quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Nada em vão.



A constelação de câncer é uma das mais obscuras, por suas estrelas não serem tão brilhantes e ocuparem um lugar relativamente pequeno no céu, quase não conseguimos visualiza-la em dias normais. Mas hoje era um dia especial, Saturno entrava em sagitário e este era o único dia onde poderíamos enxergar as estrelas desta constelação com tanta vivacidade que quase fazia você acreditar que se estendesse a mão, conseguiria toca-la. E para deixar tudo ainda mais fantástico, teríamos a passagem de um grande cometa, o qual estava deixando todos os amantes da astrologia em expectativa, afinal ele fora previsto para entrar em nosso sistema solar há 226 anos atrás.
Eu sempre fui fascinada por astrologia, guardava essa paixão desde pequena e sempre tive uma conexão muito especial com a lua, com saturno e com a constelação de sagitário, mas era a constelação de câncer por quem eu tinha o amor mais especial, pois quando ela aparecia luminosa no céu, ele aparecia aqui.
Faltava exatamente 23 minutos para que meu fenômeno astrológico preferido começasse a acontecer. Eu estava no último andar da minha casa, ao lado do telhado tinha uma espécie de varandinha bem pequena, mas que tinha espaço suficiente para eu colocar o meu telescópio e uma manta no chão. Eu estava começando a me sentir ansiosa, sempre ficava assim minutos antes de vê-lo, mesmo que esperasse por esse encontro todos os anos, desde o dia em o conheci. Sorri imediatamente com a lembrança. E no mesmo segundo senti o cheiro da fumaça do seu cigarro. Ele havia chegado.
- Fico me perguntando qual fenômeno é mais raro, ver esta constelação ou ver você. – Ele falou sorrindo assim que virei o rosto para encara-lo. Ele caminhou até mim, sentou-se ao meu lado e logo me abraçou apertado. Não permanecemos muito tempo abraçados, somente o suficiente para que, discretamente, cheirássemos um ao outro, agora sim confirmando que estávamos juntos. Finalmente. O gesto durou segundos, mas eu gravaria seu cheiro na minha memoria agora e por todo o tempo até o dia que pudesse vê-lo de novo. 
- Talvez a constelação seja mais rara, mas você é mais especial. – Respondi assim que ele me soltou e se acomodou ao meu lado.
- Senti sua falta.  – Ele disse apressado, de relance eu respondi:
- Eu também senti.  – E fitando seu rosto, continuei: - Sinto.
- Sinto.  - Ele repetiu.
O céu havia se transformado num imenso quadro negro, não era possível ver estrela alguma, todas haviam sumido, hoje não era o dia delas, todos os outros dias poderiam ser, mas hoje elas se guardariam para que somente uma constelação pudesse brilhar. Essa era a sua noite. E a nossa também. Uma luz fraquinha e discreta foi começando a surgir no céu escuro: a primeira estrela da constelação de câncer. Era Assellus Australis, a mais próxima da terra.
Eu sorri. Não precisei olhar para ele pra saber que sorria também.
Eu sabia que a partir de agora as estrelas começariam a aparecer uma de cada vez, até que estariam todas juntas ali naquela pequena parte do céu conhecida como portal das almas. Elas ficariam por ali o resto da noite, nos fascinando com o brilho mais bonito já visto e que nenhum outro astro seria capaz de emitir. Virei o rosto um pouco para a esquerda e vi a lua. Talvez a lua e somente a lua fosse tão resplandecente. Sem tirar os olhos do céu, escutei ele dizer baixinho:
- Gosto como parece que todas as estrelas de outras constelações somem para dar espaço para essas brilharem.
- Gosto como elas começam a brilhar uma de cada vez, sem pressa, cada uma no seu tempo.
- Nem as estrelas fogem do peso do tempo. – Ele disse, soltando um suspiro pesado.
- Nada foge do peso do tempo... – Eu falei, e antes que pudesse dizer mais alguma coisa, ele me interrompeu:
- Só eu e você.  –Virei o rosto para olha-lo, que me encarava sério, mas sorrindo com aqueles olhos sempre tão verdes, sempre me olhando com tanta intensidade, sempre enxergando dentro dos meus algo que eu nunca descobriria o que era, mas desconfiava ser exatamente o que eu enxergava quando olhava dentro dos olhos dele. Foi a minha vez de suspirar pesado, e então respondê-lo:
- Sim, só eu e você.  – Eu iria dizer que o tempo era a força mais potente que regia esse universo tão incrível, mas assim que nossos olhares se cruzaram eu soube com uma certeza irredutível de que existia uma força muito maior. Não me atreveria a nomeá-la, mas se o fizesse, daria o nome dele. Sorri por saber que ele daria o meu, e então o sorriso dele se estendeu dos olhos para os lábios. Perfeito.
À medida que as estrelas iam aparecendo, uma de cada vez, ficávamos em silêncio olhando seu brilho ficar cada vez mais forte, e então voltávamos a conversar, falávamos sobre o universo, sobre o tempo e o espaço, sobre a distância e a saudade. E, falando sobre tudo que nos era magico, falávamos nas entrelinhas sobre nós mesmos.
Depois que a última estrela da constelação começou a aparecer, ele ficou agitado, sabia que isso significava que nosso tempo juntos estava passando. Nossos encontros eram sempre assim, duravam somente uma noite, e embora fosse um tempo muito pequeno para o tamanho da saudade, eu o esperava todo ano. E todo ano ele vinha. Assim que eu olhava para o rosto dele, tinha certeza de que a espera valia a pena, mesmo que fosse uma espera de 226 anos.  
Ele fez menção para eu esticar as pernas e eu o fiz com prontidão, em seguida ele deitou a cabeça no meu colo e com cuidado, eu acariciei seus cabelos. Embora a tranquilidade não fizesse parte da minha natureza, quando eu estava sob efeito da presença dele, tão forte como agora, surpreendentemente encontrava alguma calmaria no meio desse caos que era tê-lo por pouco tempo para depois não tê-lo mais. E então me acalmando, eu acalmava-o da única forma que conhecia, contando-lhe das poucas coisas que tinha aprendido nessa aventura fantástica que era viver:
- Sempre que sinto sua falta, olho pro céu. Ter consciência da imensidão do universo me aproxima de você. Sei que não dividimos o mesmo espaço, e que nosso tempo passa diferente, mas veja bem, não estamos tão longe. Jamais pisaremos na lua, mas eu posso ir até você, você pode vir até mim.
- Não com tanta frequência. Não o suficiente. – Ele disse ainda olhando para o céu, mas fazendo a carinha emburrada com a qual eu sonhava todas as noites.
- Nunca vai ser suficiente. Mesmo que haja um fim para a distância entre duas pessoas, a saudade é infinita. Mas há uma solução.
- Outra teoria? – Ele perguntou agora me olhando e sorrindo. Sabia o que estaria por vir, mais uma teoria de tantas outras que eu criava para tudo. Ele julgava desnecessária minha insistência em buscar sempre uma explicação, mas escutava atentamente tudo que eu tinha pra dizer. Seus ouvidos me eram tão leais quanto seus olhos. E por isso eu me perguntava se ele sabia que sobre ele eu não precisava de explicação alguma.
- Mas essa funciona. Juro. – Respondi rindo. E ele acenou para que eu continuasse: –A solução é simples: você só tem que saber como me encontrar.
- O que isso quer dizer? Eu sei onde te encontrar.
- Você sabe onde eu estou, mas esquece como me encontrar. Não procura do lado de fora, não foi assim que nós chegamos um ao outro.
- Eu não tô entendendo. – Ele disse, me olhando com uma expressão confusa. Desviei os olhos dos dele voltando a encarar o céu, ele acompanhou meu movimento. A constelação agora estava perfeitamente completa, e enquanto admirávamos sua beleza, um risco azul passou no meio das estrelas, seguindo até sumir no horizonte. Era o grande cometa. O fenômeno durou segundos, mas foi sublime em toda sua magnificência. Nós continuamos olhando o céu por um bom tempo, sem falar absolutamente nada, até que eu quebrei o silêncio:
- O destino é inexorável.  – Repeti uma frase que havia escutado muitos anos atrás, mas que não tinha feito sentido até agora. Continuei: - O universo é imprevisível, a rota dos astros pode mudar a qualquer instante, mas há 226 anos este cometa estava destinado a entrar no nosso sistema solar e passar no meio desta constelação essa noite. Ele cumpriu seu destino.  Assim que terminei de falar, voltei a olhar para ele que me olhava meio hesitante, eu sabia exatamente o que ele iria falar em seguida, e não estava errada:
- Não sei se eu acredito em destino. – Pensei em explicar para ele o que eu quis dizer, mas não era necessário, ele entenderia na hora certa. Coloquei minha mão em cima da mão dele que repousava sobre sua barriga, e disse olhando em seus olhos:
- Você não precisa, só precisa acreditar em mim. – A expressão eu seu rosto me levou a crer que, de alguma forma, ele acreditava.
Ficamos o restante da noite conversando e olhando o céu, enquanto eu fazia cafuné em seus cabelos, notei que a voz dele começava a ficar mais baixa e, aos poucos, ele ia adormecendo. Antes de dormir por completo, escutei ele me chamar pelo meu segundo nome e dizer boa noite. Pouco tempo depois acabei dormindo também. Quando acordei o dia já estava amanhecendo, e ele não estava mais lá, teria ido embora no meio da noite, sem despedidas, como era o nosso trato. Senti sua falta imediatamente, busquei na memoria o cheiro dele e foi quase como se pudesse senti-lo de novo. Sorri e tentei acalmar meu coração, seria outro ano inteiro longe dele, aguardando ansiosamente que a constelação de câncer voltasse a brilhar no céu, para que nós pudéssemos estar juntos de novo. 

24th November 2015, N.