terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Stop stealling my heart away.


   Aquela foi a primeira vez. Em 17 anos da minha vida, eu finalmente experimentei, digamos, o fracasso. Durante todo esse tempo nunca houve nada que eu realmente quisesse e não tivesse conseguido. Nunca. Essa foi a primeira vez.
   Toda vez que eu precisava ficar sozinha vinha pro galpão da minha casa, tinha os velhos discos do meu pai, algumas peças de carro, fotos antigas, a cadeira quebrada de balanço do vovô, e era quieto, calmo, silencioso. Quando eu tinha cinco anos comecei a fugir pra cá toda vez que eu queria ficar sozinha, trazia bonecas e passava o resto do dia brincando ou mexendo nas coisas do meu pai. Uns dez anos depois eu troquei a cadeira quebrada por um sofá confortável, e trouxe os meus CDs e um radio portátil, assim eu poderia passar o dia inteiro aqui, às vezes nem saia. Não era o ambiente mais moderno de todos, mas eu me sentia incrivelmente confortável, como não me sentia em nenhum outro lugar.
  Acendi meu cigarro, aumentei o volume da música e apaguei a luz deixando somente o raio de sol, que passava pela janela, clarear o resto da sala. Deitei no sofá e fechei os olhos, tragando meu cigarro e deixando todos os acontecimentos do ultimo mês passarem pela minha cabeça. Eu prometi que essa seria a ultima vez que eu pensaria nele, sobre ele, qualquer coisa que tivesse a ver com ele. E no mesmo segundo que ele invadiu minha mente, ouvi alguém batendo na porta. Devia ser a Karina, ela era a única que conhecia esse lugar. Me levantei contra minha vontade, e fui ate a porta, abrindo-a e me surpreendendo com quem era.
- Oi. - Ele sorriu meio encabulado.
- O que você ta fazendo aqui?
- Sempre receptiva. Não vai me convidar pra entrar? -Ele perguntou e eu me afastei dando espaço pra que ele entrasse. Fechei a porta em seguida. Ele se sentou no sofá e eu me sentei ao lado dele de forma que ficássemos de frente um pro outro, cruzei as pernas e ele fez o mesmo. Traguei meu cigarro sem quebrarmos o contato visual.
- Não sabia que você fumava.
- Não fumo. E você não sabe muitas coisas sobre mim.
- Nem você sobre mim.
- Eu sei disso. Essa é a diferença. Você acha que me conhece, já eu tenho plena certeza que não conheço você.
- O que você quer de mim? -A pergunta dele foi inesperada, mas não me surpreendeu.
- Você veio até aqui, você me diz o que você quer.
- Mas foi você quem me procurou a primeira vez, então me deve essa resposta.
- Não sei.
- Essa é sua resposta?
- É a única que eu tenho. -Ficamos em silencio por um breve segundo e eu continuei com a única coisa que me veio à cabeça:
- E você, o que quer?
- Esse lugar é escuro. Não tem luz? -E ele respondeu com a primeira coisa que lhe veio à cabeça provavelmente, mas não devia ter sido a única.
- Eu gosto assim.
- Você é estranha.
- É, você já disse isso.
  Ficamos em silencio de novo. Todas as vezes que conversamos, eu falava algo, mesmo que quisesse ficar em silencio, dessa vez eu iria me permitir calar. Ele que falasse se tivesse algo a dizer. Permaneci sem dizer nada apenas tragando meu cigarro e o observando, enquanto ele ora olhava pelo local, e ora olhava pra mim, fazia perguntas banais e eu respondia curtamente. Enquanto ele estava ali, parado na minha frente, tentei terminar de analisá-lo, todas as teorias que eu tinha sobre ele, todas as noites que eu perdi tentando entende-lo, alguma coisa que me explicasse porque eu o queria, e de onde diabos isso tinha surgido. Nenhuma das noites perdidas me ajudaria em nada agora, porque eu simplesmente tinha me dado conta que havia chegado o fim, e o mais incrível era que nada nunca começou. Pode uma coisa terminar antes mesmo de começar? Parecia que sim, mas começando ou não, terminando ou não, eu achei que iria doer pra sempre, talvez não pra sempre, mas por um bom tempo. Eu espero que não, espero que passe logo, não queria gastar mais um minuto do meu dia, mais uma gota de lagrima com ele. Eu sei que fui ate onde pude, e teria ido mais longe, mas chega uma hora que você bate de frente com a pessoa. Não se pode ir além do que permitem que você vá. E ele me barrou antes mesmo de me deixar entrar. As pessoas normalmente fazem isso por medo, mas eu só conseguia pensar que ele não se importava. E prometi pra mim mesma desde o começo que não esperaria nada, que não criaria expectativas, e eu juro que não criei, talvez por isso eu ainda esteja inteira. Mas doía. Dói. Às vezes o que não acontece dói mais do que o que aconteceu. Eu não estava esperando, mas isso não permitiu que não machucasse. Mas eu tinha de parar. Eu precisava parar agora ou aquilo ia me matar. Eu sempre acreditei que a gente não pode desistir das coisas que desejamos. Mas o segredo não ta na persistência e sim na tentativa. Você me entende? Digo, as coisas que tem de acontecer irão acontecer. Você pode tentar, e se você conseguiu, não é porque você não desistiu e sim porque tinha que acontecer, tentar só era o caminho mais curto. Mas tem coisas que não são pra ser, e se você ficar com a idéia de não desistir na cabeça, você só vai se machucar, porque você vai insistir em alguma coisa que nunca vai acontecer. E assim como algumas coisas são pra ser, outras não são. Então você tem que saber à hora de lutar, mas também tem que saber à hora de parar. O importante é fazer a sua parte e esperar que o destino faça a dele. Uma vez eu li uma frase que dizia ‘’O que tem que ser tem muita força.’’ E essa é a mais pura verdade.
  Levantei do sofá e fui em direção a porta, abri e quando dei o primeiro passo pra fora, parei. Joguei meu cigarro no chão e respirando fundo voltei e fui em direção a ele que estava de pé pronto pra perguntar algo quando o silenciei com um beijo. Apenas um toque dos lábios durante alguns segundos, e antes dele reagir eu me distanciei, dando as costas pra ele e indo em direção a porta novamente.
- Aonde você vai?
- Embora.
- Como assim, por quê?
- Porque você não me pediu pra ficar.
  E então sai, andando em passos apressados sem direção. Eu não ia voltar aquele galpão por um bom tempo, alias, pelo tempo em que fosse necessário pra que eu esquecesse que um dia ele esteve lá. Talvez demorasse, talvez não. Eu só sabia que não voltaria até ele sumir, de lá e de mim. Continuei fazendo algo que eu sempre fiz: caminhar sem rumo, pra lugar nenhum. 

3 comentários:

  1. esse rendeu heim?! ô eterno platonismo.
    enfim...fim?! ou + um capítulo está por vir??

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  2. Amo seus textos *-* você é uma ótima escritora parabéns ;D

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  3. aaaaaaaaaaaaaaaaaaawn, é o jeito que eu me encontro pra me expressar, to longe de ser escritora ainda hihi obrigada de verdade, por ler e gostar <3

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