terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Baby came home.


Ontem tu me chegou com aquele papo estranho sobre demoras e esperas, e eu sei que tu fala dessas coisas pra tentar acalmar meus ânimos quando tu sabe que eu tô a beira de mais um surto qualquer. Tu fica mais carinhoso e diz todas aquelas coisas que tu sempre me diz, só que com mais desespero, com mais urgência, com medo do meu medo. Tua calmaria vira pó e evapora quando a minha agonia se torna apalpável. E as palavras sempre seguras que tu solta como se fossem poesia pro meu ouvido cansado de esperar ouvir teus passos em frente a porta se transformam em um amontoado de sussurros medrosos e inseguros querendo dizer mil coisas mas que só dizem: fica, fica, fica, por favor, fica.

Eu jogo tua roupa pela janela e te ponho porta a fora mas tu sabe que eu te espero. Eu grito pra toda a vizinhança escutar que tu é o canalha do século mas tu sabe que eu te espero. Eu choro descabelada sentada no chão da cozinha mas tu sabe que eu te espero. 
Eu roubo teus cigarros mas tu sabe que eu te espero. 
Eu roubo teu sossego mas tu sabe que eu te espero. 
Eu juro que foi a ultima vez mas tu sabe que eu te espero. Eu juro que não vou te esperar mas tu sabe que eu te espero. 
Tu sabe que eu te espero. 
Tu sabe. 
Eu espero.

De manha cedo tu levanta da cama com cuidado pra não me acordar, e eu sei que tu faz isso pra me poupar de te ver saindo mais uma vez. Tu adianta os nossos passos pra cuidar de mim, mas eu só queria não precisar ter tanto cuidado assim. A fragilidade da nossa relação me cansa, e mesmo assim eu não vou embora, então eu fecho os olhos e finjo dormir porque sei que se eu ver tu me deixando mais uma vez, talvez eu nunca mais abra a porta.  
Mas eu abro. 
Porque tu sempre volta.

Outro dia saindo da minha casa tu me contou que encontrou um velhinho na rua, que sentou do lado dele e bateu um papo de 5 minutos, tu falou que tava com medo porque tu quer me dar o mundo mas não consegue me dar a única coisa que eu quero, e acha que eu não vou te esperar pra sempre. Então tu me disse que o velhinho perguntou se você e eu éramos amor verdadeiro, e você disse que sim, que com certeza sim. E ele te respondeu com mais segurança do nosso amor do que eu e você: -Se é amor verdadeiro, ela vai esperar.  
Eu quis te bater, gritar, chorar e dizer que isso tudo é golpe muito baixo, que eu já esperei demais, que eu já não aguento mais, mas...mas...mas...mas...
tu 
sabe 
que 
eu 
te 
espero.

Dessa vez eu não quero mentir, levanto da cama e te ajudo a achar tuas roupas espalhadas pelo quarto, não trocamos nenhuma palavra, eu te acompanho até a porta e abro, tu se inclina pra me beijar e o pensamento de saber pra onde tu vai esmaga meu coração até eu achar que ele vai virar pedra. Vai voltar pra tua família, abraçar teus filhos e beijar tua mulher. Talvez tão tua quanto eu. Talvez mais tua do que eu. Te beijo, com medo. Tu sorri, com medo.
- Eu amo você, pequena. - Tu diz, com medo.
- Tu vai me esquecer assim que eu fechar a porta. - Faço drama, com medo.
- Impossível. Estou cheirando a você até a alma. 

Te vejo se afastando e penso em dizer algo como "não demora pra voltar pra casa, amor", até me dar conta de que você já tá indo pra tua casa. Quem não tá em casa sou eu.

Fecho a porta, com medo.
Te espero, com medo.
Te amo, sem medo.

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