele, decidir ficar ou não, porque a minha resposta seria sempre a mesma. Eu duvidava profundamente de que existisse algo que eu não faria por ele.
- Ser teu amigo foi muito difícil, era desconfortável estar na tua presença, sei que tu percebias isso, sei da reciprocidade, e ainda assim eu não conseguia me manter longe. Foi difícil, pra mim, resistir... – Harry fez outra pausa, deu uma última tragada em seu cigarro, jogou-o no chão e pisou em cima dele  – Eu sei que você sabe por que a tensão entre eu e você era visível, tanto que todo mundo percebia, e principalmente porque de uma forma extraordinária, e ao mesmo tempo assustadora, você parece saber exatamente o que eu sinto, e eu sei exatamente como você se sente. O grande problema é que a gente finge que não sabe nada disso, a gente fingiu que não era desconfortável quando ficávamos sozinhos, a gente fingiu que poderíamos ter uma amizade normal, a gente fingiu que poderíamos ter alguma... coisa e depois fingimos que não precisávamos nunca falar sobre o assunto, meu deus, a gente finge o tempo inteiro. E eu não quero mais fingir porque eu sei que você sabe de tudo isso, e você também sabe o que eu sei. Eu sei que a maior parte da culpa é minha, você se restringe porque eu sou fechado, e eu te conheço o suficiente pra saber que você não é nem um pouco fechada, não quero que tu adapte teu jeito pro meu, porque eu me sinto extremamente bem em ser eu mesmo contigo, e agora quero poder me sentir bem com o que eu sinto contigo, e pra isso eu precisava falar sobre isso, e preciso que você fale sobre isso.
Harry deu um suspiro profundo, como se finalmente aliviasse um peso imenso que carregava nos ombros desde que tudo começou. Eu carregava o mesmo, mas ainda não estava pronta pra tira-lo das costas, pelo menos não essa noite. Achei que ele havia terminado, mas antes que eu pudesse mover um musculo, ele voltou a falar:
- Me desculpa por não ter conseguido manter só uma amizade, me desculpa por ter te colocado nessa situação, me desculpa por te deixar as cegas em relação ao que sinto por ti, me desculpa pela cena do domingo, me desculpa por ter sumido depois disso, e principalmente, me desculpa por todas as coisas ruins e complicadas que estão por vir, porque elas virão, você sabe bem. Então a hora pra desistir é agora, se você quiser parar, eu vou respeitar tua decisão, e vou me afastar... – Harry virou o rosto em minha direção e eu repeti seu gesto involuntariamente, e olhando diretamente nos meus olhos, ele terminou seu discurso:
- Mas eu estou apaixonado por você, desde o primeiro dia em que eu te vi. Eu quero que você fique. Comigo. Comete esse erro.

What you do to me
What comes over me
 If this is crazy 
There's nothing I'd rather be.