terça-feira, 24 de março de 2015

Afraid.


Parte 2:



Being me can only mean
Feeling scared to breathe
And if you leave me then I'll be afraid of everything
That makes me anxious, gives me patience, calms me down
Lets me face this, let me sleep, and when I wake up
Let me breathe
When I wake up I'm afraid
Somebody else might take my place

Apesar do muito esforço pra me mostrar indiferente, eu estava adorando ter Harry passeando apenas de samba canção pelo meu apartamento, completamente confortável, como se estivesse em casa. A noite estava sendo agradabilíssima, não havíamos feito nada extraordinário durante o dia, apenas coisas normais do cotidiano de qualquer casal, exceto que não éramos um.  Entretanto, hoje eu poderia fingir que sim, e eu iria fazer isso.
Ou pelo menos pretendia, mas o destino tinha outros planos...
Nesse momento eu me encontrava deitada na cama, vestindo somente a camisa dele, que cobria o suficiente para eu não precisar vestir nenhuma calcinha. Ele estava em pé, de costas para mim, falando sobre alguma coisa que eu tinha parado de prestar atenção, pois havia me perdido na dificílima tarefa de observa-lo mexendo em minhas coisas, me questionando se aquela curiosidade toda significava algo.
- Você se importa? - Ele perguntou, apontando em minha direção um álbum de fotografias que eu tinha guardado junto com alguns livros.
- Não, pode ver. – Respondi sorrindo, e ele voltou a deitar do meu lado na cama, abrindo meu álbum de fotos, um dos poucos que eu tinha. Quando mudei de país, tentei trazer o mínimo de coisas possíveis, para não continuar muito apegada, pois mesmo sendo algo que sempre sonhei, a mudança foi muito difícil para mim.
- É sua família? - Perguntou Harry assim que abriu o álbum e se deparou com uma foto da minha família.
- Sim, esses são meus pais e meu irmão. - Ele continuou passando as fotos e fazendo perguntas sobre quem eram as pessoas nas fotografias, onde e quando foram tiradas e eu respondi todas elas, atenta em tudo que ele comentava a respeito, até que em determinado momento não me contive e soltei uma gargalhada, pra ele pareceu que eu estava achando algo engraçado, mas a verdade é que eu só estava nervosa com a curiosidade repentina dele sobre a minha vida, sonhando para que aquilo significasse algo bom.
- O que foi? Eu to sendo chato, né? - Ele perguntou meio envergonhado e eu logo tratei de desmenti-lo.
- Não, claro que não. Eu só to achando engraçado essa tua curiosidade, de onde surgiu isso? - Perguntei sorrindo, tentando arrancar algo dele.
- Sei lá. – Harry desviou os olhos dos meus, voltando sua atenção para o álbum de fotos. Agora era ele quem parecia estar nervoso.  – Só fiquei curioso.
- Muito curioso né, revirou meu quarto inteiro. – Continuei brincando com ele, adorava quando ele ficava sem jeito, acontecia raras vezes, mas quando eu descobria algo que o deixava dessa maneira, eu era incisiva e forçava uma piada ou uma brincadeira, com a esperança de que ele falasse algo ou fizesse algo que diria mais do que o pouco ou quase nada que ele me dizia. Não sabia dizer qual de nos dois era mais retraído na presença um do outro, mas acreditava que, pelo menos eu, conseguia disfarçar melhor os meus desconfortos.
- E você é muito chata. – Ele respondeu rindo, fechando meu álbum e colocando-o do seu lado enquanto me deitava na cama e subia em cima de mim, começando o ataque de cocegas que eu odiava. Ele sempre fazia isso quando eu insistia em alguma brincadeira que deixava ele sem jeito.
- Ah, não, por favor, por favor, não faz. – Em meio a gargalhadas, comecei a implorar para que ele parasse, mas Harry continuou até que minutos depois meu celular começou a tocar.
-  Salva pelo gongo. – Ele disse, me soltando e me ajudando a procurar o celular pela cama.
- Deve ser a Karina. – Falei enquanto levantava da cama, puxando os travesseiros e o cobertor, que revelaram o celular logo ao lado de Harry. Joguei de volta as coisas na cama enquanto ele pegava o celular e olhava a tela. Seu semblante antes sorridente fechou, e então ele esticou o braço pra me entregar o celular.
- Não é a Karina. – Foi tudo que ele disse. Peguei o celular de sua mão me sentindo ansiosa e olhei a tela. Era Josh, um cara com quem havia saído algumas vezes durante esses dois meses em que Harry esteve viajando.
O telefone continuou tocando em minha mão e eu tive pouquíssimos segundos pra pensar no que eu faria, se desligaria para evitar qualquer situação desconfortável, ou atenderia e agiria normalmente. Claro que escolhi a segunda opção, mesmo não aparentando ser a melhor delas, mas eu queria ver a reação de Harry. Com o coração acelerado, atendi o telefone e tentei me manter o mais descontraída possível.
- Oi, Josh. Tudo bem sim. E contigo? - Comecei a andar pelo quarto, evitando olhar pra Harry, mas sentindo que os olhos me acompanhavam atentamente. Percebendo o incomodo dele, comecei a forçar um entusiasmo com a ligação de Josh. – Poxa, hoje não vou poder mesmo, tô bem ocupada, mas a gente pode marcar outro dia sim. Tá certo, isso, é só ligar. Ok, boa noite, beijão. – E então desliguei o telefone, não prolonguei a conversa para não abusar, mas sabia que tinha atingido Harry como eu queria. Botei o telefone na cabeceira e me virei pra ele, que me olhava sério. Estremeci quando ouvi a voz dele:
- Aparentemente perdi algumas coisas enquanto estava viajando. Esse Josh é teu namorado? - Em qualquer outro momento, Harry teria ignorado o acontecimento e agido como se fosse algo completamente irrelevante, mas aparentemente essa viagem tinha mudado algo nele e eu notei isso desde o momento em que ele entrou cruzou a porta do meu apartamento, e por isto resolvi abusar da sorte. Contudo, talvez eu tenha passado um pouquinho dos limites.
- Não, você sabe que eu não namoro. – Respondi me sentindo muito nervosa, mas tentando não transparecer isso. Meu coração parecia que ia sair pela boca a qualquer momento. Eu também poderia ter fingido casualidade e mudado logo de assunto, mas como ele me pareceu bem mais incomodado do que eu esperava, continuei para ver até onde ele iria.
- Bom, ele com certeza não é só seu amigo, o nome dele foi salvo no seu telefone com um coração e pra ele estar ligando essa hora... – Eu logo entendi o que ele estava sugerindo. Embora permanecesse imóvel na cama, ele me olhava sério, seu rosto não demonstrava nenhuma emoção, então eu não sabia muito bem o que pensar da reação dele, mas o ambiente estava com uma atmosfera tão pesada, que eu sabia que havia cruzado uma linha sem volta.
- Ele salvou o nome dele. – E isso foi tudo que eu consegui dizer. Ele fez uma careta e eu entendi que essa não era a resposta que ele queria.
- Não precisa mentir, só quero saber se ele é teu namorado? - Me senti extremamente ofendida com a acusação dele sobre eu estar mentido, e pior, sobre o tipo de pessoa que ele achava que eu era.
- Não, Harry, ele não é meu namorado. Se ele fosse, eu não estaria aqui com você. – Respondi sem me preocupar em ser grosseira,  o que fez com ele fizesse exatamente a mesma coisa. Ele não aumentou o tom de voz como eu havia feito, mas pude sentir todo seu sarcasmo no que ele disse em seguida:
-Então vocês tão só fodendo? - Meu queixo caiu até o chão, eu não conseguia acreditar no que havia acabado de escutar, e pela expressão no rosto dele, ele também estava surpreso com o que disse, mas antes que ele se arrependesse, fui tomada pela raiva e, com o intuito de ofendê-lo da mesma forma, respondi:
- Sim, nós estamos só fodendo. Igual eu e você estamos só fodendo, a diferença é que ele não é casado. – Virei de costas pra ele e saí do quarto, torcendo pra que ele não me seguisse. Eu estava com raiva, mas abandonei o quarto porque não sabia como seria capaz de continuar aquela conversa. Se eu for realmente honesta, diria que me senti um pouco vitoriosa sim, de finalmente ter feito ele perder aquele auto controle maldito que beirava a indiferença e ter demonstrado que se importa. Mas ele falou comigo de forma tão baixa, que pela primeira vez desde que tínhamos começado aquilo tudo, eu realmente me senti como a outra.  E uma outra bem vagabunda pra ele se sentir no direito de falar comigo daquela forma. Não sei se eu havia ganhado mais do que perdido ao induzir essa briguinha.
Fui em direção a varanda e sentei em uma cadeira, amaldiçoando os quatro cantos da terra pelo frio horrível que estava fazendo essa noite e eu estava vestindo somente a blusa do imbecil. Eu sei que eu comecei aquilo, poderia ter evitado a situação, mas eu estava cansada, cansada de tentar adivinhar o que ele pensava, de tentar interpretar tudo que ele dizia, de procurar nas entrelinhas o que eu significava pra ele, e principalmente, cansada de ter que sofrer sozinha. Não que eu quisesse que ele sofresse, mas eu achava extremamente injusto toda a situação onde pra mim tudo era muito desconfortável e confuso, enquanto ele parecia estar sempre vivendo as mil maravilhas tendo o casamento perfeito em casa e a vagabunda pra ele se divertir quando estivesse entediado.  Tudo era muito difícil porque a natureza do nosso relacionamento - se é que eu poderia chamar esse caso de relacionamento - era complicada, e o fato de ele ser tão fechado fazia com que eu me fechasse também e isso levava as coisas a um grau de dificuldade que chegava a ser desgastante.
Fiquei na varanda por um tempo tentando me acalmar, e pensando nas coisas que eu queria dizer a ele, sabia que tinha que voltar pro quarto logo, ou ele viria atrás de mim, e com certeza, essa não era uma conversa que eu queria ter nesse frio desgraçado. Depois de alguns minutos, já me sentindo mais calma, voltei pra dentro de casa e fui em direção ao meu quarto, abri a porta e me surpreendi ao vê-lo vazio, saí e fui até os outros cômodos da casa, procurando Harry. Fui ate a sala e vi que as malas que ele havia trazido com ele não estavam mais lá.  
-Filho da puta! –Gritei enquanto era tomada pela raiva novamente. Aquilo era pior do que nossa briguinha ridícula, eu não acredito que ele simplesmente foi embora. Antes de tudo ele quem estava errado, claro que eu não precisava ter provocado ele com a ligação de Josh, mas de qualquer maneira, não é como se ele pudesse exigir algo de mim, ele mesmo atendeu ligação da mulher dele na minha frente varias vezes, nós não tínhamos nenhum compromisso, nunca nem tínhamos tocado nesse assunto, e na primeira vez que algo do gênero acontece, ele simplesmente vai embora? Eu queria conversar, resolver algumas coisas, finalmente falar sobre a gente ao invés de fingir que está tudo normal e maravilhoso, enquanto ele nem se importou com nada disso, e simplesmente foi embora. Me senti extremamente patética ao me dar conta de toda a expectativa que eu botava nisso e ver que para ele as coisas eram bem irrelevantes. Eu havia mesmo usado a palavra “relacionamento”Isso era só um caso, e eu era uma idiota em achar que era algo além disso.
A tristeza tomou o lugar da raiva e eu voltei pro meu quarto, pronta pra deitar na minha cama, e chorar até dormi. Pensei em ligar pra Karina, mas não queria estragar a noite dela, que com certeza estava melhor que a minha. Fiquei deitada na cama, imóvel, olhando pro teto e tentando parar os milhões de pensamentos da minha cabeça, quando senti que ia começar a chorar, ouvi barulho da porta abrindo e fechando, sentei na cama e esperei Harry entrar no quarto. A maçaneta da porta rodou e fui surpreendida pela imagem de Karina chorando.
- Eu odeio ela. – Não precisei que ela me dissesse nada, além disso, pra saber de quem ela estava falando e o que havia acontecido: - Eu odeio ela. Eu odeio ele. Eu odeio os dois.
- Poxa, amiga, tenta se acalmar, me conta o que aconteceu.  – Karina fechou a porta do quarto e caminhou até a cama, sentando do meu lado enquanto tentava engolir o choro e começava a explicar o que houve. – Não aconteceu nada, amiga. Primeiro eu cheguei na casa dele e tava me sentindo muito feliz de estar ali, de ele ter tomado a decisão de me levar ali, e vou te confessar que me bateu um sentimento de vitória, do tipo “toma Giovanna, eu to na tua casa e ele que me trouxe”, mas quando cheguei lá, comecei a me sentir estranha, desconfortável, tem fotos dele com ela e o filho por todo lugar, eu sei que ele notou como eu fiquei porque ele começou a tentar me distrair, eu vi que ele ficou nervoso e pra evitar que a gente brigasse, a gente começou a se pegar...
- Claro, porque isso sempre da certo né, Karina – Interrompi, com ironia, tentando descontrair, e ela riu levemente.
- Até que deu, mas depois ele dormiu, ah, esqueci de falar, a gente transou no sofá, não tive coragem de entrar no quarto deles e ele também não me pareceu confortável com a ideia... Enfim, depois que ele dormiu, comecei a andar pela casa, olhei tudo, fui em todos os cômodos e de repente não me senti na casa dele como eu achei que sentiria, eu me senti na casa dela, ou melhor, na casa deles, literalmente... E sabe, isso é algo que eu e ele não temos, algo que eu e ele talvez nunca teremos...
-Não fala assim, amiga, vocês estão juntos agora e a gente nunca sabe do futuro... – Eu disse tentando consolar Karina, embora acreditasse fielmente num final feliz.
Conheci Tom na clinica onde trabalhava, ele foi meu paciente por um período de 6 meses, cerca de dois meses depois do inicio da terapia, ele conheceu Karina, então eu acompanhei o inicio do que foi um conflito imenso para ele. quando ele e Karina finalmente ficaram juntos, eu tive de encerrar a terapia devido os conflitos éticos que aquilo causava, sem mencionar que acabamos nos tornando muito amigos também, então para o bem da terapia dele, recomendei-o a outro psicólogo.

Flashback on

Eu tinha que acordar todos os dias as exatas cinco horas da manha, pois precisava de pelo menos uma hora pra me arrumar e tomar meu café da manha, assim pegaria o metro as seis horas e ele levaria cerca de 30 minutos pra me deixar em Londres, onde eu faria uma caminhada de 15 minutos até a clinica onde eu trabalhava, chegando lá pouco antes das sete, o horário que ela abriria.
Consegui esse emprego como um estagio na faculdade Imperial College London onde eu estava fazendo minha pós-graduação em Psicologia Clinica. Foram oferecidas duas vagas a minha faculdade onde eu me saí muito bem na prova de seleção e fui chamada para trabalhar no Hospital de St. Mary. Embora fosse um estagio, pagava muito bem e eu tinha esperanças de que futuramente pudesse ser contratada como funcionaria, pois modéstia a parte, eu estava me saindo muito bem até o momento, tão bem que eu - que sempre havia chegado atrasada nos lugares - era uma das primeiras a chegar. E digo uma das primeiras porque havia sempre um paciente que chegava praticamente na mesma hora que eu. Ele devia sofrer de ansiedade, no mínimo.
- Bom dia, Doutora – Ele disse assim que me aproximei da entrada do hospital, que estava fechado, pois o funcionário responsável por abri-la ainda não havia chegado.
- Bom dia. – Respondi saudosa, me sentindo emocionada por ele ter me chamado de doutora. Confesso que eu usava o jaleco por puro status, não precisava chegar com ele no hospital, mas assim eu me sentia mais importante. – E ah, fora do hospital eu sou só Amanda.
- Muito prazer, Amanda. Eu me chamo Thomas Fletcher, mas pode me chamar de Tom. – Ele estendeu a mão para me cumprimentar. Ah, como se eu não soubesse quem ele era, mas fingi casualidade, como se ele fosse um desconhecido.
- Muito prazer, Tom. Você esta um pouco adiantado, não? – Perguntei no que eu considerava ser um tom educado.
- Estou, mas é porque tive um compromisso mais cedo e decidi vir direto pra cá, para não correr o risco de atrasar. Melhor estar adiantado que atrasado, não?
- Nenhum dos dois, o melhor mesmo é estar na hora certinha. Tempo é tudo, Tom.  – Eu falei olhando diretamente pro seu rosto. Meses depois ele me contou que foi devido esta minha resposta que ele pediu a direção do hospital, sobre o pretexto de uma ótima indicação de seu antigo psicólogo, para ser meu paciente. Tom abriu um sorriso largo em resposta ao que eu havia acabado de dizer, e em seguida perguntou:
- Eu te conheço? Tenho a impressão de que nos conhecemos. – Nesse momento eu quis rir, e lhe dar alguma resposta enigmática, mas decidi manter a casualidade:
- Isso é bem improvável, eu me mudei para Inglaterra há apenas alguns meses, e na verdade moro em Chichester.
-  E você vem a Londres todos os dias? - Ele me perguntou, parecendo surpreso.
- Sim, trabalho aqui pela parte da manha e faço pós-graduação no Imperial College London a tarde, a noite volto para Chichester.
- Deve ser cansativo essa viagem de ida e volta todos os dias.  
- Um pouco, mas a verdade é que gosto bastante de morar em lá , e trabalhar e estudar aqui em Londres também, então não me importo muito. – Nesse momento Tom forçava as sobrancelhas, me olhando de uma forma bem estranha.
- Tem certeza que não nos conhecemos? - Ele insistiu na pergunta de um milhão de dólares.
- Eu realmente acho improvável, mas quem sabe... – Dessa vez tive de rir, e antes que continuássemos a conversa, fomos interrompidos pelo funcionário que chegou com as chaves do hospital.
- Bom, foi um prazer conhecer você, Tom. Quem sabe não nos esbarramos pelos corredores. – Eu disse estendendo a mão, a qual ele apertou, ainda parecendo um pouco desconfiado.
- Também foi um prazer, Amanda. Bom trabalho. - Ele segurou minha mão e sorriu educadamente, entramos no hospital e tomamos caminhos diferentes. Pensei imediatamente em enviar uma mensagem para Karina, mas preferi contar a novidade pessoalmente, queria muito ver a cara dela.

Flashback off

         - Tu ta prestando atenção, mana? - Karina me deu uma sacudida e só então percebi que ela continuava falando enquanto eu me perdi em lembranças.
- Desculpa amiga, me perdi, mas porque tava lembrando de como o Tom tava quando te conheceu, e eu te digo: eu acompanhei isso melhor do que ninguém, porque como terapeuta dele, eu sabia de coisas sobre ele  que ele não admitia pra si mesmo, e te digo: ele ama você, mais do que isso, ele é completamente louco por você. Literalmente louco. – Falei olhando bem nos olhos dela.
- Eu sei disso, amiga. Eu sei que ele me ama. O problema é que ele ama ela também. E eu sei que isso é muito egoísta de se dizer, mas eu sou assim e pronto, e eu sei que tu me entende.
- Sim, amiga, entendo você e entendo seu egoísmo, ele é mais do que natural. Ninguém quer dividir um lugar no coração de alguém com outra pessoa. – Ela estava certa, eu a entendia, entendia o que sentia, entendia o problema, e entendia, principalmente, que não havia muito o que se fazer naquela situação. – Mas amiga... –Resolvi continuar e dizer o que ela não iria querer ouvir, mas precisava ser dito: - Isso é algo que não ha nada que se possa fazer, além de evitar essas situações onde tu só vai se sentir mal por algo que não é nenhuma novidade. Tu já sabia que seria assim quando tu quis ficar com ele...
- Sabia, o que não significa que seja fácil. – Ela me interrompeu.
            - Mas que também não significa que você tenha que dificultar. – Ela fez menção de dizer algo, mas desistiu, sabia que eu estava certa. Então resolvi continuar falando, antes que sua teimosia tomasse o controle: - Tu saiu de lá no meio da noite, agora vai ter que explicar pra ele o motivo disso. Sugiro que vocês tenham uma conversa real e imponham certos limites, ou melhor, que tu bote certos limites pra ti e não se sujeite a situações que tu sabe que não vão te trazer nada de bom.  Eu sei que tu ama o Tom e que é difícil, mas em certos momentos, a gente tem que ser racional. Tu tens que impor tua vontade e fazer o que é melhor pra ti.
- Falou aquela que deixa o Harry decidir tudo, não reclama de nada e finge que esta tudo indo muito bem... – Disse Karina, contrariada, e eu sabia que esse era o jeito dela de confirmar que eu estava certa no que havia falado, mas sem me deixar esquecer que eu cometia os mesmos erros que ela. Ridícula.
- Ei fera, estamos falando de você, não joga pesado assim não.  – Falei rindo, e ela riu também, para em seguida tocar no assunto que eu estava pensando a noite inteira.
- Mas sim, o que aconteceu com vocês? Encontrei com ele na saída do prédio, carregando as malas com uma cara de puto.
- Mentiraaaaa!!! O que ele falou? - Perguntei agoniada pra saber o que ele disse. Harry e Karina eram muito amigos, e embora ele fosse muito fechado em dizer qualquer coisa relacionada a mim, eu sabia que ele pelo menos comentaria algo.  
- Mana, a gente se esbarrou porque ele saiu apressado e puto, e eu tava chegando apressada e chorando, aí perguntei dele o que aconteceu e porque ele tava indo embora daquele jeito, aí ele só disse “a gente brigou. E tu? Porque ta chorando?” mas aí eu nem respondi, só perguntei se ele tinha se despedido de ti né, porque eu sei que se ele tivesse saindo escondido a treta ia ser muito maior. Aí ele disse que não, que “só saí”, aí eu imaginei como tu ia ficar puta quando visse que ele foi embora e como eu já estava com ranso do Tom, descontei nele e falei “vocês são todos uns filhos da puta”. – Eu caí na gargalhando imaginando a cena, que deve ter sido tensa porém extremamente engraçada. Karina riu junto, confirmando minha suspeita.
- Ele deve ter ficado muito confuso. – Falei, ainda rindo.
- Mana, ficou mesmo, fez uma cara de idiota. Eu virei e fui embora. Mas sim, quero saber o motivo da briga porque ele tava putasso, nunca tinha visto o Harry assim. Inclusive, primeira briga de vocês, ai amiga, quase fico emocionada, parabéns, vocês são oficialmente um casal, real. – Nós rimos juntas e eu comecei a contar o desenrolar da nossa mini briga, interrompida pela fuga de Harry no meio da noite.
Nós ficamos conversando por um bom tempo, depois resolvemos assistir um filme de comedia brasileiro, denunciando nossa saudade de casa, muito compreensível depois daquela noite trágica para nós duas. Karina acabou adormecendo no inicio do filme, e como eu haveria de trabalhar daqui há 3 horas, resolvi tentar dormir um pouco também. Não acordei Karina para manda-la pro seu quarto porque sabia que essa noite ela não ia querer dormir sozinha, e honestamente, eu também não. Quando apaguei as luzes e deitei na cama, peguei o celular para ativar o alarme e confirmar o que eu já esperava: nenhuma ligação de Harry. Senti saudades de casa e soltei um risinho sarcástico, lembrando de como eu achava as coisas complicadas na época, sem saber que agora elas tomariam proporções drásticas.

Agora a situação exigia muito mais do que somente paciência. 



quarta-feira, 4 de março de 2015

Move, baby, I'm in love.


Parte 1:      



Com um pouco de paciência e treino, não havia nada que eu não pudesse fazer, exceto cozinhar. Na cozinha eu era um desastre, poderia até conseguir fazer algo saboroso, mas eu sempre terminava com o saldo de alguns dedos queimados, louças quebradas, e quando a sorte não estava do meu lado, disparava o alarme de incêndio do prédio.
Eu dividia um apartamento em Chichester, no sudeste da Inglaterra, com a minha melhor amiga, ela havia se mudado há três anos, e me juntei a ela há exatamente dois anos. Apesar de termos escolhido esta cidade pelo baixo custo de vida, o local era muito bom, na verdade qualquer lugar na Inglaterra era bom demais se comparados a nossa cidade no Brasil. Sem querer desprezar nossa terra natal, amávamos tudo a respeito do local onde nascemos e a saudade apertava todos os dias, mas os motivos que nos trouxeram a Inglaterra eram muito mais fortes que nosso patriarcalismo. Era muito mais forte que qualquer coisa.
Ouvi o interfone tocar e pedi a todos os deuses que fossem ele, finalmente ele. Diminui o fogo e corri até a porta, apertando o botão e tentando controlar minha ansiedade ao perguntar quem era. Meu coração disparou como sempre fazia quando eu escutava a voz dele:
-Sou eu. –Senti minha perna tremer e imediatamente soltei o cadeado e abri a porta, não tive tempo de vê-lo direito porque quando me dei conta ele já estava abraçado a mim, com o rosto encostado na curva do meu pescoço inspirando meu cheiro compulsivamente. Senti sua boca procurar a minha e nos beijamos de forma desesperada.
-Eu achei que fosse enlouquecer se não te visse logo. - Ele disse, ainda com os lábios nos meus.
-Eu enlouqueci um pouquinho cada dia. – Respondi olhando diretamente nos seus olhos azuis. Parecia exagero, mas era dessa forma que eu me sentia quando não podia vê-lo. Desde o começo nossa historia sempre se tratou de esperas e mais esperas, os dias longe dele eram um verdadeiro teste de sanidade. Às vezes eu me questionava como consegui espera-lo por tanto tempo, como conseguia continuar esperando.
- Não existe a menor possibilidade de você ficar por tanto tempo longe de mim de novo. –Ele continuou falando e começou a descer seus beijos pelo meu pescoço. Antes de começar a perder a concentração, falei:
-Foi você quem viajou. 
-Mas agora eu voltei. E eu preciso de você. – Senti suas mãos subindo por dentro da minha blusa e isso me acordou.
-Calma, eu deixei comida no fogo. – Empurrei-o com dificuldade e fui cambaleando até a cozinha, já me sentindo completamente entorpecida pela presença dele.
-Mas você não cozinha.  – Escutei ele dizer em meio a uma gargalhada enquanto seguia meus passos.
-Agora eu cozinho, estamos no tempo das vacas magras, não podemos gastar dinheiro com fast food o tempo todo. – Falei enquanto desligava o fogo e tapava as panelas. Antes de me virar senti seus braços em volta de mim, ele me abraçou por trás enquanto recomeçava a trilha de beijos pelo meu pescoço. Escutei-o respirar fundo antes de dizer com cuidado:
- Já disse que posso te dar o dinheiro, você sabe que não faz diferença pra mim. E eu quero ajudar. –Ele usou o tom de voz que eu reconhecia como aquele só usado para assuntos delicados. E esse era um deles.
-Eu sei que quer, obrigada, mas não vou deixar você me sustentar. Não quero discutir por isso mais uma vez. – Sem me soltar de seu abraço, me virei esperando encontrar o costumeiro semblante aborrecido que ele fazia quando falávamos sobre isso, contudo fui surpreendida com um beijo.
Agradeci mentalmente por ele não estar nem um pouco disposto a falar sobre aquele assunto desagradável de novo. Seu corpo fez pressão sobre o meu e senti sua língua traçar um caminho da minha boca até meu pescoço, sorri quando ele voltou a me cheirar compulsivamente, gesto que parecia estranho pra qualquer um que nos visse naquele momento, mas que era algo nosso. Se é que eu podia me dar ao privilegio de dizer que tínhamos algo só nosso.
– Caralho, como eu senti falta do teu cheiro.  – Seus beijos subiram do meu pescoço ate minha orelha e soltei um suspiro baixo enquanto ele deu dois passos para o lado, me puxando em direção à mesa e erguendo-me um pouco fez com que eu sentasse sobre ela, imediatamente abri as pernas para que ele se aconchegasse entre elas, e nos beijávamos o tempo todo, na tentativa vã matar toda aquela saudade acumulada. Segundos depois tirei sua blusa porque precisava urgentemente sentir a pele dele em contato com a minha, logo em seguida ele abaixou minha blusa tomara que caia e uma de suas mãos apertou meu seio sem o menor cuidado, enquanto senti sua outra mão deslizando pelo interior da minha coxa e subindo até adentrar minha calcinha. Gemi abafado ao sentir o toque dele, ele gemeu alto em resposta ao meu gemido. Sorri lembrando do quanto adorava o fato do nosso prazer ser sempre mutuo, era igualmente excitante para ambos não só ser tocado um pelo outro, mas tocar também. Nossas esperas eram tantas que o toque era sempre urgente.
Assim que seus dedos me penetraram, soltei um gemido alto e desesperado. Céus, como eu sentia falta dele. Cravei as unhas com força nas costas dele, e encostei minha cabeça em seus ombros, aproveitei a posição para sentir o cheiro dele, inspirei profundamente e me senti tomada por aquela sensação inebriante de reconhecimento do cheiro de alguém, que às vezes funciona como uma droga pra gente. Não podia ser normal gostar tanto do cheiro de alguém assim. Ele conhecia meu corpo melhor do que eu mesma, e sabia exatamente onde me tocar, então não demorou muito pra que eu atingisse meu primeiro orgasmo. Joguei a cabeça pra trás me entregando completamente a sensação que era ter ele dessa forma novamente depois de longos dois meses. Senti o orgasmo tomar conta do meu corpo, mas não pude aproveitar a sensação por muito tempo, pois ele me levantou da mesa e com certa brutalidade virou-me de costas pra ele, me botando de bruços. Meus seios e meu rosto encostaram-se à mesa fria, mas eu não ousei reclamar, entretanto tive que quebrar o silêncio quando o escutei tirando o cinto e abrindo o zíper da sua calça:
- Não, aqui não, a Karina pode chegar.    – Eu disse, inclinando um pouco a cabeça em sua direção.
- Não vai, ela está com o Tom. Não vai aparecer aqui tão cedo. – Quando ele terminou sua frase, sua calça caiu até os joelhos, e ele desceu minha calcinha até o meio da coxa. Esperei por agressividade, mas ele me penetrou lentamente, como se estivesse aproveitando cada segundo daquilo. Eu sei que eu estava. Nossos gemidos preencheram o ambiente durante todo o tempo em que ficamos ali, tentando compensar o tempo em que tivemos que ficar longe.
Eu sentia falta dele, meu Deus, como eu sentia falta dele, mas estava tão acostumada a isso que eu me desesperava e logo em seguida me acalmava. Como se as coisas só funcionassem nessa ordem: eu só conseguia manter a calma depois de perdê-la. É claro que eu tinha o cuidado de nunca enlouquecer enquanto estivesse na presença dele, para ele eu era a pessoa mais centrada do universo, vez em quando soando até fria e distante, nós nos conhecíamos há um ano, mas estávamos juntos somente há sete meses, e a situação era muito complicada. Eu dosava tudo que eu fazia e dizia por que eu não queria ser um peso; e com medo de pesar nos ombros dele, ele acabava pesando nos meus. Com ele as coisas pareciam funcionar de forma bem diferente. Era visível seu conforto em agir naturalmente perto de mim, o que fazia sentido considerando que eu sabia tudo que acontecia na sua vida e ele não precisava esconder nada de mim, ele não precisava mentir pra mim. Ele só precisava mentir sobre mim.
- Vou passar a noite com você, tudo bem? – Ele perguntou enquanto vestia sua calça novamente.
- Ah vai, é? E como você conseguiu esta proeza? – Sorri maliciosa. Eu não gostava desse assunto tanto quanto ele, mas eu disfarçava muito bem, e era divertidíssimo ver como ele ficava desconfortável. 
- Eu e Tom voltamos mais cedo de Sydney, dissemos que tínhamos um compromisso.  – Ele tentou ser breve, mas eu insisti:
- E elas acreditaram? Tom é um péssimo mentiroso! Ele fica tão nervoso que não deve convencer nem o filho. – Eu perguntei rindo enquanto caminhava até o fogão e ligava o fogo para terminar de cozinhar o que eu havia começado.
- Ele ficou, mas eu o ajudei. – O escutei respondendo e virei o rosto em sua direção, pra ver sua expressão ao ouvir o que eu diria:
- É porque você, meu bem, é um mentiroso exemplar. Merecia ganhar um óscar. – Achei que ele fosse ficar ofendido, mas ele gargalhou e respondeu enquanto ia saindo da cozinha em direção ao corredor que levava aos quartos:
- Sim, eu sou. E você pode me premiar mais tarde. – Cínico! Gargalhei junto com ele.
Desliguei o fogão, finalmente terminando meu almoço, e comecei o botar a mesa para duas pessoas, imaginando que ele estaria com fome depois da viagem longa da Austrália até aqui.
- Você quer comer? - Perguntei aumentando o tom de voz, na esperança de que ele ainda me escutasse. Como não obtive resposta, caminhei até meu quarto no qual sabia que ele havia entrado, empurrei um pouco a porta, e o vi dormindo abraçado ao meu travesseiro. A cena foi adorável, não tive como não sorrir. Ele já havia adormecido ao meu lado algumas vezes, mas nunca na minha casa, em minha cama. Ter ele por um dia inteiro, sem me preocupar em vê-lo indo embora apressado algumas horas depois seria memorável, principalmente por ter em mente que isso não aconteceria de novo tão cedo. Não ousei acorda-lo, apaguei a luz e encostei a porta com cuidado, voltando para a cozinha.
Servi minha comida, sentei a mesa e antes de começar a comer, vi meu celular vibrando, olhei a tela e era uma mensagem de Karina: “meu deeeeeeeeus, eu tô na casa dele, socorro amigaaaaa, tô feliz mas tô nervosa, quando voltar pro apê amanha te conto tudo, aproveita com teu boy, beijo, te amo”, respondi a mensagem dela pedindo calma, uma brincadeirinha interna nossa, e disse que também teria muitas coisas pra contar. Seria um dia longo para nós duas, mas também de um avanço gigantesco. Haja paciência pra aguentar o turbilhão de emoção que estaria por vir, haja paciência.