sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Your silver lining the clouds.


Harry,

Em quantas vidas cabe o nosso amor?

Eu poderia virar um dicionário de trás pra frente procurando palavras suficientes pra escrever algo pra você, eu posso procurar doutrinas, crenças, filosofias, conceitos de o amor da sua vida, alma gêmea, reencarnação, ou qualquer outra coisa onde eu pudesse encaixar esse sentimento. Hoje eu te escrevo pra te contar que eu não sei mais escrever. Eu te escrevo pra contar que eu não sei mais pensar você e eu, e que a palavra não me é mais suficiente, mesmo que eu te escreva, ainda que eu te escreva, agora, sempre.

Sentir saudades tuas é querer enfiar as unhas no peito e arrancar o coração pra fora. Não faria diferença, eu olharia para ele na palma da minha mão e sei que ele continuaria sentindo tua falta. A saudade é dentro e fora. Como é possível que você esteja em todo lugar e não esteja em lugar nenhum?

A mente e os dedos se embolam numa necessidade, penso em você e o punho coça, o dedo chora, a mente implora, os dois se conectam e eu te escrevo como quem sangra, eu te amo como quem enlouquece, mas eu não choro, eu gargalho. Te amar é a minha loucura.

Eu ousei, você sorriu pra mim e eu ousei querer você. Do alto da minha insanidade eu decidi que era você quem eu esperava, do alto da minha sanidade eu decidi que você me esperava também. Do alto da minha lucidez, a sanidade confirmou a loucura.

Eu quero morrer da loucura que é amar você. E eu vou morrer rindo, eu vou morrer gargalhando, que dói a barriga, mas acalma o coração.  

Enlouquecida; eu vou te enlouquecer. 

Me espera.

Inferno na vida é viver longe de você.    

sábado, 19 de setembro de 2015

Do outro lado do mundo.


Se a Lua entrar em Saturno, como prometido pro final do mês, irei te enviar esta carta.
As certezas do ponto onde eu te perco e te encontro me parecem irreconhecíveis.
E se for irremediável dessa vez?
O milagre da vida transformou os oceanos em galáxias.
A distancia não é somente física.
Mas se eu procurar, só vou te encontrar aqui dentro.
Se todo planeta entra em orbita com um único sol, não há espaço para três.
E quanto as estrelas?
As constelações de sagitário e capricórnio são vizinhas quando vistas de baixo.
Todavia estão há anos-luz de distância.
O que, de fato, nos separa?
Algumas vidas.
Um oceano.
Anos-luz.

Calma.
A gravidade nos puxará de volta. 

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Metade.


Eu perco o chão
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste
Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim

Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será
Que você está agora?

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Como si fuera esta noche la última vez.


Escolhestes o cenário perfeito, o universo que tanto me fascina, e no meio do que me parecia o sonho mais bonito de todos, me tirastes pra dançar. Eu de vestido vermelho, você de terno, aquele salão vazio e só nós dois dançando ao som da música que ninguém mais seria capaz de escutar. Não nos olhamos, apenas dançamos, e eu não precisei fitar teus olhos azuis pra reconhecê-los um ano depois. Só durou uma momento, mas foi exatamente o suficiente pra eu guardar por ti esse sentimento tão imenso que mesmo depois de 6 anos ainda é o mesmo. Hoje entendo tudo com a clareza que não conseguia entender naquele 2008 perdido onde tudo era muito confuso na cabeça de uma adolescente, e embora nosso amor venha perdurando por toda essa vida, sei que nós amamos há muito mais tempo do que isso. Não trocamos sequer uma palavra, e quando tu foi embora eu sabia, no fundo da minha alma, que um dia tu irias voltar e eu iria te reconhecer porque só você sabe o tanto que eu te esperei. O tanto que esperamos. 

Fazem sete anos desde que tu me tirou pra dançar, e ainda que a vida tenha mudado tanta coisa em nossas vidas, sei que teu coração se encontra exatamente no mesmo lugar do meu: naquele salão vazio, com todos os planetas finalmente alinhados, e nós dois dançando, e dançando, e dançando.

A nossa música não para de tocar.

Eu amo você.

domingo, 10 de maio de 2015

Make this mistake.


Parte 3:


It's temporary insanity
What's going on with you and me?
Is it real or is it fantasy?
Forever or just temporary insanity?

O relógio marcava três horas da madrugada em ponto, o que confirmava que eu estava rolando na cama há exatas duas horas sem conseguir fechar os olhos. Os últimos dois dias foram impossíveis de dormir, na noite do domingo eu tive minha primeira briga com Harry, na qual ele simplesmente foi embora no meio da noite, e sumiu pelos dois dias seguintes. Nenhuma mensagem. Nenhum telefonema. Nenhuma porra de noticia. Eu me sentia péssima, e para completar essa maré de sorte, Tom e Karina haviam passado essas mesmas duas noites discutindo, aos gritos, na sala, e eu escutava tudo do meu quarto, preparada pra sair a qualquer momento e evitar um possível assassinato. Chegava a ser irônico, inclusive, pois quando conheci Tom, ele era um dos caras mais calmos que eu já havia visto, e apesar de toda a dificuldade da relação dele com minha amiga-nada-calma, não imaginava que um dia escutaria ele aos berros na sala do meu apartamento. Pensando nisso, não pude evitar fazer uma comparação, acho que preferia ter Harry gritando comigo do que aquele silêncio que eu tinha medo que durasse pra sempre. Eu sei que ele se importava comigo, eu sabia disso, dizer que ele havia sumido por não estar nem aí seria de uma falsa declaração que eu não era capaz de dar nem no mais elevado do meu pessimismo, mas esmagava meu coração pensar que na primeira dificuldade ele havia simplesmente sumido quando eu mal conseguia aguentar um dia longe dele. E além de todas essas coisas, sempre haveria uma terceira pessoa, ou melhor, sempre haveria uma primeira pessoa, pois a terceira era eu. Eu, que estava nesse momento remoendo uma suposta relação fodida enquanto pressionava o travesseiro contra o ouvido para evitar escutar os gritos da relação fodida dos meus amigos.
Céus, e o pior era pensar que isso tudo estava apenas começando.
Depois de algum tempo, parei de escutar as vozes de Tom e Karina, e se eu não conhecesse tão bem meus amigos, diria que eles haviam se matado, mas como eu os conhecia bem demais, sabia como aquela briga terminaria: o sofá pagando as consequências do fight and fuck semanal desse casal maluco.
Como eu não estava no humor pra segurar vela presa no meu quarto com medo de sair e ver cenas que me fariam desejar ser cega, eu vesti um sobretudo comprido que cobria todo o meu pijama, calcei minhas botas e saí do quarto de fininho, indo em direção à porta dos fundos da cozinha. Não deixei nenhum recado, pois sabia que eles não sentiriam minha falta pelas próximas duas horas, e eu só pretendia dar uma volta, refletir um pouco enquanto torturava meu corpo com o frio sempre agressivo da Inglaterra. Era em momentos como esse que eu tinha certeza de que nunca iria me acostumar com o clima. E subitamente senti falta do Brasil.
Abri o portão do prédio e antes que pudesse dar mais de dois passos, vi Harry sentado na calçada, fumando um cigarro. Embora ele estivesse de costas, ele sabia que era eu quem havia saído, pois sua postura antes relaxada ficou tensa. Apesar de estar surpresa, não fiquei mais de 5 segundos ali, fechei o portão e segui com minha caminhada, sabendo que ele estava me acompanhando. Caminhamos dessa forma por uns 10 minutos, eu mais a frente, e ele logo atrás de mim, ambos em total silencio. Avistei uma pracinha que estava quase vazia, exceto por três ou quatro adolescentes e um guarda, sentei no primeiro banco vazio que vi, e Harry sentou do meu lado assim que me alcançou.
Agradeci mentalmente pela Inglaterra ser um país tão seguro e Chichester uma cidadezinha pouco movimentada, assim eu poderia estar num parque as 3:30 da madrugada sem me preocupar com a violência, embora eu estivesse me sentindo a pessoa mais frágil do mundo naquele instante. E quando Harry abriu a boca, eu achei que fosse quebrar por dentro.
- Há coisas que eu quero te dizer, e elas precisam ser ditas agora, porque eu venho guardando elas por cerca de quase um ano, e domingo passado eu cheguei muito perto de decidir nunca mais te ver, Amanda. – Meu coração afundou no peito quando escutei ele falar isso, a ideia de que ele pudesse simplesmente desistir de mim era perturbadora demais pra eu sequer cogita-la. Eu não sabia se estava preparada pra escutar aquilo, mas se ele estava preparado pra falar, eu ouviria até o fim. Depois de uma pequena pausa, ele continuou:
- No domingo, quando eu fui embora no meio da noite, eu soube que minha vida estaria arruinada se eu voltasse a te ver. E que eu também estaria arruinado se não te visse nunca mais. – Eu não me dei conta de que estava prendendo a respiração até solta-la num suspiro aliviado depois de ter escutado as últimas palavras de Harry. Ele não me olhou em momento algum, e eu não ousei mover um musculo sequer, nós dois encarávamos algum ponto fixo no chão e ele falava com cuidado e calma enquanto eu ouvia atentamente: - No dia que eu te conheci, no momento em que tu entrou no meu campo de visão, eu senti algo que eu nunca havia sentido antes, na verdade, eu já sentia algo diferente só de ouvir Tom falando da psicóloga incrível dele, eu não sei explicar o motivo disso mas eu queria muito, muito mesmo, conhecer você. E o dia que finalmente nos conhecemos, no churrasco na casa do Danny, a ideia de convidar você foi minha.

Flashback on.

Eles dizem que quando você deseja intensamente uma coisa, o universo conspira a favor. Eu nunca acreditei muito nisso, pra ser sincera, houve centenas de coisas que desejei profundamente, mas o universo não me presenteou com nenhuma delas. Mas o que parecia era que em relação a esta coisa especifica, ou melhor, a ele, tudo conspirava a favor, desde o dia do nosso primeiro encontro, ou até bem antes dele.
Eu estava parada na porta da casa do Danny, sem coragem de apertar a campainha, virei pra Karina que parecia tão nervosa quanto eu, ou até mais. Ela ergueu a mão, que tremia, e com a coragem que lhe restava, apertou a campainha. Foram cerca de 10 segundos até Tom aparecer e abrir a porta pra gente. Ele com certeza estava esperando perto da porta, se bem conheço meu ex-paciente e mais novo amigo.
- Oi, meninas, que bom que vocês vieram.  – Ele nos cumprimentou sorrindo, e eu pude perceber o nervosismo dele. Éramos todos uma bomba relógio de nervosismo, cada um por seus motivos pessoais. Adentamos a casa enquanto Tom nos guiava para o que eu julgava ser o quintal, onde estava sendo feito o churrasco. Karina apertou minha mão e eu virei para ela, que me apontava com os olhos para a parede em nosso lado esquerdo, onde havia varias fotos, mas uma especifica me chamou atenção, e eu soube que era essa a qual ela se referia, era um retrato grande do casamento de Danny e Georgia, e ao lado deles todos os outros três casais. Virei o rosto pra Karina e revirei os olhos. Ela riu, Tom virou pra trás e nos olhou meio sem entender.
- A casa é muito bonita, e grande. Dá cinco do nosso apartamento. –Respondi rapidamente, tentando disfarçar.
- é a casa dele é a maior de todas, ele diz que quer ter muitos filhos. – Tom comentou rindo nervosamente. Eu estava começando a achar engraçado todo esse nervosismo dele, embora entendesse. Hoje era um dia muito importante para todos nós. Tom havia nos convidado para esse churrasco que Danny estava fazendo somente para alguns amigos. Tom ligou dizendo que estava com Danny perto de Chichester e estava convidando eu e Karina para sairmos com eles, e o que seria um jantar para conhecer um novo restaurante acabou se tornando uma madrugada bebendo e conversando num pub. E então no meio da conversa, eles nos convidaram para um churrasco que aconteceria no domingo, na casa do Danny, apenas os outros caras da banda, e mais uns poucos amigos. Nós aceitamos o convite prontamente, pois queríamos muito conhecer todos os outros meninos, até o momento, só havíamos conhecido de verdade Tom e Danny, que eram nossos parceiros sempre que fazíamos algum programa em Londres, Danny por sempre topar tudo e ser muito divertido, e Tom que embora não fosse muito de sair, nos acompanhava somente pra não perder a oportunidade de estar com Karina.
Quando finalmente chegamos na parte detrás da casa, onde estava sendo feito o churrasco, o som alto da música tomou conta dos meus ouvidos, e a fumaça da carne assando veio direto em meu rosto, fechei os olhos por um momento e quando os abri novamente, fui recebida com um abraço apertado de Danny, que me soltou e logo em seguida abraçou Karina.
- Ah, que bom que vocês vieram. Venham, vou apresentar vocês a todo mundo. – Ele nos puxou por meio entre as cadeiras e mesas e foi levando para mais perto de onde estavam as outras pessoas.
- Gente, essas aqui são minhas amigas brasileiras que falei pra vocês, Karina e a Amanda. – Nos demos oi para todos e em seguida uma voz se sobressaiu entre as outras eu virei o rosto para ver quem era.
- Ei, Amanda, você não esta quebrando nenhuma regra virando amiga do seu paciente¿ - Perguntou Dougie, se referindo a Tom, que estava em silencio ao nosso lado.
- Ela não é mais minha psicóloga. – Foi a única coisa que Tom respondeu, e pude notar que ele ainda estava nervoso. Coitado, acho que hoje o verdadeiro desafio seria pra ele.
- Nós estamos testando uma coisa nova agora, uma mistura de amiga e psicóloga sem compromisso. – Respondi Dougie, que riu e comentou em seguida:
- Boa sorte então, mas tenho que te falar, a loucura do Tom não tem mais jeito. – Todo mundo riu da piada de Dougie, exceto Tom, que revirou os olhos e virou para mim e para Karina, perguntando se queríamos algo.
- Eu quero uma cerveja. – Respondeu Karina de imediato. E eu comentei com ironia:
- Uau, uma cerveja, que surpresa! Bom, eu quero agua, tô morrendo de sede. – Respondi para Tom enquanto meus olhos passeavam pelo ambiente, em busca da pessoa que eu queria ver.
- Agua só tem na cozinha, 3º porta a direita, vai lá enquanto eu pego uma cerveja pra Karina. – Disse Tom, apontando para a porta que me levaria de volta pra dentro da casa.
- Vai lá, amiga. Vou pegar a cerveja com o Tom. – Karina virou e deu uma piscadinha que só eu vi, saindo em seguida com o Tom. Traíras! Não fazia nem 5 minutos que eu havia chegado e já tinha sido abandonada.
Olhei meus falsos amigos indo na direção oposta a mim, e resolvi ir até a cozinha sozinha, o máximo que poderia acontecer seria eu me perder dentro daquela casa imensa, e passar uma semi vergonha na frente dos meus mais novos amigos. Não pude deixar de observar o quanto a casa era bonita, e nos vários retratos espalhados pelas paredes, segui as instruções de Tom, e quando passei pela porta que me levaria à cozinha, vi uma pessoa parada, em frente a pia, lavando alguma coisa, ele estava de costas pra mim, mas eu o reconheci. Reconheceria em qualquer lugar.
Eu sabia que tinha que dizer alguma coisa, mas não consegui nem abrir a boca, fiquei parada por um breve segundo, até ele se dar conta de que tinha mais alguém no cômodo. Então ele virou pra mim e abriu a boca para dizer alguma coisa, mas acho que mudou de ideia, pois ficamos ali parados, um olhando para o outro sem saber o que dizer, com somente o barulho da agua descendo da torneira que ele deixou aberta. Esse momento provavelmente não durou mais de 10 segundos, mas me pareceu uma eternidade, então resolvi quebrar o silencio com a única coisa que me veio à mente:
- Eu... Eu sou a... – Gaguejei um pouco, mas antes que eu pudesse terminar de me apresentar, ele me interrompeu:
- Amanda. – Falou com uma convicção que me surpreendeu.
- Sim, sim, eu mesma, e você é Harry, certo? - Perguntei, me aproximando dele para cumprimenta-lo.
- Sim, sou eu... Harry...  isso... – Ele respondeu meio sem jeito, e apertou a mão que eu havia estendido para ele. Nos cumprimentamos com um aperto de mão, que quase pareceu uma caricia de tão delicado, eu tentei ignorar a sensação maravilhosa que foi tocá-lo, mesmo que um toque simples como esse. Deus sabe como eu esperei por isso.
- Ah, desculpa... – Ele disse, olhando para minha mão que agora estava molhada. Eu nem havia percebido que a mão dele estava molhada, mas no segundo em que me dei conta disso, lembrei instantaneamente de um sonho, o primeiro que tive com ele, onde havia muita agua e eu reconhecia o cheiro dele como “cheirinho de agua”, por ele estar molhado. A coincidência me fez rir, pois eu sabia que de coincidência, não havia nada.
- Não tem problema, é só agua – Tratei de responder sorrindo, enquanto afastava meus pensamentos da minha cabeça, precisava agir normalmente, senão ele estranharia meu comportamento. Comecei a me comportar da forma mais casual possível, e não precisei me esforçar muito, pois se tem uma coisa que eu sabia fazer, era fingir que estava tudo normal quando não estava.
- Toma, enxuga sua mão aqui – Ele disse, me entregando um pano. Peguei sem encostar em sua mão, também não vamos abusar da minha tentativa de mostrar casualidade, nem eu sobreviveria a outro toque dele naquele dia. Não naquele primeiro dia.
- Obrigada. – Agradeci enquanto enxugava as mãos num pano de prato, e Harry desligava a torneira da pia. – Onde tem agua? Tô morrendo de sede. – Perguntei colocando o pano no balcão.
- No bebedouro, aí do lado da geladeira – Ele respondeu, apontando o bebedouro que estava do lado da geladeira, logo atrás de mim  - Pera, vou pegar um copo pra você. – Respondeu Harry, indo em direção ao armário gigante que tinha do lado direito da cozinha, ele abriu uma porta e pegou um copo, me entregando. Agradeci e fui até o bebedouro, enchi meu copo de agua e tomei tudo rapidamente, esperando que a agua gelada acalmasse meus nervos, o que funcionou por um milésimo de segundo, até ouvir a voz de Harry mais uma vez.
- Você chegou há muito tempo? – Perguntou Harry, sentando em uma cadeira em frente ao balcão que nos separava.
- Não, cheguei nesse segundo, e vim direto beber agua. – Respondi, enchendo o copo de agua mais uma vez, e indo me sentar na cadeira, de frente para ele.
- E você está só na agua hoje, é? Ou não bebe? - Ele perguntou, apontando para o copo em minhas mãos.
- Eu bebo sim, mas é difícil, hoje estou só na agua. E tu, tá de mãos vazias por quê? – Perguntei informalmente, tentando quebrar aquele clima meio tenso no ar. Eu, particularmente, não tinha problemas com primeiras conversas, eu era sempre bem amigável e criava intimidade com facilidade, mas agora eu estava me sentindo extremamente tensa e nervosa, e pude notar que ele também estava se sentindo desconfortável, sabe Deus porquê, de todas as formas que eu imaginei esse momento, nunca nos imaginei tão sem jeito assim. Lembrei de quando Karina e Tom se conheceram e como havia acontecido tudo naturalmente, claro que o fator de Karina estar levemente alterada por umas cervejas influenciava bastante, mas eu estava presente e pude perceber que apesar do nervosismo da minha amiga, ela e Tom se deram bem imediatamente. Como eu queria que ela estivesse aqui pra tirar umas piadas e me fazer relaxar.
- Eu não bebo, parei há algum tempo. – Como quem lia minha mente, Harry perguntou de Karina: - Sua amiga veio com você?
- Veio sim, ela e Tom foram pegar umas cervejas. – Harry lançou um sorrisinho meio de lado assim que mencionei os dois. E naquele mesmo momento eu soube que ele sabia de algo. Tom e Karina não haviam tido nada até o momento, nada concreto, pelo menos, porém estavam naquele pré-romance, aquela fase de tensão onde nada acontecia, mas a qualquer momento tudo aconteceria.
A situação estava começando a ficar engraçada, a tensão no ar era quase apalpável, e embora fosse visível que ambos estávamos desconfortáveis, não desviamos os olhos um do outro, talvez isso estivesse dificultando ainda mais. Comecei a beber meu copo de agua mais uma vez, e os olhos de Harry, que estavam fixos em mim, moveram-se rapidamente para o meu lado, e ele riu, dizendo logo em seguida:
- Falando no diabo... – Neste momento, Karine e Tom adentraram a cozinha, rindo e segurando umas garrafas de cerveja. Eu agradeci mentalmente a Deus por ter escutado minhas preces.
- Mana, era pra tu buscar agua e voltar, sabe. – Disse Karina, colocando duas garrafas de cerveja no balcão e sentando na cadeira do meu lado. Por debaixo do balcão, ela chutou sutilmente minha perna. Claro que eu havia entendido o recado.
- Ah que bom que vocês já se conheceram. – Disse Tom, tomando o lugar vago ao lado de Harry. Ficamos sentados os quatro lá, eu e Karina de um lado, e Tom e Harry de outro.
- Sim, estávamos conversando aqui – Disse Harry, virando o rosto para mim. E eu soltei uma risadinha, confirmando com a cabeça.
- Amanda, o Harry era doido pra te conhecer – Assim que Tom disse isso, Harry olhou para ele com um semblante traído, logo em seguida virou para mim, mais sem jeito do que estava antes, e eu achando que isso não era possível:
-é, estava curioso pra saber como alguém consegue aguentar o Tom reclamando toda semana – Ele respondeu, e todos rimos, inclusive Tom.
- Bom, eu fui muito bem paga, além do mais, não era eu quem escolhia os pacientes... – Respondi Harry, e novamente, todos rimos. E pela primeira vez senti o ambiente ficar mais leve. Acho que a equação “quebrando o gelo” estava resolvida: fazer piadinhas com Tom.
- Tá, tá bom, já chega dessas brincadeiras. – Disse Tom, parando de rir e dando um gole na cerveja. – Harry, essa é a Karina. – Ele continuou, apresentando oficialmente os outros dois. Ambos estenderam as mãos e se cumprimentaram.
- Oi, Karina, muito prazer. Ouvi muito sobre você – Disse Harry, sorrindo de lado. E agora mais do que nunca, eu tive certeza que ele sabia sobre os dois, então Karina chutou minha perna por debaixo do balcão mais uma vez, e eu sabia que ela tinha pensado a mesma coisa que eu. Tom ficou tenso ao lado de Harry, provavelmente com medo do amigo dizer mais do que devia, ainda mais depois de Tom ter entregado a curiosidade de Harry em me conhecer, mas antes que ele pudesse se preocupar com isso, por sorte, Karina mudou de assunto:
- Haaaaarry, que prazer, também escutei muito sobre você! Mas e aí, vai beber hoje não? – Perguntou Karina, apontando para as cervejas que ela e Tom haviam colocado sobre a mesa. – Pode pegar aí vocês dois.
- Não, obrigada, eu parei de beber – Disse Harry, sorrindo.
- Tenta de novo ué – Respondeu Karina e todos rimos. – E tu, mana, vai fazer a careta hoje? – Minha querida amiga alcoólatra perguntou olhando pra mim.
- Hoje eu vou, amiga. E tu vê se não vai me fazer passar vergonha – Respondi, fazendo menção as garrafas de cerveja em cima da mesa.
- Você também, Tom, não esquece que tu é fraco pra bebida – Disse Harry, pegando carona no meu mini sermão.
- E que tá tomando remédio também, então moderação hein – Finalizei, olhando sério para Tom.
- Ihhhh, vão começar – Reclamou Tom, fazendo uma careta engraçada. Eu e Harry nos olhamos e sorrimos. Uhu, mais uma variável para nossa equação de quebra de gelo: nos entendemos na hora de zoar Tom, e na hora de passar um sermão. Coitado do meu amigo, para sorte dele, Karina saiu em defesa do bichinho.
- Vish, não acredito que vocês dois vão fazer essa pra cima de mim. Pra cima de mim!!! – Respondeu Karina, rindo. Harry pareceu não entender muito bem, mas eu entendi o que ela quis dizer – Vem, Tom, vamos beber, deixa esses chatos caretas aí – Karina e Tom se levantaram das cadeiras, pegaram as cervejas e foram saindo da cozinha, antes de sumir completamente do nosso campo de visão, Tom gritou – Venham logo pra cá com a gente. Eu e Harry rimos e começamos a nos levantar para segui-los, terminei meu copo com agua, e entreguei para Harry, que levantou da cadeira e foi até a pia.
- Ia dizer que ele não é sempre desse jeito, mas acho que você sabe disso – Disse Harry, de costas para mim, lavando o copo que eu havia usado.
- Sim, ele tá nervoso, tá tentando se acalmar – Respondi para ele, que agora enxugava o copo e guardava-o de volta ao armário. Lembrei da tal obsessão por limpeza dele.
- E tá tentando impressionar ela – Ele falou, virando para mim. Me senti um pouco desconfortável em tocar no assunto Tom e Karina, não sabia a posição de Harry quanto eles dois, embora ele já tivesse deixado claro que sabia o que estava acontecendo.
- Sim, isso com certeza, mas não posso julga-lo – Respondi, olhando diretamente para ele, ainda com medo de me posicionar sobre o assunto.
- Sim, isso ninguém pode. Você tem que fazer o que tem que fazer. – Eu já havia levantado da cadeira, mas continuava parada no mesmo lugar. Harry então se aproximou novamente de mim, apoiou-se no balcão, e se inclinando em minha direção, continuou – Mas, se me permite, posso perguntar sua opinião sobre o assunto? – Ele me olhou sério. Então eu me aproximei um pouco mais do balcão, me apoiei e me inclinei, repetindo o gesto dele:
- Você tem que fazer o que tem que fazer. – Respondi, sorrindo. Ele abriu um sorriso largo com a minha resposta, e encerrou o assunto dizendo:
- Vamos, psicóloga? – Perguntou ele, acenando com a cabeça em direção a porta da cozinha.
- Vamos! – Respondi, e caminhei em direção à porta, com ele logo atrás de mim. Passamos pela porta da cozinha e pelo corredor que daria até a sala completamente em silencio, eu sabia que os olhos dele estavam grudados em mim e voltei a me sentir desconfortável. Céus, esse dia ia ser longo. E guardava muito mais surpresas do que eu esperava.

Flashback off

Enquanto Harry falava eu sentia um turbilhão de sentimentos que não saberia explicar, algumas horas meu coração afundava no peito, outras eu me sentia aliviada, mas ainda assim, eu estava morrendo de medo em saber da decisão que ele havia tomado em relação a nós dois. A verdade é que dependia tudo dele, decidir ficar ou não, porque a minha resposta seria sempre a mesma. Eu duvidava profundamente de que existisse algo que eu não faria por ele.
- Ser teu amigo foi muito difícil, era desconfortável estar na tua presença, sei que tu percebias isso, sei da reciprocidade, e ainda assim eu não conseguia me manter longe. Foi difícil, pra mim, resistir... – Harry fez outra pausa, deu uma última tragada em seu cigarro, jogou-o no chão e pisou em cima dele  – Eu sei que você sabe por que a tensão entre eu e você era visível, tanto que todo mundo percebia, e principalmente porque de uma forma extraordinária, e ao mesmo tempo assustadora, você parece saber exatamente o que eu sinto, e eu sei exatamente como você se sente. O grande problema é que a gente finge que não sabe nada disso, a gente fingiu que não era desconfortável quando ficávamos sozinhos, a gente fingiu que poderíamos ter uma amizade normal, a gente fingiu que poderíamos ter alguma... coisa e depois fingimos que não precisávamos nunca falar sobre o assunto, meu deus, a gente finge o tempo inteiro. E eu não quero mais fingir porque eu sei que você sabe de tudo isso, e você também sabe o que eu sei. Eu sei que a maior parte da culpa é minha, você se restringe porque eu sou fechado, e eu te conheço o suficiente pra saber que você não é nem um pouco fechada, não quero que tu adapte teu jeito pro meu, porque eu me sinto extremamente bem em ser eu mesmo contigo, e agora quero poder me sentir bem com o que eu sinto contigo, e pra isso eu precisava falar sobre isso, e preciso que você fale sobre isso.
Harry deu um suspiro profundo, como se finalmente aliviasse um peso imenso que carregava nos ombros desde que tudo começou. Eu carregava o mesmo, mas ainda não estava pronta pra tira-lo das costas, pelo menos não essa noite. Achei que ele havia terminado, mas antes que eu pudesse mover um musculo, ele voltou a falar:
- Me desculpa por não ter conseguido manter só uma amizade, me desculpa por ter te colocado nessa situação, me desculpa por te deixar as cegas em relação ao que sinto por ti, me desculpa pela cena do domingo, me desculpa por ter sumido depois disso, e principalmente, me desculpa por todas as coisas ruins e complicadas que estão por vir, porque elas virão, você sabe bem. Então a hora pra desistir é agora, se você quiser parar, eu vou respeitar tua decisão, e vou me afastar... – Harry virou o rosto em minha direção e eu repeti seu gesto involuntariamente, e olhando diretamente nos meus olhos, ele terminou seu discurso:
- Mas eu estou apaixonado por você, desde o primeiro dia em que eu te vi. Eu quero que você fique. Comigo. Comete esse erro.

What you do to me
What comes over me
 If this is crazy 
There's nothing I'd rather be.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Do you believe in life after love?


Hoje é dia 23 do mês de abril do ano de 2015, e não, não é nenhuma data especial, mas eu quis começar com ela porque hoje mais do que nunca, eu sei que daqui um tempo estarei lendo essa carta pra você, então quero te localizar no meu tempo. Tempo. É engraçado como essa palavra tomou um significado completamente diferente pra mim desde que você entrou na minha vida. Paciência, taí outra palavra que nem entrava no meu vocabulário e hoje em dia tem um peso tão grande. E embora tempo e paciência tenham tomado todo um significado diferente, nenhuma delas se comparam ao significado que tu trouxe para a palavra: amor. Ainda algumas horas atrás eu tava explodindo de felicidade, sentindo aquela coisa toda que eu sinto por você, todo aquele turbilhão tão intenso que eu mal consigo controlar, e eu te amo muito nessas horas, eu te amo tanto nessas horas, mas Harry, em nenhum momento eu te amo tanto quanto no exato segundo em que eu me dou conta que o significado do teu amor na minha vida é o mais bonito de todos porque ele é sinônimo de paz. Eu te amo quando tu vem me visitar, eu te amo quando tu me abraça, eu te amo quando tu me beija e como eu te amo quando tu me dá aquele teu sorriso especial, e ainda que te ame tanto nesses momentos, eu te amo tão mais agora, deitada na minha cama, ouvindo alguma música que me lembre você e não sentindo nada especifico nenhuma imensidão de sentimento, só essa estabilidade, só essa calmaria e sossego que é saber que em algum lugar do mundo você existe. Sempre penso em quantas coisas quero te dizer, e quando acumulo algumas ou algo dentro de mim diz que tá na hora, eu venho e escrevo pra você, mas hoje eu me senti como eu me sentia logo no comecinho, não é só a vontade de escrever uma carta pra você, mas é aquele momento em que você não sabe o que tá sentindo direito e quer falar com alguém, não pra desabafar ou nem conversar, mas é só a companhia, tu me entende? Hoje, essa noite, é por isso que eu escrevo pra você. Porque tu és e sempre foi a pessoa que eu desejo que esteja aqui, nos melhores momentos, nos piores momentos, e nesses momentos específicos onde não há saudade e nem tristeza, mas só a estabilidade de um dia normal e comum. Não que me seja surpresa pensar e querer você em horas assim, porque você sabe tão bem quanto eu que eu quero você toda hora, até nos momentos banais. Quero muito você aqui pra dividir meu mundo contigo, quero muito dividir teu mundo comigo, tem muitas coisas que eu quero te mostrar, e todo aquele romantismo que é comum pro meu coração, mas não é só isso, eu também me pego desejando você no banco do passageiro do meu carro no caminho pra algum lugar, eu também me pego desejando você do meu lado na hora de fazer supermercado, e não é saudades, você entende que não é saudades? É porque eu sou você, e você é eu, e eu não sei de que outra forma eu posso te dizer isso, mas eu sei que você entende o que eu sinto. Tu não és um complemento de mim, e se eu sou a sua alma gêmea, eu sou a sua parte e a minha também, assim como você é sua parte e a minha, não somos metades que se completam, nós somos um. Eu sou você. Você é eu. Essa carta é diferente das outras onde eu penso sempre em várias coisas pra te falar, hoje eu só quero falar o que vier a mente, porque isso é o mais perto de uma conversa banal que eu posso ter com você, já que a situação nos impede e que quando dá, você nunca quer falar... 
Tem uns dias, como hoje, que eu tenho a lembrança vivida de muitos anos atrás, e é engraçado pensar nessas coisas agora porque de repente elas fazem sentido. É engraçado lembrar que eu sempre me senti muito sozinha e deslocada, e que tua existência me fez ter um lugar no mundo, ou melhor do que isso, estar em paz em qualquer lugar do mundo, e em contra partida a minha solidão, lembro de sempre ter acreditado em alma gêmea, nessa uma pessoa certa pra você, nesse amor inexplicável que dá sentido a tudo. Eu te esperei mesmo sem saber que te esperava. Alguma coisa dentro de mim sempre me disse que você viria, e talvez seja por isso que você veio... Eu vou sempre te chamar, sempre, Harry. Em todas as minhas vidas, eu vou chamar por você, mesmo quando eu não souber onde te procurar, mesmo quando eu não lembrar seu rosto, nem mil encarnações vão apagar você do meu coração. Se me derem mais 10 vidas, eu vou chamar por você, se me derem 2 vidas, eu vou chamar por você, se essa for a minha última vida, saiba que chamo e chamarei por você. Porque somos um. O nosso amor é tão bonito que eu me sinto grata por ele todos os dias da minha vida, e eu só quero agradecer, eu queria ter outras formas de agradecer a Deus por ti. Como pode alguém viver sem um amor assim? Harry, a vida começou quando tu sorriu pra mim. Harry, a vida começou quando tu veio e me tirou pra dançar. Harry, você não é o amor da minha vida, você é o amor de todas as minhas vidas. Eu não sei onde nossa história começou, eu não sei como a gente construiu esse amor que parece que existiu antes mesmo de eu e você existirmos, a verdade é que a gente não sabe a origem de nada, e no final nada disso importa, todas as minhas perguntas são caladas quando eu abraço você. Minha cabeça na curva do teu pescoço me faz acreditar que tudo o amor é tudo. O amor é tudo. Não, não acredito em vida depois do amor, e não acredito em vida antes do amor. E eu só acredito na vida durante o amor. Mas existem tantas coisas bonitas, sabe? Um momento com os amigos, um almoço em família, uma gentileza de um estranho na rua, existem sonhos, objetivos, existem pequenos e grandes momentos e nada disso, meu amor, nada disso tem valor se não existir alguém no mundo pra você amar e ser amado de volta. Não tô dizendo que o resto não importa, o que eu quero te dizer é que o resto só importa porque houve você, porque houve você andando na minha frente, virando pra mim quando eu chamei seu nome e sorrindo, naquele dia 21 de maio há 6 anos atrás. Gosto de dizer que naquele momento os planetas se alinharam, é uma metáfora bonita, e é uma metáfora que se encaixa perfeitamente pra mim, você sabe porquê. Harry, eu não sei como não acreditar em você quando eu sinto isso tudo dentro de mim. O que mais posso te dizer, meu amor? Te agradecer é tão pouco, agradecer a Deus por você é tão pouco, eu só sei te amar, e te amar, e te amar, como se fosse impossível não amar você. E hoje, agora, eu só quero pedir que isso nunca acabe, nunca. Peço urgentemente pra que possamos conviver um do lado do outro mas a verdade é que tenho tanto medo da realidade estragar esse sonho tão bonito. Eu sei que não tá na hora de te pedir paciência, de te pedir cuidado, de te pedir compreensão, e eu não vou, deixa isso mais pra frente, mas agora eu quero e preciso pedir pra que você entenda que eu não posso existir num mundo onde o nosso amor não exista. Harry, o nosso amor sobreviveu a distancia, poderia ele sobreviver à convivência? Eu sei que eu tô apressada, mas é que me deu um medo, vi tantos amores tão bonitos terem fim, vi meus amores bonitos terem fim, e eu sei que nenhum desses amores se comparam ao nosso Amor, com letra maiúscula, mas eu quero que você entenda que a realidade é esmagadora, e que o tempo leva tudo, mas que ele nunca pode levar nós dois. Você vai ler uma das minhas primeiras cartas e vai me ver falando da minha insegurança em não sermos reais, e vai ler essa daqui e ver que meu medo mudou completamente, agora eu tenho medo de sermos reais demais, com falhas e defeitos que talvez distanciem nós dois, mesmo depois de tanta luta pra ficar junto. Mas eu sei, amor, eu sei que tô me adiantando, mas você me conhece e sabe que eu sofro por antecedência, e talvez seja sempre assim. Pedi tanto pro sonho ser real, que agora me pego com medo da realidade destruir o sonho. 
Eu te amo, com todos os defeitos e qualidades que eu conheço, e todos os que ainda vou conhecer. E hoje, agora, quero te falar porque quero que tu leia daqui uns anos algo que você não vai me ouvir dizer, mas precisa saber: eu te amo pelos teus defeitos. Eu vou repetir mais uma vez pra você ter certeza do que está lendo: eu te amo pelos teus defeitos. E eu não vou explicar o que eu quero dizer com isso em palavras, porque eu não consigo, e porque eu sei que você entendeu exatamente o que eu quis dizer. E tem mais uma coisa que eu quero te dizer, mas essa daqui você vai me ouvir dizer sempre, porque eu tenho certeza que isso não vai mudar, porque é isso que me trouxe a você, e na verdade, você já escutou isso, muitas vezes, mas eu vim te dizer agora porque fez mais sentido do que nunca, então lá vai: the heart never lies. Eu sei que você sabe. Foi acreditando no meu coração que eu encontrei você, foi acreditando no meu coração que eu confiei nesse amor, é acreditando no meu coração que eu tô indo até você, e mais do que tudo isso, é acreditando no meu coração que eu vou aguentar todas as dificuldades que o peso da realidade vai ter no nosso amor, é acreditando no meu coração que eu vou lutar pra esse amor nunca ter fim.
Eu não quero falar de antes e nem dizer que eu sempre amei você, e também não quero falar do depois e dizer que eu sempre vou amar você, eu quero falar do amor de agora. Harry, hoje, as 2:44 da madrugada desse dia 23 de maio de 2015: eu estou amando você.

Não, não acredito em vida após o amor. E nem antes dele. 
Só há vida durante o amor. 
Obrigada por isso. 

Com todo meu amor e saudade de sempre, 
Amanda.

terça-feira, 24 de março de 2015

Afraid.


Parte 2:



Being me can only mean
Feeling scared to breathe
And if you leave me then I'll be afraid of everything
That makes me anxious, gives me patience, calms me down
Lets me face this, let me sleep, and when I wake up
Let me breathe
When I wake up I'm afraid
Somebody else might take my place

Apesar do muito esforço pra me mostrar indiferente, eu estava adorando ter Harry passeando apenas de samba canção pelo meu apartamento, completamente confortável, como se estivesse em casa. A noite estava sendo agradabilíssima, não havíamos feito nada extraordinário durante o dia, apenas coisas normais do cotidiano de qualquer casal, exceto que não éramos um.  Entretanto, hoje eu poderia fingir que sim, e eu iria fazer isso.
Ou pelo menos pretendia, mas o destino tinha outros planos...
Nesse momento eu me encontrava deitada na cama, vestindo somente a camisa dele, que cobria o suficiente para eu não precisar vestir nenhuma calcinha. Ele estava em pé, de costas para mim, falando sobre alguma coisa que eu tinha parado de prestar atenção, pois havia me perdido na dificílima tarefa de observa-lo mexendo em minhas coisas, me questionando se aquela curiosidade toda significava algo.
- Você se importa? - Ele perguntou, apontando em minha direção um álbum de fotografias que eu tinha guardado junto com alguns livros.
- Não, pode ver. – Respondi sorrindo, e ele voltou a deitar do meu lado na cama, abrindo meu álbum de fotos, um dos poucos que eu tinha. Quando mudei de país, tentei trazer o mínimo de coisas possíveis, para não continuar muito apegada, pois mesmo sendo algo que sempre sonhei, a mudança foi muito difícil para mim.
- É sua família? - Perguntou Harry assim que abriu o álbum e se deparou com uma foto da minha família.
- Sim, esses são meus pais e meu irmão. - Ele continuou passando as fotos e fazendo perguntas sobre quem eram as pessoas nas fotografias, onde e quando foram tiradas e eu respondi todas elas, atenta em tudo que ele comentava a respeito, até que em determinado momento não me contive e soltei uma gargalhada, pra ele pareceu que eu estava achando algo engraçado, mas a verdade é que eu só estava nervosa com a curiosidade repentina dele sobre a minha vida, sonhando para que aquilo significasse algo bom.
- O que foi? Eu to sendo chato, né? - Ele perguntou meio envergonhado e eu logo tratei de desmenti-lo.
- Não, claro que não. Eu só to achando engraçado essa tua curiosidade, de onde surgiu isso? - Perguntei sorrindo, tentando arrancar algo dele.
- Sei lá. – Harry desviou os olhos dos meus, voltando sua atenção para o álbum de fotos. Agora era ele quem parecia estar nervoso.  – Só fiquei curioso.
- Muito curioso né, revirou meu quarto inteiro. – Continuei brincando com ele, adorava quando ele ficava sem jeito, acontecia raras vezes, mas quando eu descobria algo que o deixava dessa maneira, eu era incisiva e forçava uma piada ou uma brincadeira, com a esperança de que ele falasse algo ou fizesse algo que diria mais do que o pouco ou quase nada que ele me dizia. Não sabia dizer qual de nos dois era mais retraído na presença um do outro, mas acreditava que, pelo menos eu, conseguia disfarçar melhor os meus desconfortos.
- E você é muito chata. – Ele respondeu rindo, fechando meu álbum e colocando-o do seu lado enquanto me deitava na cama e subia em cima de mim, começando o ataque de cocegas que eu odiava. Ele sempre fazia isso quando eu insistia em alguma brincadeira que deixava ele sem jeito.
- Ah, não, por favor, por favor, não faz. – Em meio a gargalhadas, comecei a implorar para que ele parasse, mas Harry continuou até que minutos depois meu celular começou a tocar.
-  Salva pelo gongo. – Ele disse, me soltando e me ajudando a procurar o celular pela cama.
- Deve ser a Karina. – Falei enquanto levantava da cama, puxando os travesseiros e o cobertor, que revelaram o celular logo ao lado de Harry. Joguei de volta as coisas na cama enquanto ele pegava o celular e olhava a tela. Seu semblante antes sorridente fechou, e então ele esticou o braço pra me entregar o celular.
- Não é a Karina. – Foi tudo que ele disse. Peguei o celular de sua mão me sentindo ansiosa e olhei a tela. Era Josh, um cara com quem havia saído algumas vezes durante esses dois meses em que Harry esteve viajando.
O telefone continuou tocando em minha mão e eu tive pouquíssimos segundos pra pensar no que eu faria, se desligaria para evitar qualquer situação desconfortável, ou atenderia e agiria normalmente. Claro que escolhi a segunda opção, mesmo não aparentando ser a melhor delas, mas eu queria ver a reação de Harry. Com o coração acelerado, atendi o telefone e tentei me manter o mais descontraída possível.
- Oi, Josh. Tudo bem sim. E contigo? - Comecei a andar pelo quarto, evitando olhar pra Harry, mas sentindo que os olhos me acompanhavam atentamente. Percebendo o incomodo dele, comecei a forçar um entusiasmo com a ligação de Josh. – Poxa, hoje não vou poder mesmo, tô bem ocupada, mas a gente pode marcar outro dia sim. Tá certo, isso, é só ligar. Ok, boa noite, beijão. – E então desliguei o telefone, não prolonguei a conversa para não abusar, mas sabia que tinha atingido Harry como eu queria. Botei o telefone na cabeceira e me virei pra ele, que me olhava sério. Estremeci quando ouvi a voz dele:
- Aparentemente perdi algumas coisas enquanto estava viajando. Esse Josh é teu namorado? - Em qualquer outro momento, Harry teria ignorado o acontecimento e agido como se fosse algo completamente irrelevante, mas aparentemente essa viagem tinha mudado algo nele e eu notei isso desde o momento em que ele entrou cruzou a porta do meu apartamento, e por isto resolvi abusar da sorte. Contudo, talvez eu tenha passado um pouquinho dos limites.
- Não, você sabe que eu não namoro. – Respondi me sentindo muito nervosa, mas tentando não transparecer isso. Meu coração parecia que ia sair pela boca a qualquer momento. Eu também poderia ter fingido casualidade e mudado logo de assunto, mas como ele me pareceu bem mais incomodado do que eu esperava, continuei para ver até onde ele iria.
- Bom, ele com certeza não é só seu amigo, o nome dele foi salvo no seu telefone com um coração e pra ele estar ligando essa hora... – Eu logo entendi o que ele estava sugerindo. Embora permanecesse imóvel na cama, ele me olhava sério, seu rosto não demonstrava nenhuma emoção, então eu não sabia muito bem o que pensar da reação dele, mas o ambiente estava com uma atmosfera tão pesada, que eu sabia que havia cruzado uma linha sem volta.
- Ele salvou o nome dele. – E isso foi tudo que eu consegui dizer. Ele fez uma careta e eu entendi que essa não era a resposta que ele queria.
- Não precisa mentir, só quero saber se ele é teu namorado? - Me senti extremamente ofendida com a acusação dele sobre eu estar mentido, e pior, sobre o tipo de pessoa que ele achava que eu era.
- Não, Harry, ele não é meu namorado. Se ele fosse, eu não estaria aqui com você. – Respondi sem me preocupar em ser grosseira,  o que fez com ele fizesse exatamente a mesma coisa. Ele não aumentou o tom de voz como eu havia feito, mas pude sentir todo seu sarcasmo no que ele disse em seguida:
-Então vocês tão só fodendo? - Meu queixo caiu até o chão, eu não conseguia acreditar no que havia acabado de escutar, e pela expressão no rosto dele, ele também estava surpreso com o que disse, mas antes que ele se arrependesse, fui tomada pela raiva e, com o intuito de ofendê-lo da mesma forma, respondi:
- Sim, nós estamos só fodendo. Igual eu e você estamos só fodendo, a diferença é que ele não é casado. – Virei de costas pra ele e saí do quarto, torcendo pra que ele não me seguisse. Eu estava com raiva, mas abandonei o quarto porque não sabia como seria capaz de continuar aquela conversa. Se eu for realmente honesta, diria que me senti um pouco vitoriosa sim, de finalmente ter feito ele perder aquele auto controle maldito que beirava a indiferença e ter demonstrado que se importa. Mas ele falou comigo de forma tão baixa, que pela primeira vez desde que tínhamos começado aquilo tudo, eu realmente me senti como a outra.  E uma outra bem vagabunda pra ele se sentir no direito de falar comigo daquela forma. Não sei se eu havia ganhado mais do que perdido ao induzir essa briguinha.
Fui em direção a varanda e sentei em uma cadeira, amaldiçoando os quatro cantos da terra pelo frio horrível que estava fazendo essa noite e eu estava vestindo somente a blusa do imbecil. Eu sei que eu comecei aquilo, poderia ter evitado a situação, mas eu estava cansada, cansada de tentar adivinhar o que ele pensava, de tentar interpretar tudo que ele dizia, de procurar nas entrelinhas o que eu significava pra ele, e principalmente, cansada de ter que sofrer sozinha. Não que eu quisesse que ele sofresse, mas eu achava extremamente injusto toda a situação onde pra mim tudo era muito desconfortável e confuso, enquanto ele parecia estar sempre vivendo as mil maravilhas tendo o casamento perfeito em casa e a vagabunda pra ele se divertir quando estivesse entediado.  Tudo era muito difícil porque a natureza do nosso relacionamento - se é que eu poderia chamar esse caso de relacionamento - era complicada, e o fato de ele ser tão fechado fazia com que eu me fechasse também e isso levava as coisas a um grau de dificuldade que chegava a ser desgastante.
Fiquei na varanda por um tempo tentando me acalmar, e pensando nas coisas que eu queria dizer a ele, sabia que tinha que voltar pro quarto logo, ou ele viria atrás de mim, e com certeza, essa não era uma conversa que eu queria ter nesse frio desgraçado. Depois de alguns minutos, já me sentindo mais calma, voltei pra dentro de casa e fui em direção ao meu quarto, abri a porta e me surpreendi ao vê-lo vazio, saí e fui até os outros cômodos da casa, procurando Harry. Fui ate a sala e vi que as malas que ele havia trazido com ele não estavam mais lá.  
-Filho da puta! –Gritei enquanto era tomada pela raiva novamente. Aquilo era pior do que nossa briguinha ridícula, eu não acredito que ele simplesmente foi embora. Antes de tudo ele quem estava errado, claro que eu não precisava ter provocado ele com a ligação de Josh, mas de qualquer maneira, não é como se ele pudesse exigir algo de mim, ele mesmo atendeu ligação da mulher dele na minha frente varias vezes, nós não tínhamos nenhum compromisso, nunca nem tínhamos tocado nesse assunto, e na primeira vez que algo do gênero acontece, ele simplesmente vai embora? Eu queria conversar, resolver algumas coisas, finalmente falar sobre a gente ao invés de fingir que está tudo normal e maravilhoso, enquanto ele nem se importou com nada disso, e simplesmente foi embora. Me senti extremamente patética ao me dar conta de toda a expectativa que eu botava nisso e ver que para ele as coisas eram bem irrelevantes. Eu havia mesmo usado a palavra “relacionamento”Isso era só um caso, e eu era uma idiota em achar que era algo além disso.
A tristeza tomou o lugar da raiva e eu voltei pro meu quarto, pronta pra deitar na minha cama, e chorar até dormi. Pensei em ligar pra Karina, mas não queria estragar a noite dela, que com certeza estava melhor que a minha. Fiquei deitada na cama, imóvel, olhando pro teto e tentando parar os milhões de pensamentos da minha cabeça, quando senti que ia começar a chorar, ouvi barulho da porta abrindo e fechando, sentei na cama e esperei Harry entrar no quarto. A maçaneta da porta rodou e fui surpreendida pela imagem de Karina chorando.
- Eu odeio ela. – Não precisei que ela me dissesse nada, além disso, pra saber de quem ela estava falando e o que havia acontecido: - Eu odeio ela. Eu odeio ele. Eu odeio os dois.
- Poxa, amiga, tenta se acalmar, me conta o que aconteceu.  – Karina fechou a porta do quarto e caminhou até a cama, sentando do meu lado enquanto tentava engolir o choro e começava a explicar o que houve. – Não aconteceu nada, amiga. Primeiro eu cheguei na casa dele e tava me sentindo muito feliz de estar ali, de ele ter tomado a decisão de me levar ali, e vou te confessar que me bateu um sentimento de vitória, do tipo “toma Giovanna, eu to na tua casa e ele que me trouxe”, mas quando cheguei lá, comecei a me sentir estranha, desconfortável, tem fotos dele com ela e o filho por todo lugar, eu sei que ele notou como eu fiquei porque ele começou a tentar me distrair, eu vi que ele ficou nervoso e pra evitar que a gente brigasse, a gente começou a se pegar...
- Claro, porque isso sempre da certo né, Karina – Interrompi, com ironia, tentando descontrair, e ela riu levemente.
- Até que deu, mas depois ele dormiu, ah, esqueci de falar, a gente transou no sofá, não tive coragem de entrar no quarto deles e ele também não me pareceu confortável com a ideia... Enfim, depois que ele dormiu, comecei a andar pela casa, olhei tudo, fui em todos os cômodos e de repente não me senti na casa dele como eu achei que sentiria, eu me senti na casa dela, ou melhor, na casa deles, literalmente... E sabe, isso é algo que eu e ele não temos, algo que eu e ele talvez nunca teremos...
-Não fala assim, amiga, vocês estão juntos agora e a gente nunca sabe do futuro... – Eu disse tentando consolar Karina, embora acreditasse fielmente num final feliz.
Conheci Tom na clinica onde trabalhava, ele foi meu paciente por um período de 6 meses, cerca de dois meses depois do inicio da terapia, ele conheceu Karina, então eu acompanhei o inicio do que foi um conflito imenso para ele. quando ele e Karina finalmente ficaram juntos, eu tive de encerrar a terapia devido os conflitos éticos que aquilo causava, sem mencionar que acabamos nos tornando muito amigos também, então para o bem da terapia dele, recomendei-o a outro psicólogo.

Flashback on

Eu tinha que acordar todos os dias as exatas cinco horas da manha, pois precisava de pelo menos uma hora pra me arrumar e tomar meu café da manha, assim pegaria o metro as seis horas e ele levaria cerca de 30 minutos pra me deixar em Londres, onde eu faria uma caminhada de 15 minutos até a clinica onde eu trabalhava, chegando lá pouco antes das sete, o horário que ela abriria.
Consegui esse emprego como um estagio na faculdade Imperial College London onde eu estava fazendo minha pós-graduação em Psicologia Clinica. Foram oferecidas duas vagas a minha faculdade onde eu me saí muito bem na prova de seleção e fui chamada para trabalhar no Hospital de St. Mary. Embora fosse um estagio, pagava muito bem e eu tinha esperanças de que futuramente pudesse ser contratada como funcionaria, pois modéstia a parte, eu estava me saindo muito bem até o momento, tão bem que eu - que sempre havia chegado atrasada nos lugares - era uma das primeiras a chegar. E digo uma das primeiras porque havia sempre um paciente que chegava praticamente na mesma hora que eu. Ele devia sofrer de ansiedade, no mínimo.
- Bom dia, Doutora – Ele disse assim que me aproximei da entrada do hospital, que estava fechado, pois o funcionário responsável por abri-la ainda não havia chegado.
- Bom dia. – Respondi saudosa, me sentindo emocionada por ele ter me chamado de doutora. Confesso que eu usava o jaleco por puro status, não precisava chegar com ele no hospital, mas assim eu me sentia mais importante. – E ah, fora do hospital eu sou só Amanda.
- Muito prazer, Amanda. Eu me chamo Thomas Fletcher, mas pode me chamar de Tom. – Ele estendeu a mão para me cumprimentar. Ah, como se eu não soubesse quem ele era, mas fingi casualidade, como se ele fosse um desconhecido.
- Muito prazer, Tom. Você esta um pouco adiantado, não? – Perguntei no que eu considerava ser um tom educado.
- Estou, mas é porque tive um compromisso mais cedo e decidi vir direto pra cá, para não correr o risco de atrasar. Melhor estar adiantado que atrasado, não?
- Nenhum dos dois, o melhor mesmo é estar na hora certinha. Tempo é tudo, Tom.  – Eu falei olhando diretamente pro seu rosto. Meses depois ele me contou que foi devido esta minha resposta que ele pediu a direção do hospital, sobre o pretexto de uma ótima indicação de seu antigo psicólogo, para ser meu paciente. Tom abriu um sorriso largo em resposta ao que eu havia acabado de dizer, e em seguida perguntou:
- Eu te conheço? Tenho a impressão de que nos conhecemos. – Nesse momento eu quis rir, e lhe dar alguma resposta enigmática, mas decidi manter a casualidade:
- Isso é bem improvável, eu me mudei para Inglaterra há apenas alguns meses, e na verdade moro em Chichester.
-  E você vem a Londres todos os dias? - Ele me perguntou, parecendo surpreso.
- Sim, trabalho aqui pela parte da manha e faço pós-graduação no Imperial College London a tarde, a noite volto para Chichester.
- Deve ser cansativo essa viagem de ida e volta todos os dias.  
- Um pouco, mas a verdade é que gosto bastante de morar em lá , e trabalhar e estudar aqui em Londres também, então não me importo muito. – Nesse momento Tom forçava as sobrancelhas, me olhando de uma forma bem estranha.
- Tem certeza que não nos conhecemos? - Ele insistiu na pergunta de um milhão de dólares.
- Eu realmente acho improvável, mas quem sabe... – Dessa vez tive de rir, e antes que continuássemos a conversa, fomos interrompidos pelo funcionário que chegou com as chaves do hospital.
- Bom, foi um prazer conhecer você, Tom. Quem sabe não nos esbarramos pelos corredores. – Eu disse estendendo a mão, a qual ele apertou, ainda parecendo um pouco desconfiado.
- Também foi um prazer, Amanda. Bom trabalho. - Ele segurou minha mão e sorriu educadamente, entramos no hospital e tomamos caminhos diferentes. Pensei imediatamente em enviar uma mensagem para Karina, mas preferi contar a novidade pessoalmente, queria muito ver a cara dela.

Flashback off

         - Tu ta prestando atenção, mana? - Karina me deu uma sacudida e só então percebi que ela continuava falando enquanto eu me perdi em lembranças.
- Desculpa amiga, me perdi, mas porque tava lembrando de como o Tom tava quando te conheceu, e eu te digo: eu acompanhei isso melhor do que ninguém, porque como terapeuta dele, eu sabia de coisas sobre ele  que ele não admitia pra si mesmo, e te digo: ele ama você, mais do que isso, ele é completamente louco por você. Literalmente louco. – Falei olhando bem nos olhos dela.
- Eu sei disso, amiga. Eu sei que ele me ama. O problema é que ele ama ela também. E eu sei que isso é muito egoísta de se dizer, mas eu sou assim e pronto, e eu sei que tu me entende.
- Sim, amiga, entendo você e entendo seu egoísmo, ele é mais do que natural. Ninguém quer dividir um lugar no coração de alguém com outra pessoa. – Ela estava certa, eu a entendia, entendia o que sentia, entendia o problema, e entendia, principalmente, que não havia muito o que se fazer naquela situação. – Mas amiga... –Resolvi continuar e dizer o que ela não iria querer ouvir, mas precisava ser dito: - Isso é algo que não ha nada que se possa fazer, além de evitar essas situações onde tu só vai se sentir mal por algo que não é nenhuma novidade. Tu já sabia que seria assim quando tu quis ficar com ele...
- Sabia, o que não significa que seja fácil. – Ela me interrompeu.
            - Mas que também não significa que você tenha que dificultar. – Ela fez menção de dizer algo, mas desistiu, sabia que eu estava certa. Então resolvi continuar falando, antes que sua teimosia tomasse o controle: - Tu saiu de lá no meio da noite, agora vai ter que explicar pra ele o motivo disso. Sugiro que vocês tenham uma conversa real e imponham certos limites, ou melhor, que tu bote certos limites pra ti e não se sujeite a situações que tu sabe que não vão te trazer nada de bom.  Eu sei que tu ama o Tom e que é difícil, mas em certos momentos, a gente tem que ser racional. Tu tens que impor tua vontade e fazer o que é melhor pra ti.
- Falou aquela que deixa o Harry decidir tudo, não reclama de nada e finge que esta tudo indo muito bem... – Disse Karina, contrariada, e eu sabia que esse era o jeito dela de confirmar que eu estava certa no que havia falado, mas sem me deixar esquecer que eu cometia os mesmos erros que ela. Ridícula.
- Ei fera, estamos falando de você, não joga pesado assim não.  – Falei rindo, e ela riu também, para em seguida tocar no assunto que eu estava pensando a noite inteira.
- Mas sim, o que aconteceu com vocês? Encontrei com ele na saída do prédio, carregando as malas com uma cara de puto.
- Mentiraaaaa!!! O que ele falou? - Perguntei agoniada pra saber o que ele disse. Harry e Karina eram muito amigos, e embora ele fosse muito fechado em dizer qualquer coisa relacionada a mim, eu sabia que ele pelo menos comentaria algo.  
- Mana, a gente se esbarrou porque ele saiu apressado e puto, e eu tava chegando apressada e chorando, aí perguntei dele o que aconteceu e porque ele tava indo embora daquele jeito, aí ele só disse “a gente brigou. E tu? Porque ta chorando?” mas aí eu nem respondi, só perguntei se ele tinha se despedido de ti né, porque eu sei que se ele tivesse saindo escondido a treta ia ser muito maior. Aí ele disse que não, que “só saí”, aí eu imaginei como tu ia ficar puta quando visse que ele foi embora e como eu já estava com ranso do Tom, descontei nele e falei “vocês são todos uns filhos da puta”. – Eu caí na gargalhando imaginando a cena, que deve ter sido tensa porém extremamente engraçada. Karina riu junto, confirmando minha suspeita.
- Ele deve ter ficado muito confuso. – Falei, ainda rindo.
- Mana, ficou mesmo, fez uma cara de idiota. Eu virei e fui embora. Mas sim, quero saber o motivo da briga porque ele tava putasso, nunca tinha visto o Harry assim. Inclusive, primeira briga de vocês, ai amiga, quase fico emocionada, parabéns, vocês são oficialmente um casal, real. – Nós rimos juntas e eu comecei a contar o desenrolar da nossa mini briga, interrompida pela fuga de Harry no meio da noite.
Nós ficamos conversando por um bom tempo, depois resolvemos assistir um filme de comedia brasileiro, denunciando nossa saudade de casa, muito compreensível depois daquela noite trágica para nós duas. Karina acabou adormecendo no inicio do filme, e como eu haveria de trabalhar daqui há 3 horas, resolvi tentar dormir um pouco também. Não acordei Karina para manda-la pro seu quarto porque sabia que essa noite ela não ia querer dormir sozinha, e honestamente, eu também não. Quando apaguei as luzes e deitei na cama, peguei o celular para ativar o alarme e confirmar o que eu já esperava: nenhuma ligação de Harry. Senti saudades de casa e soltei um risinho sarcástico, lembrando de como eu achava as coisas complicadas na época, sem saber que agora elas tomariam proporções drásticas.

Agora a situação exigia muito mais do que somente paciência.