Parte 1:
Com
um pouco de paciência e treino, não havia nada que eu não pudesse fazer, exceto
cozinhar. Na cozinha eu era um desastre, poderia até conseguir fazer algo
saboroso, mas eu sempre terminava com o saldo de alguns dedos queimados, louças
quebradas, e quando a sorte não estava do meu lado, disparava o alarme de
incêndio do prédio.
Eu
dividia um apartamento em Chichester, no sudeste da Inglaterra, com a minha
melhor amiga, ela havia se mudado há três anos, e me juntei a ela há exatamente
dois anos. Apesar de termos escolhido esta cidade pelo baixo custo de vida, o
local era muito bom, na verdade qualquer lugar na Inglaterra era bom demais se
comparados a nossa cidade no Brasil. Sem querer desprezar nossa terra natal,
amávamos tudo a respeito do local onde nascemos e a saudade apertava todos os
dias, mas os motivos que nos trouxeram a Inglaterra eram muito mais fortes que
nosso patriarcalismo. Era muito mais forte que qualquer coisa.
Ouvi
o interfone tocar e pedi a todos os deuses que fossem ele, finalmente ele.
Diminui o fogo e corri até a porta, apertando o botão e tentando controlar
minha ansiedade ao perguntar quem era. Meu coração disparou como sempre fazia
quando eu escutava a voz dele:
-Sou
eu. –Senti minha perna tremer e imediatamente soltei o cadeado e abri a porta,
não tive tempo de vê-lo direito porque quando me dei conta ele já estava
abraçado a mim, com o rosto encostado na curva do meu pescoço inspirando meu
cheiro compulsivamente. Senti sua boca procurar a minha e nos beijamos de forma
desesperada.
-Eu
achei que fosse enlouquecer se não te visse logo. - Ele disse, ainda com os
lábios nos meus.
-Eu
enlouqueci um pouquinho cada dia. – Respondi olhando diretamente nos seus olhos
azuis. Parecia exagero, mas era dessa forma que eu me sentia quando não podia
vê-lo. Desde o começo nossa historia sempre se tratou de esperas e mais esperas,
os dias longe dele eram um verdadeiro teste de sanidade. Às vezes eu me questionava
como consegui espera-lo por tanto tempo, como conseguia continuar esperando.
-
Não existe a menor possibilidade de você ficar por tanto tempo longe de mim de
novo. –Ele continuou falando e começou a descer seus beijos pelo meu pescoço.
Antes de começar a perder a concentração, falei:
-Foi
você quem viajou.
-Mas
agora eu voltei. E eu preciso de você. – Senti suas mãos subindo por dentro da
minha blusa e isso me acordou.
-Calma,
eu deixei comida no fogo. – Empurrei-o com dificuldade e fui cambaleando até a
cozinha, já me sentindo completamente entorpecida pela presença dele.
-Mas
você não cozinha. – Escutei ele dizer em
meio a uma gargalhada enquanto seguia meus passos.
-Agora
eu cozinho, estamos no tempo das vacas magras, não podemos gastar dinheiro com
fast food o tempo todo. – Falei enquanto desligava o fogo e tapava as panelas.
Antes de me virar senti seus braços em volta de mim, ele me abraçou por trás
enquanto recomeçava a trilha de beijos pelo meu pescoço. Escutei-o respirar
fundo antes de dizer com cuidado:
-
Já disse que posso te dar o dinheiro, você sabe que não faz diferença pra mim.
E eu quero ajudar. –Ele usou o tom de voz que eu reconhecia como aquele só
usado para assuntos delicados. E esse era um deles.
-Eu
sei que quer, obrigada, mas não vou deixar você me sustentar. Não quero
discutir por isso mais uma vez. – Sem me soltar de seu abraço, me virei
esperando encontrar o costumeiro semblante aborrecido que ele fazia quando
falávamos sobre isso, contudo fui surpreendida com um beijo.
Agradeci
mentalmente por ele não estar nem um pouco disposto a falar sobre aquele assunto
desagradável de novo. Seu corpo fez pressão sobre o meu e senti sua língua traçar
um caminho da minha boca até meu pescoço, sorri quando ele voltou a me cheirar
compulsivamente, gesto que parecia estranho pra qualquer um que nos visse naquele
momento, mas que era algo nosso. Se é que eu podia me dar ao privilegio de
dizer que tínhamos algo só nosso.
–
Caralho, como eu senti falta do teu cheiro.
– Seus beijos subiram do meu pescoço ate minha orelha e soltei um
suspiro baixo enquanto ele deu dois passos para o lado, me puxando em direção à
mesa e erguendo-me um pouco fez com que eu sentasse sobre ela, imediatamente abri
as pernas para que ele se aconchegasse entre elas, e nos beijávamos o tempo
todo, na tentativa vã matar toda aquela saudade acumulada. Segundos depois
tirei sua blusa porque precisava urgentemente sentir a pele dele em contato com
a minha, logo em seguida ele abaixou minha blusa tomara que caia e uma de suas
mãos apertou meu seio sem o menor cuidado, enquanto senti sua outra mão deslizando
pelo interior da minha coxa e subindo até adentrar minha calcinha. Gemi abafado
ao sentir o toque dele, ele gemeu alto em resposta ao meu gemido. Sorri lembrando
do quanto adorava o fato do nosso prazer ser sempre mutuo, era igualmente
excitante para ambos não só ser tocado um pelo outro, mas tocar também. Nossas
esperas eram tantas que o toque era sempre urgente.
Assim
que seus dedos me penetraram, soltei um gemido alto e desesperado. Céus, como
eu sentia falta dele. Cravei as unhas com força nas costas dele, e encostei
minha cabeça em seus ombros, aproveitei a posição para sentir o cheiro dele,
inspirei profundamente e me senti tomada por aquela sensação inebriante de
reconhecimento do cheiro de alguém, que às vezes funciona como uma droga pra
gente. Não podia ser normal gostar tanto do cheiro de alguém assim. Ele conhecia
meu corpo melhor do que eu mesma, e sabia exatamente onde me tocar, então não
demorou muito pra que eu atingisse meu primeiro orgasmo. Joguei a cabeça pra trás
me entregando completamente a sensação que era ter ele dessa forma novamente
depois de longos dois meses. Senti o orgasmo tomar conta do meu corpo, mas não
pude aproveitar a sensação por muito tempo, pois ele me levantou da mesa e com
certa brutalidade virou-me de costas pra ele, me botando de bruços. Meus seios
e meu rosto encostaram-se à mesa fria, mas eu não ousei reclamar, entretanto tive
que quebrar o silêncio quando o escutei tirando o cinto e abrindo o zíper da sua
calça:
-
Não, aqui não, a Karina pode chegar. –
Eu disse, inclinando um pouco a cabeça em sua direção.
-
Não vai, ela está com o Tom. Não vai aparecer aqui tão cedo. – Quando ele
terminou sua frase, sua calça caiu até os joelhos, e ele desceu minha calcinha até
o meio da coxa. Esperei por agressividade, mas ele me penetrou lentamente, como
se estivesse aproveitando cada segundo daquilo. Eu sei que eu estava. Nossos
gemidos preencheram o ambiente durante todo o tempo em que ficamos ali, tentando
compensar o tempo em que tivemos que ficar longe.
Eu
sentia falta dele, meu Deus, como eu sentia falta dele, mas estava tão acostumada
a isso que eu me desesperava e logo em seguida me acalmava. Como se as coisas
só funcionassem nessa ordem: eu só conseguia manter a calma depois de perdê-la.
É claro que eu tinha o cuidado de nunca enlouquecer enquanto estivesse na
presença dele, para ele eu era a pessoa mais centrada do universo, vez em quando
soando até fria e distante, nós nos conhecíamos há um ano, mas estávamos juntos
somente há sete meses, e a situação era muito complicada. Eu dosava tudo que eu
fazia e dizia por que eu não queria ser um peso; e com medo de pesar nos ombros
dele, ele acabava pesando nos meus. Com ele as coisas pareciam funcionar de
forma bem diferente. Era visível seu conforto em agir naturalmente perto de
mim, o que fazia sentido considerando que eu sabia tudo que acontecia na sua
vida e ele não precisava esconder nada de mim, ele não precisava mentir pra
mim. Ele só precisava mentir sobre mim.
-
Vou passar a noite com você, tudo bem? – Ele perguntou enquanto vestia sua calça
novamente.
-
Ah vai, é? E como você conseguiu esta proeza? – Sorri maliciosa. Eu não gostava
desse assunto tanto quanto ele, mas eu disfarçava muito bem, e era
divertidíssimo ver como ele ficava desconfortável.
-
Eu e Tom voltamos mais cedo de Sydney, dissemos que tínhamos um
compromisso. – Ele tentou ser breve, mas
eu insisti:
-
E elas acreditaram? Tom é um péssimo mentiroso! Ele fica tão nervoso que não
deve convencer nem o filho. – Eu perguntei rindo enquanto caminhava até o fogão
e ligava o fogo para terminar de cozinhar o que eu havia começado.
-
Ele ficou, mas eu o ajudei. – O escutei respondendo e virei o rosto em sua
direção, pra ver sua expressão ao ouvir o que eu diria:
-
É porque você, meu bem, é um mentiroso exemplar. Merecia ganhar um óscar. –
Achei que ele fosse ficar ofendido, mas ele gargalhou e respondeu enquanto ia saindo
da cozinha em direção ao corredor que levava aos quartos:
-
Sim, eu sou. E você pode me premiar mais tarde. – Cínico! Gargalhei junto com
ele.
Desliguei
o fogão, finalmente terminando meu almoço, e comecei o botar a mesa para duas
pessoas, imaginando que ele estaria com fome depois da viagem longa da Austrália
até aqui.
-
Você quer comer? - Perguntei aumentando o tom de voz, na esperança de que ele ainda
me escutasse. Como não obtive resposta, caminhei até meu quarto no qual sabia
que ele havia entrado, empurrei um pouco a porta, e o vi dormindo abraçado ao
meu travesseiro. A cena foi adorável, não tive como não sorrir. Ele já havia adormecido
ao meu lado algumas vezes, mas nunca na minha casa, em minha cama. Ter ele por
um dia inteiro, sem me preocupar em vê-lo indo embora apressado algumas horas
depois seria memorável, principalmente por ter em mente que isso não aconteceria
de novo tão cedo. Não ousei acorda-lo, apaguei a luz e encostei a porta com
cuidado, voltando para a cozinha.
Servi
minha comida, sentei a mesa e antes de começar a comer, vi meu celular vibrando,
olhei a tela e era uma mensagem de Karina: “meu deeeeeeeeus, eu tô na casa
dele, socorro amigaaaaa, tô feliz mas tô nervosa, quando voltar pro apê amanha
te conto tudo, aproveita com teu boy, beijo, te amo”, respondi a mensagem dela
pedindo calma, uma brincadeirinha interna nossa, e disse que também teria muitas
coisas pra contar. Seria um dia longo para nós duas, mas também de um avanço
gigantesco. Haja paciência pra aguentar o turbilhão de emoção que estaria por
vir, haja paciência.

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