É tão urgente. Você aparecia por aqui de vez em quando, lembro como se fosse ontem daquela sutil primeira vez, um sorriso. De novo me pego escrevendo não sei exatamente por que, talvez pra entender, talvez pra te trazer pra mais perto. Talvez. Num desses dias que parece que a saudade vai matar, procurei nas minhas cartas alguma coisa que trouxesse sua memoria de volta pra mim, que me fizesse sentir sua presença de novo, lembro de ter lido no meio de juras eternas de amor - e a falta dele - algo como a maior confissão que alguém poderia ter feito, algo que confessava talvez toda a minha vida, tudo o que ela foi e o que se tornou depois de você. É complicado, eu sei. Sei que todas essas coisas já foram repetidas milhares de vezes e que muitas delas nem fazem tanto sentido mas é que é tão complicado, ter que lidar com a ausência. Ter que lidar com todas essas coisas transformadas e pela metade, sim, é isso, pela metade. Como se andasse por aí faltando uma parte, não é um braço, não, não uma perna, nem duas, é muito mais que isso, um rumo talvez, é, um rumo. Andar sem rumo. E continuava por esse caminho acompanhada de uma aceitável derrota de que seria somente isso que me aguardava, do inicio ao fim, e me apareces assim, com um sorriso assim. E te vejo distante, no final do caminho, e ando apressada pra chegar em você que quando passou por aqui deixou tudo mais bonito, e sua miragem parece tão bem refletida, tão colorida, luminosa, e caminho por dias e dias acompanhada da certeza de que a vida é mais bonita agora, e o caminho sem rumo tornou minha trilha a você, e tudo faz sentido, e tudo é amor. Amor? Sim, amor. Como mais poderia explicar tudo isso que você me trouxe? Toda essa paz, toda essa segurança, toda essa fé de que a vida vai ser melhor quando eu te encontrar, te tocar, te ter. Amor, sim, sim, o que mais? Amor de manhãzinha, quando acordo e lembro que agora sim, agora tenho um motivo pra acordar todos os dias, amor a tardinha quando o dia parece tão dificil de se levar, amor a noitinha quando se lembra que o dia acabou e isso só quer dizer que você tá mais perto. E sigo esse caminho tão feliz, levo minha paz e meu amor, meu amor louco que brilha em torno de mim, você consegue ver minha aura? Consigo tão bem ver a sua. Aquela luz, a luz que iluminou tudo, iluminou eu e você, iluminou nossa vida juntos. E vou andando contente, vou andando em paz, vou andando sorrindo porque tu me apareces no fim da linha e sei agora que nada mais importa pois um dia chegarei exatamente onde tu estas porque tua luz continuara iluminando todo o caminho. E passam se dias, meses, anos, enquanto cada segundo parece uma vida inteira e o céu antes de um azul tão límpido vai acinzentando e não vejo mais as nuvens, tudo parece escurecer e olho pra onde fica tua miragem e entristeço ao ver sua luz se esvaindo. E os dias continuam passando e sua luz continua indo, indo e levando, levando a minha luz também, como se meu brilho só funcionasse sob o brilho teu. Enfraqueço a fé. Esvai-se junto a esperança pois não vejo teu rosto sorrindo e me chamando e me incentivando a continuar e continuar porque tu me esperas. Abaixo a cabeça e fecho os olhos, vou seguindo o caminho assim, não quero olhar em volta enquanto tudo vai enfraquecendo, mas não posso parar, sei que não posso, em fraco som ouço vezenquando sua voz chamando meu nome, é quase inaudível, mas tenho ainda no fundo de mim uma leve pontinha de fé que tento todos os dias reacender porque sei, sei em alguma parte de mim o quanto te espero e o quanto me esperas também. E passam se noites e mais noites, e caminho sem olhar em volta, porque sei que o sol foi embora mas não quero abrir os olhos e ter plena certeza que durante todo esse tempo venho caminhado no escuro com apenas uma fina linha de fé de que continuas em teu lugar aguardando por mim. Está ficando frio, abraço a mim mesma tentando me esquentar, joguei fora todos os meus agasalhos quando tu, sol, chegou e tornou cada um dos meus escudos contra tudo que vivi totalmente desnecessários. Furo o pé em uma pequena pedra pontiaguda no meio do caminho, venho pisando em todas elas mas tentava esquecer a dor porque sabia que quando chegasse até você me colocarias no colo e enquanto seu calor me aquece cuidarias tão bem de todos os ferimentos que tive de passar ao longo do caminho. Tropeço. Uma pedra maior. Forçada a abrir os olhos me deparo com uma escuridão imensa. Difícil, é tão difícil explicar tudo que vejo, ou melhor, tudo que não vejo e tudo que não entendo porque estavas tua imagem tão brilhante e não faz tanto tempo, não, não faz. Ou faz? Começo a perder a noção do tempo, e perco a noção do espaço. Pra onde foi, meu Pai, toda aquela luz? Que um tempo atras iluminava um mundo inteiro, meu mundo inteiro. E me desespero e fecho os olhos e prometo que vou, prometo que irei e conseguirei pintar em minha mente seu sorriso, pintar seu rosto iluminado, pintar sua voz me chamando, pintar você, pintar nós dois, e prometo que consigo e juro que consigo, sei que posso, mas foges da mim, e não consigo, por Deus, não consigo me lembrar de nada de você. Quem és? E abro os olhos cansados mas continuo a não enxergar nada e o frio começa a apertar mais e mais e agora não sei onde me aquecer. Uma luz fraquinha. És tu, amor? E reúno meu restinho de força e levanto do chão e corro até a luzinha quase apagada. Não, não pode ser o meu sol, ele não brilha fraco assim. E quando chego perto algum rosto bonito me estende a mão e me ofereces ajuda, mas não, ele não entende, não quero aceitar qualquer coisinha, não posso seguir atras de qualquer luzinha depois de ter visto todo aquele sol, tão quente, tão aconchegante. E nego a ajuda, agradeço, mas não posso aceitar. Mas o que fazer agora? Penso, e repenso e trepenso que só me resta agora, tentar encontrar sua luz de volta, sei que tenho forças. Sei também, que não tenho outra opção. E levanto cansada e coloco um pé em frente ao outro e continuo, porque entendo de alguma maneira, entendo no meio de toda essa escuridão que embora não saiba entender todo o resto, todo o real motivo de você em tua sua divindade ter aparecido no meu caminho e ter ido embora assim me mostrando tudo que eu precisava e tudo que eu teria de viver sem, mas entendo ainda que embora não entenda mais nada, sei que minha confissão está dada e revelada: preciso de ti.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
sábado, 26 de março de 2011
Look after you.
''Essa é a verdadeira experiência de ser livre: ter a coisa mais importante do mundo sem possuí-la.''
Cheguei em casa um pouco mais tarde que o de costume, e joguei a bolsa em cima do sofá, indo em direção ao banheiro tomar uma ducha. Liguei a música mais calma que encontrei e diminui as luzes, entrando em seguida na banheira. Os meus dias são tão cansativos que a única hora que encontro para relaxar é a hora do banho. Só nesse momento eu posso ser eu mesma, quando não há mais nenhuma voz senão aquela dentro da minha cabeça.
Fechei os olhos e voltei às lembranças do ultimo mês em que ele esteve aqui, depois de quase um ano sem vê-lo. Essas lembranças me invadiam com uma força inevitável, arrastando todas as outras, derrubando todas as barreiras que tivessem sido colocadas para evitar o acesso a elas. A verdade é que faz um tempo que eu venho tentando evitar-las.
Antes dele entrar na minha vida, havia um vácuo em algum lugar que me pegava desprevenida no trabalho, em casa, ou no meio de uma noite de sono. Aquele vazio que por mais silencioso que fosse dizia em um cochicho quase inaudível: ‘’Falta alguma coisa, falta alguma coisa. ‘’ E eu sabia que faltava alguma coisa, eu só não sabia o quê. Lembro que flagrei-me varias vezes entre um gole forte de café e outro, perguntando e questionando a tudo que vive até ali: ‘’O que esta faltando?’’ Pensava nos meus amigos, meus maravilhosos amigos que não me davam motivo de queixas ou decepções, pensava em minha família, que apesar de todos os seus rotineiros problemas nunca havia me faltado com companheirismo, e pensava em mim também, pensava bastante em mim, se havia algo de errado com quem eu era ou o que eu fazia. Nunca encontrei a resposta.
E então ele apareceu. De forma improvável e pouco acreditável, forçando sua entrada limitada na minha vida. Eu queria poder ter dito que eu tive escolha, entre deixá-lo entrar ou impedi-lo. Mas eu não tive. E desde esse acontecimento, eu passei a questionar muitas coisas.
O que era importante, afinal? Eu tinha amigos, famílias, a profissão dos meus sonhos, estava bem com os outros e comigo mesma, e apesar de tudo isso, sempre ficou aquele sentimento de falta, falta de alguma coisa que deveria estar ali, mas não estava. Você já se sentiu assim? Eu já, às vezes constantemente, outras vezes quase nunca. Não vou dizer que eu era infeliz, céus, eu era feliz, eu sempre fui feliz, mas isso nunca foi o suficiente.
Certa vez, durante o caminho de volta pra casa, deparei-me com um grupo de estudantes fazendo uma exposição em praça publica, não parei para assistir, mas uma frase que um deles mencionou me chamou a atenção: ‘’Você é tão livre que pode escolher ser escravo.’’ Essa frase perdurou em minha cabeça durante anos da minha vida. Liberdade e escolha. Afinal, isso é verdade? Eu acreditei que sim, hoje não tenho certeza. O que quero dizer é que desde que ele entrou na minha vida, todos os pontos finais transformaram-se em interrogações, e aquele ‘’Com certeza’’ virou um ‘’Talvez, nunca se sabe.’’
Escolha, poder de decisão, livre arbítrio, ou o que quer que você chame esse momento em que você deveria exercer sua liberdade, eu pergunto, ela é real? Você vai dizer que sim, mas eu não acredito. Isso é relativo, como tantos outros aspectos da vida. E digo isso porque algumas coisas eu não escolhi, eu não decidi. Coisas como ele.
Ele apareceu na minha vida sem convite de entrada. Eu não me permiti sentir o que eu senti quando o conheci, nunca me perguntaram se eu queria isso, nunca me foi questionado se eu estava pronta pra lidar com isso. Eu não escolhi, repito. Foi uma invasão. Não, eu não estou querendo dizer que eu teria dito não. Eu teria dito sim, eu digo sim. E diria um milhão de vezes sim, porque quando você encontra o que eu encontrei, tudo é sim. E esse é exatamente o segundo ponto: liberdade. Shakespeare citou: ‘’O verdadeiro nome do Amor é cativeiro.’’ E aí está o grande ponto de interrogação. Onde está a liberdade em prender-se a outro alguém?
Se eu pudesse explicar o que isso significa pra mim agora, eu diria que a liberdade total não existe. O que existe é o sentimento de ser livre. Livre por total, por completo, sentir-se forte e capaz, como se o resto do mundo não pudesse contra você, porque você encontrou o que tava faltando, e agora você tem a coisa mais importante do mundo. Você tem a vida, você esta viva. E senti-se livre mesmo acorrentado a alguém.
Shakespeare estava certo, o Amor é um cativeiro. Cativeiro imposto a todos nós, prendem-nos com correntes e nos entregam a chave. Chave essa, nunca utilizada, pois essa escravidão é consentida. Quem é aprisionado uma vez não pode fugir, porque não quer fugir. Afinal, não nos sentimos presos. Entregamo-nos de corpo e alma a esse cativeiro que nos liberta das coisas do mundo.
Aprisionamos o corpo, para libertar a alma. Sem possuir para si, o ser responsável por tudo isso.
I miss you now.
Em uma daquelas noites, depois de umas garrafas de vodka e alguns cigarros fumados pela metade, arrasto-me da sala até o meu quarto e caio na cama, é quando permito que você invada minha mente, tornando essa uma das mais longas noites. Isso acontece sempre nas sextas-feiras à noite, quando volto cansado do trabalho, e desligo o celular e o telefone para não ter de inventar uma mentira qualquer, que recuse o convite para o bar com os amigos.
Há uns meses atrás, eu era um desses amigos. No caminho do escritório até a garagem, afrouxava a gravata e pegava o celular no bolso, discando o numero de todos os meus amigos para mais uma daquelas noites que sempre acabavam quando entre um copo de whisky e outro, alguém resolvia parar de fingir uma vida perfeita que não tinha. E assim deixávamos nossos assuntos fúteis de lado e com toda a solidariedade e compreensão ouvíamos uns aos outros e aconselhávamos até onde nossa experiência nos permitia.
Todos fingíamos que não havia um motivo destrutivo por detrás daquele gole de whisky que descia forçadamente garganta a baixo. Vez em quando, me perguntavam o porquê de eu ser o único que nunca havia desabado em choro durante uns comentários quaisquer. Eu apenas sorria e respondia com a frase que ouvi repetidas vezes desde que ele foi embora: ‘’Supere isso e, se não puder superar, supere o vício de falar a respeito.’’ A verdade é que eu nunca mais falei sobre ele em voz alta, mas desde aquela manhã em que acordei mais cedo e ao meu lado, onde ontem esteve seu corpo quente, havia apenas uns lençóis remexidos, e entendi que estava só. Desde esse dia perdi noites e noites em claro, questionando desesperadamente porque ele havia ido, e se voltaria. Por vezes esses pensamentos me encurralavam no segundo seguinte em que acordo, ou durante aquela xícara de café, ou no caminho de volta ao trabalho, ou até mesmo no segundo anterior ao adormecer. Outras vezes, em todos esses momentos.
Passei longos meses procurando uma distração, fosse ela em um corpo desconhecido, num copo de vodka pura, ou nos meus costumeiros cigarros. Confesso que poucas vezes encontrei, quando não encontrava, entregava-me derrotado a dor. E então, inesperadamente, passou. Depois de travar varias lutas sem aspiração de vitoria, encontrei-me em uma espécie de vazio. E uma vez nesse buraco cheio de nada, você simplesmente afunda. Como estou fazendo essa noite, enquanto milhões de perguntas que ele deixou quando foi embora ficam vagando, entre memórias vividas e outras que nunca ocorrerão, a procura de uma resposta. Mas por hoje, especificamente essa noite, eu não quero entender seus motivos, só queria poder enxergar de forma clara e límpida o que teria sido da minha vida se ele tivesse ficado. Ou se nunca tivesse partido. O que teria sido diferente, ou o que permaneceria o mesmo. O cigarro fumado pela metade talvez tivesse sido fumado por inteiro, pois o dividiríamos, ou talvez, ele nunca tivesse sido acesso.
Estiquei o braço até o criado mudo, pegando o isqueiro e um cigarro, acendendo-o. Dei a primeira tragada observando à fumaça que saia entre meus lábios. Eu dei pra fumar desde que ele se foi, queria entender o que tanto ele procurava no meio da nicotina, e como o encontrava, pois aquele habito parecia o deixar tão relaxado. Eu nunca encontrei. Talvez encontre essa noite, pensei, tragando meu cigarro mais uma vez.
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