Ontem tu me chegou com aquele papo
estranho sobre demoras e esperas, e eu sei que tu fala dessas coisas pra
tentar acalmar meus ânimos quando tu sabe que eu tô a beira de mais um surto qualquer. Tu fica mais carinhoso e diz todas aquelas coisas que tu sempre
me diz, só que com mais desespero, com mais urgência, com medo do meu medo. Tua
calmaria vira pó e evapora quando a minha agonia se torna apalpável.
E as palavras sempre seguras que tu solta como se fossem poesia pro meu
ouvido cansado de esperar ouvir teus passos em frente a porta se
transformam em um amontoado de sussurros medrosos e inseguros querendo
dizer mil coisas mas que só dizem: fica, fica, fica, por favor, fica.
Eu jogo tua roupa pela janela e te ponho
porta a fora mas tu sabe que eu te espero. Eu grito pra toda a
vizinhança escutar que tu é o canalha do século mas tu sabe que eu te espero.
Eu choro descabelada sentada no chão da cozinha mas tu sabe que eu te espero.
Eu roubo teus cigarros mas tu sabe que eu te espero.
Eu roubo teu sossego mas
tu sabe que eu te espero.
Eu juro que foi a ultima vez mas tu
sabe que eu te espero. Eu juro que não vou te esperar mas tu sabe que eu te
espero.
Tu sabe que eu te espero.
Tu sabe.
Eu espero.
De manha cedo tu levanta da cama com
cuidado pra não me acordar, e eu sei que tu faz isso pra me poupar de te
ver saindo mais uma vez. Tu adianta os nossos passos pra cuidar de mim,
mas eu só queria não precisar ter tanto cuidado assim. A fragilidade da
nossa relação me cansa, e mesmo assim eu não vou embora, então eu fecho os olhos e finjo
dormir porque sei que se eu ver tu me deixando mais uma vez, talvez eu nunca
mais abra a porta.
Mas eu abro.
Porque tu sempre volta.
Outro dia saindo da minha casa tu me contou que encontrou um velhinho na rua, que sentou do lado dele e bateu um papo de 5
minutos, tu falou que tava com medo porque tu quer me dar o mundo mas não
consegue me dar a única coisa que eu quero, e acha que eu não vou te
esperar pra sempre. Então tu me disse que o velhinho perguntou se você e eu éramos amor
verdadeiro, e você disse que sim, que com certeza sim. E ele te respondeu com
mais segurança do nosso amor do que eu e você: -Se é amor verdadeiro,
ela vai esperar.
Eu quis te bater, gritar, chorar e dizer
que isso tudo é golpe muito baixo, que eu já esperei demais, que eu já não
aguento mais, mas...mas...mas...mas...
tu
sabe
que
eu
te
espero.
Dessa vez eu não quero mentir, levanto da
cama e te ajudo a achar tuas roupas espalhadas pelo quarto, não trocamos
nenhuma palavra, eu te acompanho até a porta e abro, tu se inclina pra me
beijar e o pensamento de saber pra onde tu vai esmaga meu coração até eu achar
que ele vai virar pedra. Vai voltar pra tua família, abraçar teus filhos e
beijar tua mulher. Talvez tão tua quanto eu. Talvez mais tua do que eu. Te
beijo, com medo. Tu sorri, com medo.
- Eu amo você, pequena. - Tu diz, com
medo.
- Tu vai me esquecer assim que eu
fechar a porta. - Faço drama, com medo.
- Impossível. Estou cheirando a
você até a alma.
Te vejo se afastando e penso em
dizer algo como "não demora pra voltar pra
casa, amor", até me dar conta de que você já tá indo pra tua
casa. Quem não tá em casa sou eu.
Fecho a porta, com medo.
Te espero, com medo.
Te amo, sem medo.

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