sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

De janeiro a janeiro.


Eu só lembro de que era um sábado a noite, eu havia chegado em casa tao cansada e exausta que deitei no sofá e dormi. Essa era a última coisa que lembrava, então quando o vi, tive certeza que era um sonho. Eu sabia disso. Assim como sabia que durante os sonhos, nossas almas se desprendiam da matéria e viajavam por outros planos, encontrando umas as outras. E a minha havia encontrado a dele. De verdade. Finalmente.

Apressei o passo me aproximando, quando já estava bem perto, pude sentir, literalmente, a presença dele. Meus olhos encheram de lagrimas e pensei em tantas coisas pra dizer, tantas coisas que eu queria falar, mas a única que saiu foi:

- Eu sinto tanto a tua falta. 

Ele se virou pra mim, e eu soube que ele sabia que era eu ali, antes mesmo de ter falado algo. Quando ele fez menção de responder algo, eu o interrompi:

- Não diz nada. Não se move. a qualquer momento eu vou acordar desse sonho, e não vai restar mais nada além da certeza que eu estive aqui com você. Eu quero muito tocar você, abraçar você, mas sinto que tua presença vai se desfazer feito pó entre os meus braços. E se o nosso tempo é tao curto e frágil, há coisas que preciso te dizer, lá vai: eu te amei muito. É, é com essa que eu quero começar. Eu te amei muito, e profundamente. Eu vivi esse amor todos os dias, eu senti esse amor todos os momentos do teu lado. Eu te amei muito. E eu  sei que fui muito amada. Penso muito que sinto tua falta, mas, honestamente, sei que sinto muito mais falta do quanto tu me amou. Eu te amei muito, mas essa não é a parte importante, pois todo mundo ama muito vezenquando. Então, não é só isso que quero dizer, sim eu te amei muito, mas falta algo. É, acho que é isso: eu te amei muito de uma forma que eu nunca irei amar de novo. Da forma que só se ama o primeiro amor: inocentemente. Eu sinto muito a tua falta. E sinto muito mais ainda a falta de ser quem eu descobri que poderia ser. Você me trouxe muito, mas ter levado essa inocência do amor - da vida, por que nao? -, me custou muito caro. Primeiros amores são eternos, mas não duram pra sempre. Eu agradeço a eternidade do nosso, e no fundo, reconheço a reciprocidade. Mas não é isso, não... o que eu quero te dizer é que o mundo anda muito feio, e quando eu sinto falta da minha humanidade, sinto falta de você. Você precisa saber que eu descobri que andar do lado selvagem da vida não tem nem metade do valor que é andar do lado sem alarmes e sem surpresas. E essa foi a primeira lição que tu me ensinou: sossego. É engraçado como eu só consegui enxergar teu cuidado anos depois. Eu sinto muito pela ingratidão, mas eu não queria cuidado naquela época. O problema é que o mundo anda muito feio, e eu sinto muita falta de sossego. Eu sinto muita falta de sossego. Eu sinto muita falta de sossego. Eu sinto muita falta de sossego. Eu sinto muita falta de sossego. Eu entendo melhor agora. E hoje eu vejo que talvez você realmente tenha me enxergado melhor que qualquer um, mas não, não era o tempo certo. Eu queria rodar igual pião na vida, eu não tava pronta pra parar, eu tava só começando... mas na segunda volta tu tirou a música, disse que eu não podia mais rodar. Eu sei, eu sei, você sabia que eu precisava aprender a ir devagar, o você esqueceu de enxergar é que eu só ia compreender isso depois de rodar, e rodar, e rodar, e rodar... Não, não fala nada. Eu não quero que tu diga nada, eu não quero te ouvir, eu não quero que tu volte, eu só quero te agradecer pelos ensinamentos, por ter sido muito bem amada, por ter me mostrado amor, por ter diminuído minha velocidade mesmo que você não aparasse minha queda. Eu te agradeço porque hoje eu aumentei a velocidade, mas agora aparo todas as minhas quedas, acredita? Lembra que você disse que eu me entregava tristeza? Hoje em dia eu nem sei mais ser triste, o problemagora, é que eu venho me entregando a coisas muito piores. Eu sinto muito a tua falta. Não, não é isso, vou tentar de novo: eu sinto muito a falta do sossego que tu me ensinou a ter. A minha primeira lição de paciência, veio de você. E mesmo não querendo, tu me preparou pra uma lição de paciência muito maior, mesmo ela me levando prlonge de você. Eu te amei muito. Inocentemente. Você entende? I-n-o-c-e-n-t-e-m-e-n-t-e. Com muito medo, mas com a esperança viva de que ia durar pra sempre. Eu sei, eu nunca vou amar com essa inocência de novo. Isso é privilegio de primeiro amor. E se você acha que eu to clamando inocência ou tua volta, saiba que não, entenda: eu to clamando sossego, mas sozinha dessa vez. Sei que de tudo que se resta do primeiro amor, o desejo da felicidade do outro é a melhor parte. E eu sei que essa foi a sua ideia quando foi embora: felicidade pra mim e felicidade pra você. E depois da tua ida, vivi os melhores anos da minha vida, fui muito feliz. Obrigada. Mas agora te peço: para, chega, se for pra me desejar algo, que seja sossego. Essa é a hora. Esse é o tempo certo, você me ensinou a lição, e agora eu entendi. Me envia vibrações de sossego, aquele que você sempre soube, no fundo, ser meu maior desejo. E maior necessidade. Eu te amei muito. E por isso te agradeço por esse ensinamento: eu quero é sossego.

Sem alarmes e sem surpresas. Agora eu sei. 

- Se cuida. Por favor, se cuida. - Ele pediu e eu pude entender, depois desses anos todos, a importância desse pedido. 

- Eu vou. Agora eu vou. 


E então eu acordei. 









sábado, 21 de fevereiro de 2015

There is a light that never goes out.



Era meia noite de um sábado qualquer perdido nesse mês de setembro que parecia não ter fim, e mais uma vez eu me encontrava no banco do passageiro do carro dele. Estávamos pegando uma estrada pra algum lugar que ele disse que me levaria, não fiz perguntas sobre o destino, da mesma forma que não fazia nenhuma outra pergunta a ele, embora tivesse um milhão delas.

- Escuta essa música. –Ele disse quebrando o silencio que havia se instalado no carro. Coloquei a mão pra fora da janela e fiquei fazendo um movimento de ondinha, habito que havia adquirido quando me sentia agoniada demais ou tranquila demais, mas não sabia dizer qual sentimento me levou a fazê-lo agora.

A música começava com uma introdução breve e logo em seguida ouvi a voz do vocalista cantando “Take me out tonight...”, foi uma daquelas canções que a gente gosta de imediato. Pensei em pergunta quem cantava, mas deixaria pra depois, não queria quebrar o silencio mais uma vez. Gostava de ficar em silencio na companhia dele, era realmente confortável, talvez por que fosse raro, já que falávamos tanto sobre tudo, o tempo todo.

Quando chegamos ao local, ele estacionou o carro e eu saí logo em seguida, precisava fumar, não tinha me dado conta do quanto meu corpo pedia por nicotina até o exato momento em que levei o cigarro até a boca e dei a primeira tragada, cedendo ao primeiro vicio da noite. Senti meus músculos relaxarem por um instante, e logo se contraírem novamente quando ele se aproximou de mim, pegou o cigarro da minha mão, me deu um selinho e fumou logo em seguida. Ficamos um do lado do outro, encostados no carro dividindo o mesmo cigarro enquanto a música ainda tocava. Comecei a notar o local onde estávamos, era um terreno abandonado, completamente deserto e sem iluminação, nós devíamos ser as únicas pessoas ali, e ao invés de sentir medo, senti alivio, não podíamos ser vistos juntos. Eu não queria que ninguém me visse com ele.

Depois de fumar, voltamos ao carro e ficamos sentados ouvindo música e conversando sobre qualquer coisa que viesse a mente. Eu estava um pouco nervosa porque sabia que a qualquer momento pararíamos de conversar, e conversar com ele era a única coisa que eu podia fazer sem culpa nenhuma, embora a culpa fosse a última coisa que me passava pela cabeça quando ele me beijava e me tocava. Fiquei perdida nos meus pensamentos e não pude continuar a conversa, concordei com a última coisa que ele disse, seja lá o que fosse, e ele parou de falar, virei o rosto pra olhar pra ele. Ele me olhava e sorria. Era especialmente estranha a forma como ele me olhava algumas vezes, era o momento em que eu mais me sentia desconfortável com ele, então impulsivamente eu sempre fazia ou falava algo pra quebrar aquele clima o mais rápido possível. Dessa vez, contudo, não fiz nada, e eu soube que ele entendeu o recado quando se aproximou de mim e me beijou. Senti a ponta de sua língua tocar meu lábio pedindo permissão pra aprofundar o beijo, eu dei, cedendo ao segundo vicio da noite.

Eu poderia contar nos dedos de uma mão quantas vezes nos beijamos calmamente. Quando nossas línguas se tocavam davam espaço pra um desespero que eu não sabia que existia, quando suas mãos tocavam meu corpo davam espaço pra um desejo tão forte que eu não sabia que existia. A posição em que nos encontrávamos no carro começou a dificultar as coisas, então ele pediu pra que passássemos pro banco de trás e eu prontamente neguei, assim como eu negava tudo que estivesse ao meu alcance negar pra ele. Não que isso funcionasse, é claro, ele insistia em transformar todos os meus nãos em sins, principalmente aqueles em que ele sabia que na verdade eu queria dizer sim. O que ele não entendia é que eu, realmente, não queria, mas não conseguia fazer meu corpo e minha mente entrarem em consenso. E nessa batalha infernal meu desejo sempre tinha a ultima palavra. Ele se inclinou novamente pra continuar me beijando, e descendo os seus lábios até o meu ouvido, sussurrou:

- Deixa eu tirar o teu sossego.  – “Mas se é sossego que eu quero” foi a primeira coisa que me veio a mente, contudo preferi não responder. Era incrível como ele era o oposto de tudo que eu queria, de tudo que eu achava certo, era a personificação do pecado, e ainda sim meu corpo correspondia ao dele de uma forma surreal. O desejo cru, sem a presença de sentimento, era ainda mais nocivo e viciante. Pensei.
- Eu te odeio. – Eu disse, e então o afastei um pouco e passei para o banco de trás, ouvindo sua risada enquanto ele repetia meu gesto. Ele imediatamente voltou a me beijar e começou a tentar tirar minha blusa, por força do habito voltei a negar.  Às vezes nem eu sabia porquê dizia tanto não. Ele continuou tentando, e comecei a me debater desesperada empurrando suas mãos, então o filho da puta começou a rir de mim!
- Calma, calma. –Ele dizia rindo, comecei a rir também, imaginando o quão patético era quando eu fazia essas coisas.
- Quando eu digo não, você tem que parar. – Falei esperando que ele aceitasse. Doce ilusão. Ele forçou uma carinha de triste e disse baixinho:
- Po, só quero sentir teu corpo no meu. – Eu tinha que admitir, o cara era bom de lábia. Achei engraçado porque ele usou o único argumento que me convenceria. Ele sabia ser fofo quando queria, embora eu sempre interpretasse sua gentileza como cinismo. Por fim, tirei a blusa, afinal, era o que eu queria também, decidi que não adiantaria ficar negando as coisas a ele se isso significasse negar as coisas pra mim. Se no final eu ia terminar me sentindo culpada, eu ia pelo menos estar satisfeita. Às vezes eu conseguia ser bem egoísta. Joguei a blusa em algum canto do carro e puxei-o pra cima de mim, voltando a beija-lo imediatamente, sabia que se eu tivesse um tempo pra pensar acabaria desistindo. E mais uma vez, meu corpo venceu aquela batalha.

No caminho de volta, ficamos em silencio, tive vontade de acender outro cigarro, mas decidi que já tinha cedido a muitos vícios em uma noite. Ele me deixou na porta de casa, nos despedimos com um abraço e quando vi o carro virar a esquina, fui tomada pela culpa novamente. Céus, eu estava perdida, sufocando no egoísmo das minhas próprias vontades, sabia que havia uma terceira pessoa envolvida nisso, eu não queria machucar ninguém, eu não queria machucar ele. Prometi pra mim mesma que essa teria sido a última vez, mas quando botei as mãos no rosto, senti o cheiro dele e eu soube que essa era uma promessa que eu não conseguiria cumprir.

Droga, tenho que perguntar o nome daquela música. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Baby came home.


Ontem tu me chegou com aquele papo estranho sobre demoras e esperas, e eu sei que tu fala dessas coisas pra tentar acalmar meus ânimos quando tu sabe que eu tô a beira de mais um surto qualquer. Tu fica mais carinhoso e diz todas aquelas coisas que tu sempre me diz, só que com mais desespero, com mais urgência, com medo do meu medo. Tua calmaria vira pó e evapora quando a minha agonia se torna apalpável. E as palavras sempre seguras que tu solta como se fossem poesia pro meu ouvido cansado de esperar ouvir teus passos em frente a porta se transformam em um amontoado de sussurros medrosos e inseguros querendo dizer mil coisas mas que só dizem: fica, fica, fica, por favor, fica.

Eu jogo tua roupa pela janela e te ponho porta a fora mas tu sabe que eu te espero. Eu grito pra toda a vizinhança escutar que tu é o canalha do século mas tu sabe que eu te espero. Eu choro descabelada sentada no chão da cozinha mas tu sabe que eu te espero. 
Eu roubo teus cigarros mas tu sabe que eu te espero. 
Eu roubo teu sossego mas tu sabe que eu te espero. 
Eu juro que foi a ultima vez mas tu sabe que eu te espero. Eu juro que não vou te esperar mas tu sabe que eu te espero. 
Tu sabe que eu te espero. 
Tu sabe. 
Eu espero.

De manha cedo tu levanta da cama com cuidado pra não me acordar, e eu sei que tu faz isso pra me poupar de te ver saindo mais uma vez. Tu adianta os nossos passos pra cuidar de mim, mas eu só queria não precisar ter tanto cuidado assim. A fragilidade da nossa relação me cansa, e mesmo assim eu não vou embora, então eu fecho os olhos e finjo dormir porque sei que se eu ver tu me deixando mais uma vez, talvez eu nunca mais abra a porta.  
Mas eu abro. 
Porque tu sempre volta.

Outro dia saindo da minha casa tu me contou que encontrou um velhinho na rua, que sentou do lado dele e bateu um papo de 5 minutos, tu falou que tava com medo porque tu quer me dar o mundo mas não consegue me dar a única coisa que eu quero, e acha que eu não vou te esperar pra sempre. Então tu me disse que o velhinho perguntou se você e eu éramos amor verdadeiro, e você disse que sim, que com certeza sim. E ele te respondeu com mais segurança do nosso amor do que eu e você: -Se é amor verdadeiro, ela vai esperar.  
Eu quis te bater, gritar, chorar e dizer que isso tudo é golpe muito baixo, que eu já esperei demais, que eu já não aguento mais, mas...mas...mas...mas...
tu 
sabe 
que 
eu 
te 
espero.

Dessa vez eu não quero mentir, levanto da cama e te ajudo a achar tuas roupas espalhadas pelo quarto, não trocamos nenhuma palavra, eu te acompanho até a porta e abro, tu se inclina pra me beijar e o pensamento de saber pra onde tu vai esmaga meu coração até eu achar que ele vai virar pedra. Vai voltar pra tua família, abraçar teus filhos e beijar tua mulher. Talvez tão tua quanto eu. Talvez mais tua do que eu. Te beijo, com medo. Tu sorri, com medo.
- Eu amo você, pequena. - Tu diz, com medo.
- Tu vai me esquecer assim que eu fechar a porta. - Faço drama, com medo.
- Impossível. Estou cheirando a você até a alma. 

Te vejo se afastando e penso em dizer algo como "não demora pra voltar pra casa, amor", até me dar conta de que você já tá indo pra tua casa. Quem não tá em casa sou eu.

Fecho a porta, com medo.
Te espero, com medo.
Te amo, sem medo.