A constelação
de câncer é uma das mais obscuras, por suas estrelas não serem tão brilhantes e
ocuparem um lugar relativamente pequeno no céu, quase não conseguimos
visualiza-la em dias normais. Mas hoje era um dia especial, Saturno entrava em
sagitário e este era o único dia onde poderíamos enxergar as estrelas desta
constelação com tanta vivacidade que quase fazia você acreditar que se
estendesse a mão, conseguiria toca-la. E para deixar tudo ainda mais
fantástico, teríamos a passagem de um grande cometa, o qual estava deixando todos
os amantes da astrologia em expectativa, afinal ele fora previsto para entrar
em nosso sistema solar há 226 anos atrás.
Eu sempre fui
fascinada por astrologia, guardava essa paixão desde pequena e sempre tive uma
conexão muito especial com a lua, com saturno e com a constelação de sagitário,
mas era a constelação de câncer por quem eu tinha o amor mais especial, pois
quando ela aparecia luminosa no céu, ele aparecia aqui.
Faltava
exatamente 23 minutos para que meu fenômeno astrológico preferido começasse a
acontecer. Eu estava no último andar da minha casa, ao lado do telhado tinha
uma espécie de varandinha bem pequena, mas que tinha espaço suficiente para eu
colocar o meu telescópio e uma manta no chão. Eu estava começando a me sentir
ansiosa, sempre ficava assim minutos antes de vê-lo, mesmo que esperasse por
esse encontro todos os anos, desde o dia em o conheci. Sorri imediatamente com
a lembrança. E no mesmo segundo senti o cheiro da fumaça do seu cigarro. Ele
havia chegado.
- Fico me
perguntando qual fenômeno é mais raro, ver esta constelação ou ver você. – Ele
falou sorrindo assim que virei o rosto para encara-lo. Ele caminhou até mim,
sentou-se ao meu lado e logo me abraçou apertado. Não permanecemos muito tempo
abraçados, somente o suficiente para que, discretamente, cheirássemos um ao
outro, agora sim confirmando que estávamos juntos. Finalmente. O gesto durou
segundos, mas eu gravaria seu cheiro na minha memoria agora e por todo o tempo
até o dia que pudesse vê-lo de novo.
- Talvez a
constelação seja mais rara, mas você é mais especial. – Respondi assim que ele
me soltou e se acomodou ao meu lado.
- Senti sua
falta. – Ele disse apressado, de relance
eu respondi:
- Eu também
senti. – E fitando seu rosto, continuei:
- Sinto.
- Sinto. - Ele repetiu.
O céu havia se
transformado num imenso quadro negro, não era possível ver estrela alguma,
todas haviam sumido, hoje não era o dia delas, todos os outros dias poderiam
ser, mas hoje elas se guardariam para que somente uma constelação pudesse
brilhar. Essa era a sua noite. E a nossa também. Uma luz fraquinha e discreta
foi começando a surgir no céu escuro: a primeira estrela da constelação de
câncer. Era Assellus Australis, a mais próxima da terra.
Eu sorri. Não
precisei olhar para ele pra saber que sorria também.
Eu sabia que a
partir de agora as estrelas começariam a aparecer uma de cada vez, até que
estariam todas juntas ali naquela pequena parte do céu conhecida como portal
das almas. Elas ficariam por ali o resto da noite, nos fascinando com o brilho
mais bonito já visto e que nenhum outro astro seria capaz de emitir. Virei o
rosto um pouco para a esquerda e vi a lua. Talvez a lua e somente a lua fosse
tão resplandecente. Sem tirar os olhos do céu, escutei ele dizer baixinho:
- Gosto como
parece que todas as estrelas de outras constelações somem para dar espaço para essas
brilharem.
- Gosto como
elas começam a brilhar uma de cada vez, sem pressa, cada uma no seu tempo.
- Nem as
estrelas fogem do peso do tempo. – Ele disse, soltando um suspiro pesado.
- Nada foge do
peso do tempo... – Eu falei, e antes que pudesse dizer mais alguma coisa, ele
me interrompeu:
- Só eu e
você. –Virei o rosto para olha-lo, que
me encarava sério, mas sorrindo com aqueles olhos sempre tão verdes, sempre me
olhando com tanta intensidade, sempre enxergando dentro dos meus algo que eu
nunca descobriria o que era, mas desconfiava ser exatamente o que eu enxergava
quando olhava dentro dos olhos dele. Foi a minha vez de suspirar pesado, e
então respondê-lo:
- Sim, só eu e
você. – Eu iria dizer que o tempo era a
força mais potente que regia esse universo tão incrível, mas assim que nossos
olhares se cruzaram eu soube com uma certeza irredutível de que existia uma
força muito maior. Não me atreveria a nomeá-la, mas se o fizesse, daria o nome
dele. Sorri por saber que ele daria o meu, e então o sorriso dele se estendeu
dos olhos para os lábios. Perfeito.
À medida que
as estrelas iam aparecendo, uma de cada vez, ficávamos em silêncio olhando seu
brilho ficar cada vez mais forte, e então voltávamos a conversar, falávamos
sobre o universo, sobre o tempo e o espaço, sobre a distância e a saudade. E,
falando sobre tudo que nos era magico, falávamos nas entrelinhas sobre nós
mesmos.
Depois que a
última estrela da constelação começou a aparecer, ele ficou agitado, sabia que isso
significava que nosso tempo juntos estava passando. Nossos encontros eram
sempre assim, duravam somente uma noite, e embora fosse um tempo muito pequeno
para o tamanho da saudade, eu o esperava todo ano. E todo ano ele vinha. Assim
que eu olhava para o rosto dele, tinha certeza de que a espera valia a pena,
mesmo que fosse uma espera de 226 anos.
Ele fez menção
para eu esticar as pernas e eu o fiz com prontidão, em seguida ele deitou a
cabeça no meu colo e com cuidado, eu acariciei seus cabelos. Embora a tranquilidade
não fizesse parte da minha natureza, quando eu estava sob efeito da presença
dele, tão forte como agora, surpreendentemente encontrava alguma calmaria no
meio desse caos que era tê-lo por pouco tempo para depois não tê-lo mais. E então
me acalmando, eu acalmava-o da única forma que conhecia, contando-lhe das
poucas coisas que tinha aprendido nessa aventura fantástica que era viver:
- Sempre que
sinto sua falta, olho pro céu. Ter consciência da imensidão do universo me
aproxima de você. Sei que não dividimos o mesmo espaço, e que nosso tempo passa
diferente, mas veja bem, não estamos tão longe. Jamais pisaremos na lua, mas eu
posso ir até você, você pode vir até mim.
- Não com
tanta frequência. Não o suficiente. – Ele disse ainda olhando para o céu, mas
fazendo a carinha emburrada com a qual eu sonhava todas as noites.
- Nunca vai
ser suficiente. Mesmo que haja um fim para a distância entre duas pessoas, a
saudade é infinita. Mas há uma solução.
- Outra
teoria? – Ele perguntou agora me olhando e sorrindo. Sabia o que estaria por
vir, mais uma teoria de tantas outras que eu criava para tudo. Ele julgava
desnecessária minha insistência em buscar sempre uma explicação, mas escutava
atentamente tudo que eu tinha pra dizer. Seus ouvidos me eram tão leais quanto
seus olhos. E por isso eu me perguntava se ele sabia que sobre ele eu não
precisava de explicação alguma.
- Mas essa
funciona. Juro. – Respondi rindo. E ele acenou para que eu continuasse: –A
solução é simples: você só tem que saber como me encontrar.
- O que isso
quer dizer? Eu sei onde te encontrar.
- Você sabe
onde eu estou, mas esquece como me encontrar. Não procura do lado de fora, não
foi assim que nós chegamos um ao outro.
- Eu não tô
entendendo. – Ele disse, me olhando com uma expressão confusa. Desviei os olhos
dos dele voltando a encarar o céu, ele acompanhou meu movimento. A constelação agora
estava perfeitamente completa, e enquanto admirávamos sua beleza, um risco azul
passou no meio das estrelas, seguindo até sumir no horizonte. Era o grande
cometa. O fenômeno durou segundos, mas foi sublime em toda sua magnificência. Nós
continuamos olhando o céu por um bom tempo, sem falar absolutamente nada, até
que eu quebrei o silêncio:
- O destino é
inexorável. – Repeti uma frase que havia
escutado muitos anos atrás, mas que não tinha feito sentido até agora.
Continuei: - O universo é imprevisível, a rota dos astros pode mudar a qualquer
instante, mas há 226 anos este cometa estava destinado a entrar no nosso
sistema solar e passar no meio desta constelação essa noite. Ele cumpriu seu
destino. Assim que terminei de falar,
voltei a olhar para ele que me olhava meio hesitante, eu sabia exatamente o que
ele iria falar em seguida, e não estava errada:
- Não sei se
eu acredito em destino. – Pensei em explicar para ele o que eu quis dizer, mas
não era necessário, ele entenderia na hora certa. Coloquei minha mão em cima da
mão dele que repousava sobre sua barriga, e disse olhando em seus olhos:
- Você não
precisa, só precisa acreditar em mim. – A expressão eu seu rosto me levou a
crer que, de alguma forma, ele acreditava.
Ficamos o
restante da noite conversando e olhando o céu, enquanto eu fazia cafuné em seus
cabelos, notei que a voz dele começava a ficar mais baixa e, aos poucos, ele ia
adormecendo. Antes de dormir por completo, escutei ele me chamar pelo meu segundo
nome e dizer boa noite. Pouco tempo depois acabei dormindo também. Quando acordei
o dia já estava amanhecendo, e ele não estava mais lá, teria ido embora no meio
da noite, sem despedidas, como era o nosso trato. Senti sua falta
imediatamente, busquei na memoria o cheiro dele e foi quase como se pudesse
senti-lo de novo. Sorri e tentei acalmar meu coração, seria outro ano inteiro
longe dele, aguardando ansiosamente que a constelação de câncer voltasse a
brilhar no céu, para que nós pudéssemos estar juntos de novo.
24th November 2015, N.
24th November 2015, N.

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