sábado, 21 de fevereiro de 2015

There is a light that never goes out.



Era meia noite de um sábado qualquer perdido nesse mês de setembro que parecia não ter fim, e mais uma vez eu me encontrava no banco do passageiro do carro dele. Estávamos pegando uma estrada pra algum lugar que ele disse que me levaria, não fiz perguntas sobre o destino, da mesma forma que não fazia nenhuma outra pergunta a ele, embora tivesse um milhão delas.

- Escuta essa música. –Ele disse quebrando o silencio que havia se instalado no carro. Coloquei a mão pra fora da janela e fiquei fazendo um movimento de ondinha, habito que havia adquirido quando me sentia agoniada demais ou tranquila demais, mas não sabia dizer qual sentimento me levou a fazê-lo agora.

A música começava com uma introdução breve e logo em seguida ouvi a voz do vocalista cantando “Take me out tonight...”, foi uma daquelas canções que a gente gosta de imediato. Pensei em pergunta quem cantava, mas deixaria pra depois, não queria quebrar o silencio mais uma vez. Gostava de ficar em silencio na companhia dele, era realmente confortável, talvez por que fosse raro, já que falávamos tanto sobre tudo, o tempo todo.

Quando chegamos ao local, ele estacionou o carro e eu saí logo em seguida, precisava fumar, não tinha me dado conta do quanto meu corpo pedia por nicotina até o exato momento em que levei o cigarro até a boca e dei a primeira tragada, cedendo ao primeiro vicio da noite. Senti meus músculos relaxarem por um instante, e logo se contraírem novamente quando ele se aproximou de mim, pegou o cigarro da minha mão, me deu um selinho e fumou logo em seguida. Ficamos um do lado do outro, encostados no carro dividindo o mesmo cigarro enquanto a música ainda tocava. Comecei a notar o local onde estávamos, era um terreno abandonado, completamente deserto e sem iluminação, nós devíamos ser as únicas pessoas ali, e ao invés de sentir medo, senti alivio, não podíamos ser vistos juntos. Eu não queria que ninguém me visse com ele.

Depois de fumar, voltamos ao carro e ficamos sentados ouvindo música e conversando sobre qualquer coisa que viesse a mente. Eu estava um pouco nervosa porque sabia que a qualquer momento pararíamos de conversar, e conversar com ele era a única coisa que eu podia fazer sem culpa nenhuma, embora a culpa fosse a última coisa que me passava pela cabeça quando ele me beijava e me tocava. Fiquei perdida nos meus pensamentos e não pude continuar a conversa, concordei com a última coisa que ele disse, seja lá o que fosse, e ele parou de falar, virei o rosto pra olhar pra ele. Ele me olhava e sorria. Era especialmente estranha a forma como ele me olhava algumas vezes, era o momento em que eu mais me sentia desconfortável com ele, então impulsivamente eu sempre fazia ou falava algo pra quebrar aquele clima o mais rápido possível. Dessa vez, contudo, não fiz nada, e eu soube que ele entendeu o recado quando se aproximou de mim e me beijou. Senti a ponta de sua língua tocar meu lábio pedindo permissão pra aprofundar o beijo, eu dei, cedendo ao segundo vicio da noite.

Eu poderia contar nos dedos de uma mão quantas vezes nos beijamos calmamente. Quando nossas línguas se tocavam davam espaço pra um desespero que eu não sabia que existia, quando suas mãos tocavam meu corpo davam espaço pra um desejo tão forte que eu não sabia que existia. A posição em que nos encontrávamos no carro começou a dificultar as coisas, então ele pediu pra que passássemos pro banco de trás e eu prontamente neguei, assim como eu negava tudo que estivesse ao meu alcance negar pra ele. Não que isso funcionasse, é claro, ele insistia em transformar todos os meus nãos em sins, principalmente aqueles em que ele sabia que na verdade eu queria dizer sim. O que ele não entendia é que eu, realmente, não queria, mas não conseguia fazer meu corpo e minha mente entrarem em consenso. E nessa batalha infernal meu desejo sempre tinha a ultima palavra. Ele se inclinou novamente pra continuar me beijando, e descendo os seus lábios até o meu ouvido, sussurrou:

- Deixa eu tirar o teu sossego.  – “Mas se é sossego que eu quero” foi a primeira coisa que me veio a mente, contudo preferi não responder. Era incrível como ele era o oposto de tudo que eu queria, de tudo que eu achava certo, era a personificação do pecado, e ainda sim meu corpo correspondia ao dele de uma forma surreal. O desejo cru, sem a presença de sentimento, era ainda mais nocivo e viciante. Pensei.
- Eu te odeio. – Eu disse, e então o afastei um pouco e passei para o banco de trás, ouvindo sua risada enquanto ele repetia meu gesto. Ele imediatamente voltou a me beijar e começou a tentar tirar minha blusa, por força do habito voltei a negar.  Às vezes nem eu sabia porquê dizia tanto não. Ele continuou tentando, e comecei a me debater desesperada empurrando suas mãos, então o filho da puta começou a rir de mim!
- Calma, calma. –Ele dizia rindo, comecei a rir também, imaginando o quão patético era quando eu fazia essas coisas.
- Quando eu digo não, você tem que parar. – Falei esperando que ele aceitasse. Doce ilusão. Ele forçou uma carinha de triste e disse baixinho:
- Po, só quero sentir teu corpo no meu. – Eu tinha que admitir, o cara era bom de lábia. Achei engraçado porque ele usou o único argumento que me convenceria. Ele sabia ser fofo quando queria, embora eu sempre interpretasse sua gentileza como cinismo. Por fim, tirei a blusa, afinal, era o que eu queria também, decidi que não adiantaria ficar negando as coisas a ele se isso significasse negar as coisas pra mim. Se no final eu ia terminar me sentindo culpada, eu ia pelo menos estar satisfeita. Às vezes eu conseguia ser bem egoísta. Joguei a blusa em algum canto do carro e puxei-o pra cima de mim, voltando a beija-lo imediatamente, sabia que se eu tivesse um tempo pra pensar acabaria desistindo. E mais uma vez, meu corpo venceu aquela batalha.

No caminho de volta, ficamos em silencio, tive vontade de acender outro cigarro, mas decidi que já tinha cedido a muitos vícios em uma noite. Ele me deixou na porta de casa, nos despedimos com um abraço e quando vi o carro virar a esquina, fui tomada pela culpa novamente. Céus, eu estava perdida, sufocando no egoísmo das minhas próprias vontades, sabia que havia uma terceira pessoa envolvida nisso, eu não queria machucar ninguém, eu não queria machucar ele. Prometi pra mim mesma que essa teria sido a última vez, mas quando botei as mãos no rosto, senti o cheiro dele e eu soube que essa era uma promessa que eu não conseguiria cumprir.

Droga, tenho que perguntar o nome daquela música. 

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