quarta-feira, 4 de março de 2015

Move, baby, I'm in love.


Parte 1:      



Com um pouco de paciência e treino, não havia nada que eu não pudesse fazer, exceto cozinhar. Na cozinha eu era um desastre, poderia até conseguir fazer algo saboroso, mas eu sempre terminava com o saldo de alguns dedos queimados, louças quebradas, e quando a sorte não estava do meu lado, disparava o alarme de incêndio do prédio.
Eu dividia um apartamento em Chichester, no sudeste da Inglaterra, com a minha melhor amiga, ela havia se mudado há três anos, e me juntei a ela há exatamente dois anos. Apesar de termos escolhido esta cidade pelo baixo custo de vida, o local era muito bom, na verdade qualquer lugar na Inglaterra era bom demais se comparados a nossa cidade no Brasil. Sem querer desprezar nossa terra natal, amávamos tudo a respeito do local onde nascemos e a saudade apertava todos os dias, mas os motivos que nos trouxeram a Inglaterra eram muito mais fortes que nosso patriarcalismo. Era muito mais forte que qualquer coisa.
Ouvi o interfone tocar e pedi a todos os deuses que fossem ele, finalmente ele. Diminui o fogo e corri até a porta, apertando o botão e tentando controlar minha ansiedade ao perguntar quem era. Meu coração disparou como sempre fazia quando eu escutava a voz dele:
-Sou eu. –Senti minha perna tremer e imediatamente soltei o cadeado e abri a porta, não tive tempo de vê-lo direito porque quando me dei conta ele já estava abraçado a mim, com o rosto encostado na curva do meu pescoço inspirando meu cheiro compulsivamente. Senti sua boca procurar a minha e nos beijamos de forma desesperada.
-Eu achei que fosse enlouquecer se não te visse logo. - Ele disse, ainda com os lábios nos meus.
-Eu enlouqueci um pouquinho cada dia. – Respondi olhando diretamente nos seus olhos azuis. Parecia exagero, mas era dessa forma que eu me sentia quando não podia vê-lo. Desde o começo nossa historia sempre se tratou de esperas e mais esperas, os dias longe dele eram um verdadeiro teste de sanidade. Às vezes eu me questionava como consegui espera-lo por tanto tempo, como conseguia continuar esperando.
- Não existe a menor possibilidade de você ficar por tanto tempo longe de mim de novo. –Ele continuou falando e começou a descer seus beijos pelo meu pescoço. Antes de começar a perder a concentração, falei:
-Foi você quem viajou. 
-Mas agora eu voltei. E eu preciso de você. – Senti suas mãos subindo por dentro da minha blusa e isso me acordou.
-Calma, eu deixei comida no fogo. – Empurrei-o com dificuldade e fui cambaleando até a cozinha, já me sentindo completamente entorpecida pela presença dele.
-Mas você não cozinha.  – Escutei ele dizer em meio a uma gargalhada enquanto seguia meus passos.
-Agora eu cozinho, estamos no tempo das vacas magras, não podemos gastar dinheiro com fast food o tempo todo. – Falei enquanto desligava o fogo e tapava as panelas. Antes de me virar senti seus braços em volta de mim, ele me abraçou por trás enquanto recomeçava a trilha de beijos pelo meu pescoço. Escutei-o respirar fundo antes de dizer com cuidado:
- Já disse que posso te dar o dinheiro, você sabe que não faz diferença pra mim. E eu quero ajudar. –Ele usou o tom de voz que eu reconhecia como aquele só usado para assuntos delicados. E esse era um deles.
-Eu sei que quer, obrigada, mas não vou deixar você me sustentar. Não quero discutir por isso mais uma vez. – Sem me soltar de seu abraço, me virei esperando encontrar o costumeiro semblante aborrecido que ele fazia quando falávamos sobre isso, contudo fui surpreendida com um beijo.
Agradeci mentalmente por ele não estar nem um pouco disposto a falar sobre aquele assunto desagradável de novo. Seu corpo fez pressão sobre o meu e senti sua língua traçar um caminho da minha boca até meu pescoço, sorri quando ele voltou a me cheirar compulsivamente, gesto que parecia estranho pra qualquer um que nos visse naquele momento, mas que era algo nosso. Se é que eu podia me dar ao privilegio de dizer que tínhamos algo só nosso.
– Caralho, como eu senti falta do teu cheiro.  – Seus beijos subiram do meu pescoço ate minha orelha e soltei um suspiro baixo enquanto ele deu dois passos para o lado, me puxando em direção à mesa e erguendo-me um pouco fez com que eu sentasse sobre ela, imediatamente abri as pernas para que ele se aconchegasse entre elas, e nos beijávamos o tempo todo, na tentativa vã matar toda aquela saudade acumulada. Segundos depois tirei sua blusa porque precisava urgentemente sentir a pele dele em contato com a minha, logo em seguida ele abaixou minha blusa tomara que caia e uma de suas mãos apertou meu seio sem o menor cuidado, enquanto senti sua outra mão deslizando pelo interior da minha coxa e subindo até adentrar minha calcinha. Gemi abafado ao sentir o toque dele, ele gemeu alto em resposta ao meu gemido. Sorri lembrando do quanto adorava o fato do nosso prazer ser sempre mutuo, era igualmente excitante para ambos não só ser tocado um pelo outro, mas tocar também. Nossas esperas eram tantas que o toque era sempre urgente.
Assim que seus dedos me penetraram, soltei um gemido alto e desesperado. Céus, como eu sentia falta dele. Cravei as unhas com força nas costas dele, e encostei minha cabeça em seus ombros, aproveitei a posição para sentir o cheiro dele, inspirei profundamente e me senti tomada por aquela sensação inebriante de reconhecimento do cheiro de alguém, que às vezes funciona como uma droga pra gente. Não podia ser normal gostar tanto do cheiro de alguém assim. Ele conhecia meu corpo melhor do que eu mesma, e sabia exatamente onde me tocar, então não demorou muito pra que eu atingisse meu primeiro orgasmo. Joguei a cabeça pra trás me entregando completamente a sensação que era ter ele dessa forma novamente depois de longos dois meses. Senti o orgasmo tomar conta do meu corpo, mas não pude aproveitar a sensação por muito tempo, pois ele me levantou da mesa e com certa brutalidade virou-me de costas pra ele, me botando de bruços. Meus seios e meu rosto encostaram-se à mesa fria, mas eu não ousei reclamar, entretanto tive que quebrar o silêncio quando o escutei tirando o cinto e abrindo o zíper da sua calça:
- Não, aqui não, a Karina pode chegar.    – Eu disse, inclinando um pouco a cabeça em sua direção.
- Não vai, ela está com o Tom. Não vai aparecer aqui tão cedo. – Quando ele terminou sua frase, sua calça caiu até os joelhos, e ele desceu minha calcinha até o meio da coxa. Esperei por agressividade, mas ele me penetrou lentamente, como se estivesse aproveitando cada segundo daquilo. Eu sei que eu estava. Nossos gemidos preencheram o ambiente durante todo o tempo em que ficamos ali, tentando compensar o tempo em que tivemos que ficar longe.
Eu sentia falta dele, meu Deus, como eu sentia falta dele, mas estava tão acostumada a isso que eu me desesperava e logo em seguida me acalmava. Como se as coisas só funcionassem nessa ordem: eu só conseguia manter a calma depois de perdê-la. É claro que eu tinha o cuidado de nunca enlouquecer enquanto estivesse na presença dele, para ele eu era a pessoa mais centrada do universo, vez em quando soando até fria e distante, nós nos conhecíamos há um ano, mas estávamos juntos somente há sete meses, e a situação era muito complicada. Eu dosava tudo que eu fazia e dizia por que eu não queria ser um peso; e com medo de pesar nos ombros dele, ele acabava pesando nos meus. Com ele as coisas pareciam funcionar de forma bem diferente. Era visível seu conforto em agir naturalmente perto de mim, o que fazia sentido considerando que eu sabia tudo que acontecia na sua vida e ele não precisava esconder nada de mim, ele não precisava mentir pra mim. Ele só precisava mentir sobre mim.
- Vou passar a noite com você, tudo bem? – Ele perguntou enquanto vestia sua calça novamente.
- Ah vai, é? E como você conseguiu esta proeza? – Sorri maliciosa. Eu não gostava desse assunto tanto quanto ele, mas eu disfarçava muito bem, e era divertidíssimo ver como ele ficava desconfortável. 
- Eu e Tom voltamos mais cedo de Sydney, dissemos que tínhamos um compromisso.  – Ele tentou ser breve, mas eu insisti:
- E elas acreditaram? Tom é um péssimo mentiroso! Ele fica tão nervoso que não deve convencer nem o filho. – Eu perguntei rindo enquanto caminhava até o fogão e ligava o fogo para terminar de cozinhar o que eu havia começado.
- Ele ficou, mas eu o ajudei. – O escutei respondendo e virei o rosto em sua direção, pra ver sua expressão ao ouvir o que eu diria:
- É porque você, meu bem, é um mentiroso exemplar. Merecia ganhar um óscar. – Achei que ele fosse ficar ofendido, mas ele gargalhou e respondeu enquanto ia saindo da cozinha em direção ao corredor que levava aos quartos:
- Sim, eu sou. E você pode me premiar mais tarde. – Cínico! Gargalhei junto com ele.
Desliguei o fogão, finalmente terminando meu almoço, e comecei o botar a mesa para duas pessoas, imaginando que ele estaria com fome depois da viagem longa da Austrália até aqui.
- Você quer comer? - Perguntei aumentando o tom de voz, na esperança de que ele ainda me escutasse. Como não obtive resposta, caminhei até meu quarto no qual sabia que ele havia entrado, empurrei um pouco a porta, e o vi dormindo abraçado ao meu travesseiro. A cena foi adorável, não tive como não sorrir. Ele já havia adormecido ao meu lado algumas vezes, mas nunca na minha casa, em minha cama. Ter ele por um dia inteiro, sem me preocupar em vê-lo indo embora apressado algumas horas depois seria memorável, principalmente por ter em mente que isso não aconteceria de novo tão cedo. Não ousei acorda-lo, apaguei a luz e encostei a porta com cuidado, voltando para a cozinha.
Servi minha comida, sentei a mesa e antes de começar a comer, vi meu celular vibrando, olhei a tela e era uma mensagem de Karina: “meu deeeeeeeeus, eu tô na casa dele, socorro amigaaaaa, tô feliz mas tô nervosa, quando voltar pro apê amanha te conto tudo, aproveita com teu boy, beijo, te amo”, respondi a mensagem dela pedindo calma, uma brincadeirinha interna nossa, e disse que também teria muitas coisas pra contar. Seria um dia longo para nós duas, mas também de um avanço gigantesco. Haja paciência pra aguentar o turbilhão de emoção que estaria por vir, haja paciência. 




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