Em uma daquelas noites, depois de umas garrafas de vodka e alguns cigarros fumados pela metade, arrasto-me da sala até o meu quarto e caio na cama, é quando permito que você invada minha mente, tornando essa uma das mais longas noites. Isso acontece sempre nas sextas-feiras à noite, quando volto cansado do trabalho, e desligo o celular e o telefone para não ter de inventar uma mentira qualquer, que recuse o convite para o bar com os amigos.
Há uns meses atrás, eu era um desses amigos. No caminho do escritório até a garagem, afrouxava a gravata e pegava o celular no bolso, discando o numero de todos os meus amigos para mais uma daquelas noites que sempre acabavam quando entre um copo de whisky e outro, alguém resolvia parar de fingir uma vida perfeita que não tinha. E assim deixávamos nossos assuntos fúteis de lado e com toda a solidariedade e compreensão ouvíamos uns aos outros e aconselhávamos até onde nossa experiência nos permitia.
Todos fingíamos que não havia um motivo destrutivo por detrás daquele gole de whisky que descia forçadamente garganta a baixo. Vez em quando, me perguntavam o porquê de eu ser o único que nunca havia desabado em choro durante uns comentários quaisquer. Eu apenas sorria e respondia com a frase que ouvi repetidas vezes desde que ele foi embora: ‘’Supere isso e, se não puder superar, supere o vício de falar a respeito.’’ A verdade é que eu nunca mais falei sobre ele em voz alta, mas desde aquela manhã em que acordei mais cedo e ao meu lado, onde ontem esteve seu corpo quente, havia apenas uns lençóis remexidos, e entendi que estava só. Desde esse dia perdi noites e noites em claro, questionando desesperadamente porque ele havia ido, e se voltaria. Por vezes esses pensamentos me encurralavam no segundo seguinte em que acordo, ou durante aquela xícara de café, ou no caminho de volta ao trabalho, ou até mesmo no segundo anterior ao adormecer. Outras vezes, em todos esses momentos.
Passei longos meses procurando uma distração, fosse ela em um corpo desconhecido, num copo de vodka pura, ou nos meus costumeiros cigarros. Confesso que poucas vezes encontrei, quando não encontrava, entregava-me derrotado a dor. E então, inesperadamente, passou. Depois de travar varias lutas sem aspiração de vitoria, encontrei-me em uma espécie de vazio. E uma vez nesse buraco cheio de nada, você simplesmente afunda. Como estou fazendo essa noite, enquanto milhões de perguntas que ele deixou quando foi embora ficam vagando, entre memórias vividas e outras que nunca ocorrerão, a procura de uma resposta. Mas por hoje, especificamente essa noite, eu não quero entender seus motivos, só queria poder enxergar de forma clara e límpida o que teria sido da minha vida se ele tivesse ficado. Ou se nunca tivesse partido. O que teria sido diferente, ou o que permaneceria o mesmo. O cigarro fumado pela metade talvez tivesse sido fumado por inteiro, pois o dividiríamos, ou talvez, ele nunca tivesse sido acesso.
Estiquei o braço até o criado mudo, pegando o isqueiro e um cigarro, acendendo-o. Dei a primeira tragada observando à fumaça que saia entre meus lábios. Eu dei pra fumar desde que ele se foi, queria entender o que tanto ele procurava no meio da nicotina, e como o encontrava, pois aquele habito parecia o deixar tão relaxado. Eu nunca encontrei. Talvez encontre essa noite, pensei, tragando meu cigarro mais uma vez.

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