terça-feira, 9 de novembro de 2010

Chão de giz.

                    

Engoli em seco e respirei fundo tomando mais um gole de vodka pura que descia pela minha garganta como se anestesiasse todo o resto do meu corpo. Talvez meu coração parasse assim e o motivo de minha morte fosse excesso de álcool, e não ela. Ouvi passos de seu fino salto alto se aproximando da porta, o som da chave rodando na fechadura e a porta se abrindo, e fechando em seguida. Seu perfume invadiu o quarto no mesmo instante, me deixando extasiado e nostálgico. Eu ainda nem fora e já sentia saudades dela. Tomei mais um gole da bebida em minhas mãos e me virei para encará-la que delicadamente colocava seu casaco no criado mudo do motel. Ela sorriu quando notou que eu a olhava. Sorriso lindo e manipulador, que dizia exatamente tudo que você precisa saber sobre essa mulher: ela não precisa de ninguém.
- Você não acha que anda bebendo demais?
- Eu posso, logo beberei o quanto quiser. -Respondi seco e ela parou de sorrir, surpresa com a minha acidez.
Hoje eu não me forçaria a ser gentil, hoje eu não me forçaria a nada senão odiá-La e deixá-la. Seria a ultima vez, depois de tantas tentativas fracassadas de ir embora. Ela não precisava de mim, nem ao menos gostava de mim. Não queria nada senão seu prazer de algumas horas para livrá-la de seu casamento fracassado e sua vida vazia. E ela me usava pra isso, apesar de ter consciência de que para mim nunca fora só sexo, sempre fora muito mais. Mas ela não se importava, e eu deixava que ela me prendesse, me encurralasse, me usasse e me jogasse. Eu a odiava por isso, mas esquecia tudo quando sentia seu gosto viciante. Sem que eu percebesse ela estava bem a minha frente com uma de suas mãos em meu braço. Ela não discutiria comigo, sobre nada, ela viria pra uma só coisa, se divertia e depois ia embora, como foi desde que nos conhecemos no carnaval do ano passado. Eu me lembro exatamente quando a vi pela primeira vez, posando para um fotografo ao lado de seus amigos e marido, pessoas importantes da alta sociedade, e eu no meio daquela multidão, um garoto perrapado com provavelmente metade da sua idade. Não sei como aconteceu, mas naquela mesma noite terminamos em um quarto de motel, e quando acordei já havia ido embora. E era assim todas as vezes que nos encontrávamos. Era ela que ia embora, ela me tinha quando quisesse e onde quisesse, como se houvesse acorrentado-me em seu calcanhar, as correntes eram grossas e inquebráveis e me sufocavam até o pescoço. Me tirando o fôlego, a razão, a lucidez, perdi toda minha sanidade quando a deixei entrar na minha vida. E hoje eu a perderia, hoje eu a deixaria.
- O que aconteceu?
- Você destruiu a minha vida. - Sorri amargo ao respondê-La e mais uma vez ela se surpreendeu, e antes que tentasse responder eu larguei a garrafa de vodka e a beijei. Eu iria fazer o que vim fazer. Dizer adeus.
Guiei-nos até a cama, e tive minha dose de loucura e paixão. Loucura e paixão? Deveria ser uma palavra só, afinal, eram bem mais que sinônimos.
Dessa vez eu não dormi, não conseguiria. Antes que o sol nascesse levantei-me da cama e fui até a janela fumar um cigarro, ela sempre fazia isso antes de ir embora. Vesti minhas roupas e coloquei o celular, que ela havia me dado para que me ligasse quando precisasse, em cima do criado mudo, ao lado de seu casaco. Aquele era nosso único meio de contato e ela entenderia o que eu queria dizer deixando-o lá. Verifiquei a passagem de avião que me levaria para outra cidade, o vôo sairia daqui à uma hora, tempo suficiente para que eu chegasse ao aeroporto. Apaguei meu cigarro e me ajoelhei ao lado dela que continuava adormecida, contemplei seu rosto pela ultima vez, e a frase que eu havia dito mais cedo voltou a minha cabeça ‘’você destruiu a minha vida’’. Ela havia acabado com tudo que restou da minha juventude, porque eu sabia que mudar de cidade não seria o suficiente para esquecê-la. Seu cheiro, seu toque, seu sorriso, seu gosto, tudo dela estava impregnado em mim, na minha pele. Por dentro e por fora. Eu só queria que ela me amasse também, que me quisesse, que precisasse de mim, eu deveria enforca - lá agora, eu deveria me enforcar agora, talvez assim ela sumisse de mim, talvez seu fantasma não me assombrasse por onde quer que eu fosse. Talvez. Talvez eu nunca a esquecesse. Talvez esquecesse logo. Mas eu iria embora, e não voltaria nunca mais. Nesse momento eu quis nunca ter a conhecido, mas era tarde demais, toda minha juventude e vivacidade ficou presa naquele quarto, junto a mulher deitada na cama, e tudo que restou foi o barulho da porta se fechando
‘’Eu desço dessa solidão, espalho coisas sobre um chão de giz. Há meros devaneios tolos a me torturar, fotografias recortadas em jornais de folhas, amiúde. Eu vou te jogar num pano de guardar confetes, eu vou te jogar num pano de guardar confetes. Disparo balas de canhão é inútil, pois existe um grão-vizir. Há tantas violetas velhas sem um colibri. Queria usar quem sabe uma camisa de força, ou de Vênus. Mas não vou gozar de nós apenas um cigarro, nem vou lhe beijar gastando assim o meu batom. Agora pego um caminhão na lona vou a nocaute outra vez. Pra sempre fui acorrentado no seu calcanhar. Meus vinte anos de boy, that's over, baby. Freud explica. Não vou me sujar fumando apenas um cigarro, nem vou lhe beijar gastando assim o meu batom. Quanto ao pano dos confetes já passou meu carnaval. E isso explica porque o sexo é assunto popular. No mais estou indo embora, no mais estou indo embora, no mais estou indo embora. No mais.’’

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